13 – SOB O PONTO DE VISTA DAS PSICOPATOLOGIAS

Por Wilson Solon.  

O GOLPE

Em função das várias combinações possíveis entre as componentes psicológicas (e ideológicas, em particular) da mente humana, torna-se oportuno recapitular os conceitos absolutos que muitos insistem em ver como “relativos”. As relativizações somente são válidas para as oscilações pessoais: da razão, entre a lucidez (e a decorrente sabedoria) e a extrema ignorância; ou das emoções, entre o altruísmo e o egoísmo extremo (ou o ódio patológico).

Analogamente, nossa análise geométrica já localizou o ‘ponto de equilíbrio’ absoluto – à esquerda – do espectro ideológico, como condição necessária e suficiente para o entendimento dos conflitos posteriores. Os respectivos afastamentos deste ponto – seja do indivíduo, seja da sociedade – já nos fornecem medidas visíveis, embora incompreensíveis, se escolhemos outra localização para a “normalidade”, física ou mental, que não sejam a sanidade e a dignidade da natureza humana.

Em outras palavras, o indivíduo adoece, de alguma forma, quando afasta o seu referencial emocional do homem; e tende a corromper-se à medida que o aproxima do capital. Assim como qualquer subgrupo social, político ou econômico, quando retira o foco da sociedade e transfere suas prioridades para o tal mercado, contribui, na mesma medida, para aumentar os indicadores sociais de miséria e corrupção.

Ideologicamente, portanto, há somente duas opções para um cidadão de esquerda: se for altruísta, continuará a desfrutar de sua paz de espírito e equilíbrio emocional (exceto sob os ataques de golpistas); se for egoísta, ou sucumbir aos assédios das ambições desvairadas, enfrentará o incômodo juízo da consciência (outra componente psíquica natural) como todos os seres humanos. Não obstante, terá também um aliado exclusivo – na própria ideologia social – que o ajudará a retornar ao equilíbrio.

Já a “lógica” mental da direita só pode ser resumida no conceito de “caos”; embora este, para os sofistas, seja também um componente psíquico “natural”. Mas não discutimos em que recanto da natureza cada um escolhe viver, apenas as alternativas mais favoráveis à vida. E quem escolheu como referência o capital, de fato, terá tantas opções quanto o capitalismo lhe pode oferecer: a imponderável excitação dos lucros, a trepidante flexibilidade do mercado, ou a sedutora liberdade de se atirar em algum abismo.

Com efeito, o capital (assim como os deuses), como conceito, não só permite infinitas relativizações como parece estar em todo lado: nas imprevisíveis oscilações das bolsas, nas remunerações por uma atividade escolhida, ou mesmo odiada, já que os ganhos são o maior atrativo para os capitalistas fervorosos. Ser ou não egoísta tampouco terá mais importância do que a volúpia de acumular.

No entanto, se os capitalistas vorazes forem, além disso, altruístas, quem sabe um dia compartilharão sua fortuna, ao menos com os eleitos de seus corações (e barrigas) em constante hipertrofia. O mais difícil será perceber quando já engordaram seu patrimônio o suficiente para começar a exercitar sua generosidade.

Inevitavelmente, nesse turbilhão de emoções irreais, os problemas reais já começam a surgir desde que a razão é perturbada; a seguir, deliberadamente relativizada; até ser obrigada, tardiamente, a voltar os olhos para o mundo real: o indivíduo, quando vê suas expectativas frustradas no meio social; e a própria sociedade, quando percebe que nunca será capaz de suprir, matematicamente, a totalidade das expectativas. A rigor, nem as mais elementares necessidades individuais de todos os seus membros.

Prossigamos, portanto, pelas densas florestas das ideologias, na árdua tarefa de fotografar as raízes da corrupção, outrora ocultas; ou desprezadas, porque só pareciam alimentar algumas ervas daninhas. Hoje, já as vemos contaminar os exemplares mais frutíferos da produção nacional (do petróleo à construção civil), entre tantos outros efeitos literalmente danosos a biomas inteiros – como a Amazônia. A lista não caberia neste espaço.

Não obstante, em nosso percurso, manteremos nossas câmeras lado a lado com as da Globo, como pontos de vista, é claro (jamais como propagandistas dos descalabros), mas sem dispensar nenhuma das ferramentas (históricas, geométricas, estatísticas) já utilizadas; em especial, as psíquicas, doravante indispensáveis para atravessar os territórios mais espinhosos.

E continuaremos a utilizar as ideias universais e os paradigmas do plano “imaterial” (ideal, psíquico, espiritual), mais eficazes do que os estreitos limites econômicos ou partidários (à exceção dos partidos cujas práticas também se comprovem universais), para assim evidenciar os aspectos qualitativos e quantitativos do que ainda parece imensurável, para as ditas “ciências humanas” e para os analistas políticos mais limitados.

Nesse sentido, volto à falsa premissa já referida (sob o ponto de vista Histórico), para descartá-la em definitivo: a impossibilidade de reconhecer com precisão as “metades” esquerda e direita do espectro político brasileiro. Reitero que elas são partes avassaladoramente desiguais. Mas acrescento: na proporção inversa do que se pensa e se vê representado, por exemplo, no Congresso Nacional (do qual extrairemos em seguida as contraprovas).

Quem afirmaria, em sã consciência, que os seres que respeitam os demais (mais do que os odeiam) ou a sociedade (mais do que a desprezam) seriam apenas “cerca de metade” da população? Tratemos de desconstruir esta falsa premissa da direita, para comprovar a verdadeira: a bondade inata do ser humano. Do contrário, deveremos acreditar que metade da humanidade está enferma, o que não se conhece em nenhuma espécie natural na Terra.

A imensa maioria (ou a quase totalidade) da nossa espécie é saudável, por natureza. E generosa, (fosse somente) por autopreservação. Portanto, socialista, por definição. Ainda que não o saiba, precisamente porque a imensa maioria (ou a quase totalidade) tampouco conhece as ideologias, a política, a economia; nem pensa sobre essas questões mais do que é obrigada a se alienar.

Mas obrigada por quem? A resposta é tão evidente quanto a primeira “razão” da alienação: pelos capitalistas, é claro. Os mesmos que convencem a todos que os socialistas seriam, na melhor das hipóteses, apenas uma “metade”, para que assim possam ocupar (pelo menos) a outra metade. Reitero que eles jamais teriam tanto espaço na ordem natural, se não a subvertessem.

Não por acaso, seus instrumentos “investem”, literalmente, nas duas componentes psíquicas que investigamos: através das emoções, nas ambições desvairadas e nas seduções consumistas (midiáticas e globalizadas); através da razão (relativizada, como já vimos), pela divulgação de mentiras que, na aparência, seriam “indesmentíveis”. Na essência, o capitalismo já fornece a dimensão da própria esquizofrenia.

Na mesma medida, suas premissas (ou promessas) materiais – o capital e o mercado – já começam por destruir o equilíbrio natural do espírito humano. A rigor, temos a primeira evidência (apenas matemática, admito) de um paradoxo ideológico: em qualquer sociedade, a soma das riquezas acumuladas pelos “senhores do mercado” é diretamente proporcional à miséria material dos demais indivíduos.

No plano “imaterial”, esse desequilíbrio equivaleria a outra equação matemática – das ambições exageradas e das frustrações inevitáveis. Talvez  pareça ainda mais abstrato quantificar emoções doentias, embora elas sejam tão reais quanto irrealizáveis estatisticamente (como as pretensões de se ganhar na loteria, por exemplo). Por outro lado, falamos de efetivas energias psíquicas, ora apenas manipuladas, ora de fato patológicas, que poderiam ser utilizadas para o bem-estar pessoal e coletivo.

No caso do Brasil, também não seria necessário reproduzir as cifras astronômicas (mas conhecidas) que dessangram o orçamento do Estado para amortizar apenas os juros das “dívidas” com os mercados financeiros. Esses números, no entanto, já são suficientes para desmontar o análogo paradoxo político, igualmente falacioso: a “popularidade da direita”. Voltemos assim ao Congresso Nacional e às provas da esquizofrenia capitalista.

Para nós brasileiros, sobretudo depois de conhecermos com clareza os dois lados da “moeda” (o perverso, de sempre, e o desenvolvimentista, como nunca antes do PT), parece difícil entender a eleição do parlamento mais reacionário e corrupto de todos os tempos. Para os simplistas, a causa óbvia desse enigma já se explicaria por si mesma: o abuso do poder econômico nos processos eleitorais.

Ainda assim, por que a representatividade e a influência da direita sempre se mantêm inversamente proporcionais à efetiva satisfação das carências dos eleitores? O enigma aparente contém na verdade as duas contraprovas referidas, ou seja, as “aparências” são, literalmente, a espinha dorsal de um duplo engano: a retórica capitalista em geral e o corrupto neoliberalismo nacional.

A primeira contraprova (emocional) já demonstrou – ao fim dos governos petistas – que os brasileiros nunca antes estiveram mais assanhados com a prosperidade: os capitalistas, porque tinham os bolsos repletos, para exercer a plenitude de seu poder de sedução; o povo, porque encheu pelo menos o estômago, talvez o bastante para se despreocupar de suas antigas necessidades; e afinal também sucumbir às seduções desnecessárias da propaganda midiática e do capital.

Só faltou ao PT ser mais didático (e antes aprender) com o que pensou ser intuitivo, ou inimaginável, em democracia: uma vez que os “marginais” tivessem trabalho, os assaltantes mais temerários já não entrariam pelas janelas de nossas casas; mas sim, como nunca, pelas telas da TV e corredores dos palácios governamentais e judiciais.

Não menos surpreendente foi a esquerda, por presunção (ou talvez mais por modéstia e ingenuidade) não ter criado uma única alternativa – televisão, jornal ou o escambau (como dizemos os cariocas) – capaz de fazer chegar a sua versão do assalto a todos os brasileiros. Ou antes o evitasse.

Mas há a segunda contraprova (racional) que corrobora as fraudes ideológicas: a campanha eleitoral da direita, em 2014 – com o inestimável suporte da Rede Globo – promoveu a sua mais “absoluta relativização” da razão, vale dizer, nunca mentira com tamanho despudor.

A população, por sua parte, através de seus representantes parlamentares, deixou explícita sua há pouco referida alienação (ou “virtual” ignorância) em relação à economia, a qualquer ideologia e à própria política. Exceto, é claro, na eleição majoritária, onde havia o contraponto das figuras empreendedoras de Lula e Dilma.

Hoje, portanto, seria impreciso determinar se o Congresso, as assembleias legislativas e as câmaras municipais são os órgãos tomados pelo câncer, e os eleitores são meras metástases, ou vice-versa. Mas podemos afirmar, com precisão matemática, que todos adoecemos em algum nível. Na melhor das hipóteses, os brasileiros comprometidos com os conceitos absolutos – de sanidade, dignidade e honestidade – padecem de profunda vergonha alheia, pelos assaltos à Ética e à Democracia.

Por outro lado, todos (ou quem ainda não sofre de miopia ideológica nem de ódio psicopatológico contra o PT) sabemos igualmente que os representantes dos valores mais sadios sempre se tornam alvos preferenciais dos trapaceiros. E temos as provas de que as violências e traições crescem proporcionais à resistência de uns poucos jogadores. Até que os mais íntegros – como Dilma e Lula – sejam expulsos de cena e o jogo deixe de ser democrático.

Ou até que a sociedade admita sua “virtual” endemia moral e decida reagir – condição essencial para a cura. Das teorias à prática, o contrário do que tem sido a gestão – literalmente insana – das sucessivas epidemias que eclodem, ano após ano, nos territórios geográficos e sob a “sintomática” gestão do consórcio entre o PSDB, o PMDB e a Rede Globo – com suas respectivas conexões judiciárias.

 


 

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