14 – SOB O PONTO DE VISTA DOS DISCURSOS ECONÔMICOS

Por Wilson Solon.  

O GOLPEMesmo quando o óbvio, visível na matéria, já não permite dúvidas nem contradições, elas surgem intensas, como a teimosia dos que não querem ver coisa alguma. Para estes, e para as mentes mais preguiçosas do que teimosas, seria inútil prosseguir as observações com base em nossos instrumentos imateriais, ainda que sejam consensuais para o intelecto humano.

Como são os legados históricos, embora ninguém tenha presenciado os fatos; a lógica matemática, ou geométrica, apesar de abstratas; e as análises psicológicas, de fato estéreis para quem não reconhece sequer os movimentos da própria psique, que dirá sua possível lógica. Curiosamente, o que existe de mais imaterial, abstrato, ilógico e quase sempre estéril – as imagens e sons televisivos – converteu-se em “virtual” unanimidade para os brasileiros.

No entanto, a seguir à recepção pelos sentidos, o consenso relativo (às formas) logo se desfaz, em função da capacidade individual de analisar os conteúdos midiáticos, o que nem sempre é possível na prática. Particularmente em “matéria” econômica, bastante complexa para todos os espíritos. E também a que melhor dissimula as manipulações, bem mais perceptíveis nos conteúdos estritamente políticos.

Não obstante, os espectadores menos iniciados nessas informações técnicas, mas dotados de lucidez, aprenderam a dispensar, por si mesmos, os excessos de gráficos luminosos e comentários tendenciosos, nos quais se especializou o já tão dispensável e tardio Jornal da Globo (que até o ameaçador William Waack já foi dispensado). Os demais ignorantes apenas absorvem as imagens e informações que jamais compreenderão, mas sempre serão um agradável derivativo para os cérebros carentes de luz própria.

Nesse vácuo, os analfabetos políticos e econômicos vão assegurando as audiências da direita, em troca de uma vã ambição de encher os bolsos, ou dos temores de vê-los vazios. Não por acaso, os discursos que alimentam o círculo vicioso – de revalorização do capital e do mercado – ainda alcançam uma surpreendente “popularidade” no mundo moderno. Não raro, convertida em votos, como já foi analisado. Quando não, em golpe parlamentar. Ainda assim, com a conivência de amplos segmentos da população.

Eis o que nos cabe evidenciar melhor – do ponto de vista psicológico – nos respectivos discursos ideológicos, embora este exercício de tradução entre extremos opostos, para alcançar a “concretude” desejada, igualmente nos exponha a excessos incômodos, quer no conteúdo, quer na forma (como o uso proporcional das aspas, pelo qual já me desculpo). Mas sempre com o propósito de encontrar o ‘ponto de equilíbrio’, entre a razão e as emoções humanas.

No discurso das esquerdas (recordo: já mais próximas desse ponto), os apelos ao indivíduo se resumem aos aspectos fundamentais da cidadania: pela emoção, fazendo ver aos mais ricos que as ambições excessivas são incompatíveis com as necessidades coletivas; e pela razão, mostrando aos mais pobres, em primeiro lugar, que eles já são pobres (o que em si não lhes retira a dignidade). No entanto, se acreditam nas promessas generosas dos mais ricos, em pouco tempo, serão todos miseráveis.

E temos os discursos da direita, cujos defensores “sociais” são os políticos governados pela “ordem” econômica. Essa grotesca inversão da ‘ordem social’ já começa por se “inspirar” na flexibilidade original do próprio capital – impessoal, apátrida e até virtual, nos tempos modernos. Não por acaso, algo tão vago quanto o nosso chamado “centro” político (do PMDB e aliados); ou simplesmente inócuo, inconfiável e incompreensível (como um discurso de Marina Silva).

Mas, em seguida, os discursos capitalistas podem “evoluir” para a tecnicalidade mais requintada (ou neoliberal, por exemplo, do PSDB), assim como os próprios ‘meios’ de gestão do capital se sofisticam; embora sem prescindirem da relativização da razão, através das seduções consumistas em si, que se confundem (e a todos nós), ainda mais, com as manipulações publicitárias. Em suma, discursos perversos e perigosos, pelo próprio requinte sem alma (como tudo o que exala, por exemplo, do prefake Dória).

Para os menos carentes do capital – mas inteiramente da razão – há também as soluções extremas, que nada propõem na economia, não visam seduzir, nem questionar, nem confundir, mas simplesmente nocautear qualquer resistência dos ouvintes incautos; cuja maioria, ao contrário do que se supõe, pertence às classes mais elevadas (como o eleitorado do Bolsonaro). Como de resto, nos fascismos, vazios não são os bolsos, mas os cérebros e corações ignaros.

Em síntese, a “modernidade” exigiu da direita (sobretudo a neoliberal) que seus discursos incorporassem a vasta “riqueza” (de ideias, conceitos e mecanismos operacionais) do chamado “economês”, que apenas simula uma linearidade de conteúdos – como os gráficos e a confiabilidade aparente dos comentaristas da Globo. Ainda que tudo continue “virtualmente” incompreensível para os não iniciados.

Seja como for, até a esquerda deve reconhecer que existe muito mais glamour nos discursos da direita e de seus porta-vozes “globais”; cujos apelos técnicos e “democráticos” fomentam – de fato, sem discriminações – a ganância de ricos e pobres. Embora ninguém ignore que somente os primeiros podem ver suas expectativas saciadas pelo “mercado”.

Os complexos paradoxos, à primeira vista, também evidenciam outros desvios posteriores. Em termos ainda mais práticos e “econômicos”, a uma vasta gama de mercadorias – matérias-primas, produtos primários, cultivados ou minerais – hoje chamamos simplesmente de commodities. Além destas, uma série de produtos (artesanais ou manufaturados em pequenas fábricas), cujas origens eram conhecidas, até um passado recente, hoje são produtos em série, dimensionados pelos “standards da globalização”.

Em suma, o que antes era comercializado segundo as necessidades locais, ou pessoais, passou a ser negociado através de complexas operações nas bolsas de valores, cujos preços continuam a ser determinados pelas “leis” da oferta e da procura. Agora, porém, essas “cotações” são estabelecidas por um longínquo e imponderável mercado internacional. Embora continuem a pesar sobre os mesmos ombros (que o digam os consumidores nacionais do gás de cozinha).

Outros dirão, não sem razão, que a mesma modernidade também pode contribuir para reduzir os preços ao consumidor final. Mas não discordaríamos de quem observa o incremento proporcional (ou desproporcional) das margens de lucro dos grandes oligopólios industriais, dos chamados atravessadores, e dos meros especuladores em geral. Muitas vezes, já não é possível conhecer sequer a origem dos produtos e nem mesmo os custos reais de produção de cada região fornecedora.

Na impossibilidade de solucionar essas controvérsias ideológicas, voltemos à ‘relativização da razão’ através de sua manifestação mais emblemática – as linguagens humanas – como gênese e diagnóstico das distorções que investigamos. Para os mesmos fatores econômicos, esquerda e direita adotaram vocabulários próprios, ora apenas distintos, ora definitivamente impróprios, uma vez que se desviam do ponto de equilíbrio desejável.

Para tentar amenizar nossa indignação com certas utilizações do capital (e com a incapacidade dos corruptos e oportunistas se indignarem na mesma medida), devemos levar “em conta” a maior ou menor flexibilidade dos respectivos termos, significados e “valores”. Convém traduzi-los, portanto.

As limitações do vocabulário da esquerda ganham uma amplitude desconcertante nas mãos, nas bocas e nos bolsos da direita. Obviamente, não reproduziríamos aqui um dicionário econômico completo. Mas já vimos alguns exemplos “positivos”, para os defensores do capital. Outros podem ser resumidos no próprio termo capitalismo, equivalente ao socialismo, apenas como definições genéricas dos modelos “ideais” (no sentido literal) de gestão do Estado.

Opto agora por exemplos nem tão positivos, mas sempre pedagógicos, para a percepção das distâncias que separam as duas facções: o que a direita chama de “saudável competitividade” pode ser livremente traduzido, à esquerda, por “cobiça patológica”. E assim por diante: a aplaudida “ousadia empresarial”, por um “despudor acumulativo”; “estímulos negociados”, por “propinas”, ou “subornos”; “financiamentos sigilosos”, em geral, pela insofismável “corrupção”.

Com efeito, tudo é relativo entre as “pós-verdades” e as “mentiras midiáticas”, na busca das palavras necessárias para aplacar a consciência dos incômodos desnecessários. Analogamente, mas na direção inversa, a proteção aos mais fracos – prioridade da esquerda – se converte, à direita, em mero assistencialismo; as preocupações humanitárias não passam de demagogia ou populismo eleitoral; os investimentos sociais e as obras públicas essenciais geram apenas déficits orçamentários.

Na prática, a teórica “responsabilidade fiscal” da direita não permite outra tradução que não o desemprego em massa e os arrochos salariais (das mesmas massas). Na melhor das hipóteses, as propostas de esquerda são consideradas ingênuas, ou resultariam de análises numéricas tendenciosas. Como as deste cineasta, leigo em economia, mas sensível às dores de quem as sofre na carne; além de especialista nos dissabores do olhar (por solidariedade humana e dever de ofício).

Contudo, as miopias frequentemente se degeneram, em vários sentidos, nas acusações gratuitas, difamatórias e odiosas da direita (sobretudo contra o Lula). Mas também já vimos que, mais além das imagens e tendências subjetivas, os desvios óticos podem dimensionar os desvios éticos – ou vice-versa. E não só para o indivíduo.

Se extrapolamos os frutos do egoísmo para toda uma sociedade (como a nossa), as discrepâncias atingem níveis tão evidentes quanto assustadores. Particularmente, quando as realizações dos governos de esquerda são confrontadas com os desastres econômicos que os precederam (ou sucederam, no recente golpe de Estado).

Os que insistem em ignorar os indicadores sociais, em negar a própria miopia, ou têm dificuldade de interpretar a objetividade matemática, ainda assim, não conseguiriam desmentir o óbvio: as concentrações individuais de riquezas, como propõe a direita, jamais implicarão em benefícios coletivos; e inversamente, como já foi comprovado pela esquerda, a eliminação da miséria social será sempre benéfica para todos, inclusive para os mais insensíveis e gananciosos.

Para os que ainda têm dúvidas, ou má-fé, passaremos aos casos concretos, no próximo depoimento. Mas antecipo o que, em tese, penso já ser compreensível para ricos e pobres, espectadores passivos ou revoltados, diante de uma corrupção que, na prática, sempre exige alguns pré-requisitos: pela via emocional, uma espantosa quantidade de cúmplices individuais, egoístas e silenciosos; na contramão da razão, uma ideologia tão corrompida – em “fator cultural” – quanto pretendem seus divulgadores, nos domínios do “capitalismo global”.

 


 

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