12 – SOB O PONTO DE VISTA PSICOLÓGICO

Por Wilson Solon.  

O GOLPE

Nos depoimentos anteriores, fizemos os percursos histórico e geométrico do que se convencionou chamar de esquerda e direita. A rigor, desvios políticos já seculares (ou desde a Revolução Francesa). Apenas nos faltou confirmar essas ilusões de ótica através dos efeitos produzidos sobre a psique humana, como o faremos agora.

Volto a recorrer, portanto, às três componentes “anatômicas” do espírito humano – razão, emoção e livre-arbítrio. Por ora, deixemos de lado este último (com sua capacidade de oscilar entre as decisões e as omissões), para nos fixarmos nas duas primeiras, vistas por todas as correntes de pensamento – políticas, ideológicas e religiosas – como capacidades paralelas (assim como os hemisférios cerebrais que as comandam).

Ainda sobre o que é unânime, todos podemos ver essas componentes em ação no mundo físico: ora em equilíbrio, ora como tendências (racionais ou emocionais) mais ou menos predominantes, segundo as características psíquicas de cada indivíduo. Na direção inversa, nunca se viu um ser humano desprovido de emoção e da razão (ainda que se possa duvidar desta premissa).

Por fim, também podemos distinguir a tendência predominante nos atos individuais, como associar as questões ideológicas ao intelecto, e os atos de corrupção, predominantemente, aos distúrbios emocionais (dos meros desequilíbrios às efetivas compulsões). Não obstante, dissociar as convicções ideológicas das práticas corruptas equivaleria a desferir um golpe, no cérebro humano, que rompesse sua unidade nas respectivas metades.

Ironias à parte, essa drástica separação (metafórica, é claro) talvez possa ser vista como uma solução: pelos mais passionais e sanguinários, como uma justa punição aos corruptos; e para os mais racionais, como um possível diagnóstico psiquiátrico da corrupção (na verdade equivocado, como confirmaremos).

Ainda não entraremos em controvérsias prematuras, antes de retificar outros equívocos acadêmicos acerca das ideologias e das “terapias jurídicas” mais adequadas a cada desvio. Contudo, utilizaremos como ponto de partida a controversa conclusão já explicitada no depoimento anterior: “a direita corrompe como regra; a esquerda, como exceção”.

Mas antes de introduzir na equação as questões psicológicas, ou os números que as comprovam, cabe explicitar também os fundamentos dessas duas facções em que se dividem quase todos os membros de uma sociedade (exceto os que não se fundamentam em coisa alguma, e apenas seguem a boiada).

Para que as falsas convenções e condicionamentos históricos não voltem a nos confundir, deixemos de lado os rótulos ideológicos, por enquanto. E consideremos somente os consensos em torno das definições econômicas, ainda que estas não sejam sequer conscientes, a priori; ou possam provocar todos os dissensos conhecidos, num segundo momento.

Seja como for, identificamos: de um lado, os espíritos que adotam por ‘princípio’ o homem e, por ‘fim’, o bem-estar social; do lado oposto, os cidadãos que veem o capital como ‘princípio’ e ‘fim’, na relação com os demais, através do mercado. Recordemos ainda os conceitos “absolutos”, em tese, que determinam as respectivas prioridades práticas: para os defensores do ser humano, a “sanidade” e a “dignidade”; para os adeptos do capital, a “ambição”, como sujeito, e a “fortuna”, como objeto final.

Estes últimos, no entanto, justificarão que a riqueza em si já asseguraria a todos uma vida saudável e digna; e os primeiros continuarão a afirmar que, para alcançá-la, o indivíduo não precisaria sequer enriquecer. E assim andaríamos em círculos até a eternidade, como cães furiosos atrás do próprio rabo. Ou como os nossos políticos, nos corredores do Congresso Nacional.

Na melhor das hipóteses, os capitalistas convencerão a si mesmos, e aos demais incautos, que as respectivas prioridades não são excludentes. Equivocam-se duas vezes: pela razão, porque subvertem o próprio conceito de ‘prioridade’ (etimologicamente, o que vem primeiro); e pelo emocional, porque não percebem o próprio conflito interior (e muito menos as suas causas), senão quando veem frustradas as suas expectativas desvairadas, no meio exterior.

Mais além da razão ou das emoções, eliminemos as subjetividades das discussões recorrendo ao conceito absoluto, antes utilizado no contexto ideológico e agora, no psicológico: o ‘ponto de equilíbrio’ (tanto para a Física quanto para a Ética). A Natureza já o estabeleceu, prévia e sabiamente, assim como nos permite perceber a sua manutenção ou a sua perda: nos corpos mais ou menos enfermos; nos espíritos, ora egoístas, ora ignorantes; e nas respectivas relações com os demais.

Faltou apenas sublinhar a óbvia relação entre o livre-arbítrio e o conceito de ‘prioridade’: quando fazemos qualquer escolha, já temos uma prioridade e, em que pese a redundância, colocamos as demais em segundo plano. Por outro lado, nas escolhas políticas, quando adotamos o ser humano como prioridade, não precisamos renunciar ao capital, como objeto secundário.

Contudo, se adotamos o capital como prioritário para a felicidade humana, no mesmo ato, empurramos o homem, necessariamente, para o plano secundário. Nem sempre temos consciência de que fazemos essa escolha paradoxal (para um membro da espécie). Ou apenas procuramos iludir a consciência, para nos sentirmos autorizados a adotar todos os procedimentos subsequentes dessa opção perfeitamente desumana. Eis a gênese, os mecanismos e a essência filosófica do capitalismo.

Alguns neo-sofistas lembrarão que a ‘não escolha’ é também uma prerrogativa do livre-arbítrio, embora esqueçam que a omissão corresponde à autorização implícita para que alguém, ou alguma entidade (política, religiosa, midiática) venha a fazer escolhas por nós, e por todos os omissos.

Agora sim, didaticamente, temos os elementos para revisitar as questões ideológicas, já imunes às polêmicas emocionais, e avançar em direção aos conceitos socioeconômicos, sem os equívocos intelectuais reproduzidos nos sofismas políticos de todos os tempos.

Em resumo, por definição e convenção, as chamadas esquerdas têm, conscientemente, o “capital humano” (intelectual e emocional) como prioridade absoluta; para a direita, inconsciente mas obviamente, a prioridade sempre será “o homem com capital”; ainda que sua fórmula mágica possa ser relativizada como “desejável para todos os homens”. Mais um sofisma.

Comecemos a desmontá-lo no plano ideológico (anterior aos ‘meios’ econômicos) e a partir das próprias linguagens humanas, que já estabeleceram definições precisas, em função de onde cada indivíduo coloque o seu referencial prioritário: se nos anseios do próprio ego – tecnicamente, o egoísmo – ou nas necessidades do outro – literalmente, o altruísmo.

Antes mesmo de cotejarmos estes conceitos psíquicos – naturais e universais – com os respectivos ‘princípios’ da esquerda e da direita, já parece evidente que, em regra, todo homem possui um ego, mas nem sempre algum capital. Passemos às outras exceções.

O homem, como conceito, inclui, necessariamente, todos os membros da espécie (masculinos e femininos); logo, como ‘princípio’ ideológico, não se exclui ninguém – nem os egoístas nem os altruístas (nem os indiferentes). Assim, um homem de esquerda altruísta constitui uma regra coerente, quando não um pleonasmo; um homem de esquerda egoísta é um “intelectual” confuso, ou ignorante de si mesmo; portanto, uma exceção à regra (como um Palocci, ou um Delcídio, se algum dia foram de esquerda), mas estatisticamente identificável como uma minoria esquizofrênica.

O capital, como conceito, já exclui a todos os que não o possuem; e, como ‘princípio’ ideológico, não inclui ninguém que o despreze (para além de suas necessidades básicas). Assim, um homem altruísta de direita é mais um confuso intelectual, ou ignorante de si mesmo; enfim, outra exceção. Mas um egoísta de direita é perfeitamente coerente com suas prioridades acumulativas e com a própria regra; e identificável, pelas estatísticas, como a ampla maioria de seu espectro ideológico – dos chamados “centristas” aos assumidos neofascistas.

Os membros da direita ainda argumentariam, “racionalmente”, que seres humanos possuidores de um ego, pela própria natureza, tendem a ser egoístas; emocionalmente, portanto, todos possuiriam um desejo “natural” de acumular capital, ao longo do processo civilizatório.

Sabemos que os capitalistas são bastante flexíveis ao medir os demais com a própria régua (ou não, quando lhes convém). Contudo, seus frágeis argumentos pessoais se converteram na justificativa e, segundo eles, na “necessidade” de estabelecer – para todos – novas regras intelectuais (ou ideológicas) nesse jogo acumulativo. Do qual participam cada vez menos cidadãos.

No entanto, antes de analisar o mérito de qualquer regra econômica, convém identificar a precedência de cada componente – racional e emocional – no comportamento humano, em função do que seria de fato natural, ou não. Na teoria, a “sanidade” e a “dignidade” seriam desejáveis para todos, da esquerda à direita. Na prática, sabemos que muitos se limitam a adotá-las, na melhor das hipóteses, como discursos teóricos.

Na impossibilidade de quantificar, ou de reconhecer com clareza, os sinceros e os hipócritas de cada lado, saliento o óbvio: qualquer motivação (emocional) do homem – por si mesmo, pelo outro, ou pelo capital – sempre precederá, naturalmente, as suas opções econômicas (racionais). Estas são necessariamente posteriores. Ou seja, o ser humano sente, em primeiro lugar, e só então escolherá alguma doutrina que explique, confunda, seja compatível ou incompatível com seus sentimentos.

Seja como for, em última análise, todos sentimos e sabemos que somente uma minoria da população pode se dar ao luxo de analisar ou sequer de conhecer, através da razão, os discursos e os representantes, quer da direita, quer da esquerda. A ignorância generalizada é, portanto, o fruto mais visível das carências educacionais dos mais pobres – de espírito.

Paradoxalmente, os seres ignorantes (de todas as classes) são também o combustível do mecanismo capitalista que pretende “suprir” a própria ignorância. E assim contribuem para agravá-la e perpetuar o círculo vicioso: através das manipulações midiáticas em geral ou de suas excrescências particulares – as “escolas sem partido” e outros “partidos sem escola” (como a Lava Jato, os MBLs e congêneres).

A ‘ignorância’, obviamente, constitui a premissa adicional com que prosseguiremos a investigação das teorias que se pretendem universais. E das incoerências psíquicas que desmascaram, na prática, as grandes “fraudes universais”: o capitalismo, por si mesmo; as censuras mais ou menos dissimuladas ao pensamento e às artes; e a maior porta-voz de tudo isso, no Brasil – a Rede Globo de Televisão.

 


 

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