15 – SOB O PONTO DE VISTA DOS CORRUPTOS

Por Wilson Solon.  

O GOLPENesta já longa expedição rumo às raízes ocultas da corrupção, fomos desviados pelos discursos econômicos da direita. Na verdade, desviar as atenções é seu mister. Por outro lado, conhecer seus discursos nos acrescenta um número proporcional de sinalizadores de volta aos corruptos que investigamos. A rigor, os novos dados psicológicos, individuais e sociais, abrem autênticas autoestradas em direção a esses territórios outrora ocultos, ou apenas dissimulados.

Portanto, nos planos social e ideológico – pela própria proximidade, acumulação e idolatria do capital – já se torna redundante, ou ridículo, especular se a facção mais vulnerável às contaminações do capitalismo seria a esquerda ou a direita. Mas antes das provas materiais, vale sublinhar que essa lógica também é válida para os indivíduos.

Tão graves quanto os assédios exteriores do capitalismo são os “vírus” silenciosos – o egoísmo, a avareza, a ganância – que se alojam no interior do espírito humano; e terminam por afetar a visão e o discernimento dos valores absolutos – como a honestidade e a imparcialidade – antes mesmo que a delinquência se manifeste nas relações materiais, ou na pessoa de um corrupto.

Esta mesma lógica “pato”gênica (das fiesps e congêneres econômicas) também se aplica aos distúrbios psíquicos dos políticos, tão mais evidentes quanto mais se desviam à direita: pela razão “relativizada”, até que se desmascarem suas justificativas, para se afastar do ponto de equilíbrio; e pelo emocional, quando afinal as ambições se transformam em ódio contra quem as denuncie; não raro, por afinidade patológica, alguém da própria facção (ora um “centrista” dissimulado, ora um fascista mais exaltado).

Com mais frequência, o consórcio – entre as mentiras e o egoísmo – se estabelece muito antes que alguma patologia, moral ou física, seja denunciada na matéria. No entanto, um desvio emocional não prescinde do que já foi descrito como uma efetiva “ideologia da corrupção”, o que podemos confirmar em todos os níveis – pessoal, social, institucional e, literalmente, “global” – do capitalismo.

Partiremos do nível mais primitivo, onde ninguém discute que as forças motrizes da direita capitalista são as mais poderosas; ou de seus extremos ditos “subjetivos” – a ambição e a ira descontroladas – mas que geram e gerem, afinal, os mecanismos objetivos: ora os propagandistas (ou perseguidores dos que pensam fora da “caixa de imagens”) ora os multiplicadores do capital (sempre mais especulativo do que produtivo).

Assim passamos ao outro nível paradoxal; a rigor, um paradoxo em cada nível, entre a realidade e a ficção. A começar pelo nível empresarial: o que deveria ser apenas literal (e não mais do que uma empresa) se converteu num monopólio “global” das comunicações. Entretanto, nos níveis moral e ético, a pujança aparente (pelo menos na construção de grandes cenários fictícios) acabou por pretender reconstruir também a realidade – “à sua própria imagem”.

Mas foi no nível coletivo (e também individual, como veremos), onde se construiu o maior dos paradoxos. A Globo manipulou, selecionou, escondeu, mentiu e corrompeu, com tal volúpia, que afinal se revelou “digna” de seu público “cativo”: os alienados intelectuais e os portadores das mesmas ambições patológicas; na melhor das hipóteses, as mesmas multidões que, a seu pedido, foram às ruas implorar pela destruição dos próprios benefícios, direitos e empregos.

Ainda que a autopropaganda da Globo dissimule as estatísticas de suas audiências (e dos respectivos paradigmas mentais), ou incluam nelas os que vão buscar informações também em outras fontes, sabemos que seu exército “fiel” já não espelha as melhores qualidades (exigidas pelos “mercados” – publicitário, empresarial, financeiro, etc.) e nem quantidades mais confiáveis, por exemplo, do que o eleitorado já conhecido do Lula.

Contudo, no nível individual (e também coletivo, como veremos), não tomo o ex-presidente como paradigma da corrupção (por absoluta falta de provas), e sim o ex-vice, e atual usurpador. Mas tampouco pela desconcertante quantidade das provas, senão pelo conteúdo pedagógico do comportamento de um corrupto: por cada um dos aspectos ativos e passivos das traições, ambições, omissões; e, sobretudo, pelo cinismo obsceno que esculpe os grandes caras de pau (oco, obviamente).

Podemos inclusive dispensar os conhecimentos psicológicos deste observador, talvez necessários para a construção de um personagem de ficção. Mas sempre podemos desconstruí-lo completamente, quando a realidade nos apresenta um canastrão como Michel Temer. Voltemos, a propósito, à já mencionada desconstrução literal (ainda que metafórica) sob um golpe que separasse os hemisférios direito e esquerdo do cérebro humano.

Antes convém retificar, em parte, o que foi dito (sob o ponto de vista psicológico): esse golpe – sublinho, no sentido psiquiátrico – é precisamente o que fazem, consigo mesmos, os grandes corruptos (os pequenos desistem antes que a consciência entre em pane). Por outro lado, ratifico o que disse: ninguém jamais conseguiu desconectar, em definitivo, as emoções da razão; embora muitos de fato tentem anular este intercâmbio, administrado pela consciência.

Em suma, o que se vê são os episódios mais patéticos de desconexão cerebral da nossa história. Ainda assim, temporários, como todos os ciclos epidêmicos, que matam e morrem, com a mesma brevidade. Na teoria, portanto, as “emoções capitalistas”, desprovidas da razão, tornam-se gananciosas além de qualquer limite racional; assim como a “razão capitalista”, desprovida de emoções, resulta tão cínica quanto perversa.

Na prática, a desconstrução de um personagem canhestro reproduz a anatomia política e o ciclo virótico dos demais capitalistas – do “centro” à ultradireita – cujos nomes e imagens já foram suficientemente veiculados pela Rede Globo. Mas, antes, todos foram representados, simbolizados e chefiados por um “presidente” que, notoriamente, tomou o poder, negociou, locupletou-se e subornou parlamentares – com propinas ou decretos exibidos em rede nacional – e, ainda assim, continuou presidente.

A perplexidade geral não se explica. Sente-se apenas, com vergonha alheia (às vezes própria, pela eventual cumplicidade). Não obstante, já é possível explicar a desfaçatez dos temerários quadrilheiros e de quem os fabricou. Pois sabemos que tais atores políticos, embora os mais obscuros da nossa política, foram trazidos das trevas em imagens sorridentes, diariamente enfiadas pelas retinas, goelas e casas adentro dos brasileiros.

E só tardiamente a Globo descobriu que eram corruptos? Eis a comprovação de nossas premissas: as emoções perturbadas necessitam de alguma cumplicidade da razão; por conseguinte, a direita a corrompe sem pudores, mas com justificativas, relativizações, publicidades enganosas e outros neologismos para velhos delitos (que já foram resumidos, sob o ponto de vista dos discursos econômicos).

E já temos também a explicação do enigmático fenômeno que os une a todos sob a mesma ‘cara de pau’: suas pós-verdades não são simples mentiras, mas bálsamos efetivos para suas emoções enfermas. No nível individual e no coletivo (como disse que veríamos), no entanto, convém ir além do mero diagnóstico de um corrupto, ou da investigação das corrupções de uma ideologia.

A humanidade já perdeu séculos de evolução intelectual na identificação dos “endemoniados” e outras masturbações teológicas. Hoje, nada é mais urgente do que admitir a necessária existência prévia (e os danos psíquicos inevitáveis) de alguma eficiente ‘ideologia da corrupção’. O capitalismo em vigor é o autêntico (embora não menos dissimulado) sucessor das velhas teologias.

A ideologia da direita é também o denominador comum aos que se afastaram do verdadeiro ponto de equilíbrio – o socialismo. Sem conotações partidárias, mas como um conceito unificador de todos os seres humanos na gestão de toda a sociedade. Assim como o capitalismo unifica uma vasta gama de políticos (liberais, centristas, alienados, neoliberais, conservadores, reacionários e neofascistas) que pouco têm em comum, além do visível desvio à direita – na direção do capital.

Contudo, chamo a atenção para as desproporções entre as respectivas “abrangências” ideológicas. Quantitativamente, por definição, a esquerda inclui a todos, tal como a natureza física; assim como admite qualquer forma de gestão social que não avilte a natureza humana. A direita capitalista já exclui – pela própria premissa “natural” de gestão – tudo o que não represente (e a todos que não possuam) algum capital. Ou que represente algum ônus para o mercado.

Qualitativamente, porém, o que é óbvio se torna insultuoso, para quem é são e digno; ou não seja portador de desvios (óticos e éticos, já analisados), vale dizer, a espécie humana em sua quase totalidade, perfeitamente demonstrável: quer no equilíbrio das leis naturais, quer no que se torna natural através das leis humanas (apesar da recente epidemia de sentenças judiciais e decretos insanos).

A direita e seus políticos já começam por ser uma fraude numérica, proporcional ao próprio acúmulo de capitais. Não deixariam de sê-lo também no Congresso Nacional, onde os numerosos BBBs (representantes da bala, do boi e da bíblia) talvez sejam menos famosos, embora ainda mais virulentos do que seus congêneres da Globo.

Por tudo isso, e não só, reitero que o capitalismo fornece as provas das próprias insanidades; a rigor, as contraprovas, para quem imagina que a ‘razão pura’ – ou a sanidade e a dignidade absolutas – possa sobreviver por muito tempo ao assédio das emoções desvairadas.

Em termos econômicos, portanto, a sistematização de uma ideologia – como o capitalismo – era condição necessária e suficiente para aplacar as emoções desequilibradas e legitimar as relativizações intelectuais. Embora esta premissa seja autodemonstrável, em cada um dos níveis mencionados, vale a pena finalizar com suas demais traduções.

Em termos “terapêuticos”, as patologias emocionais (egoísmo, ambições e ódios desmedidos) recebem, no capitalismo, eufemismos genéricos – “livre iniciativa” ou “saudável competitividade” – que, tal como esparadrapos sobre os tumores, apenas ocultam as doenças, legitimam as falsas terapias, e estimulam as metástases e epidemias.

Em termos políticos, já vimos que as patologias da razão – ou as ideologias irracionais – fornecem uma panaceia de analgésicos temporários para quem tem vocação para se corromper. Assim, as traições e subornos tornam-se meras “revisões orçamentárias”. E a psicoterapia capitalista – da atadura em torno do intelecto – explica as distorções decorrentes, por exemplo, na ineficiência dos nossos atuais “administradores”.

Em termos “religiosos”, porém, eles têm absoluta fé na sua ética relativa – em função das oscilações das bolsas e dos bolsos – pois todos de fato encontram o bálsamo e o perdão (temporários) na moral capitalista. Como quem outrora saía purificado da confissão católica, para continuar a pecar e a delinquir com a mesma “cara de missa”.

No entanto, só a psicologia dos maus atores explica as idênticas feições embalsamadas, no exercício de funções tão distintas (ora administrativas, ora delitivas), como ostentam os criminosos liderados por Michel Scissorhands (no seu caso, os espasmos manuais são as únicas evidências exteriores das tensões e do caos interior). Enfim, eles não são apenas maus, nem apenas mentirosos, pois de fato creem que merecem “percentuais” superiores como gestores do capital, do mercado e da coisa pública. Com efeito, eles são apenas loucos.

Em termos de “imagens”, por onde quase sempre termino, a “estética moral” do capital estimula a todos a consumir, supérflua e compulsivamente, mas antes determina quem pode, ou não, fazer parte do jogo. Não por acaso, estabeleceu-se uma estreita simbiose com a “moral estética” da Rede Globo, cujas imagens igualmente fazem publicidade do mercado, representam a ética e a estética das elites, ou criam as figuras públicas mais adequadas a cada papel político.

Mas nem sempre a Globo consegue evitar que seus personagens reflitam a corrupção original da própria matriz. Quando percebe os equívocos, seus “padrões de qualidade” (ou seus patrões sem qualidades) logo eliminam, exemplarmente, as aberrações que um dia foram criadas como “exemplares” para a sociedade, do comportamento à política: do Frota ao Zé Mayer; do Collor ao Waack; do Aécio ao Temer.

 


 

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