5 – SOB O PONTO DE VISTA DAS RENÚNCIAS

Por Wilson Solon.

O GOLPE

Teoricamente, as renúncias decorreriam de alguma falta de intenções. Na prática, entre as palavras imprecisas e as intenções impenetráveis, uma renúncia pode ser quase tudo que se queira: o desapego do que já se tem, ou do que se poderia ter, mas também o apego a outras tantas coisas que poderíamos perder.

Dou exemplos mais concretos: para um governante decrépito e delinquente, que não tem intenção de governar nem de parar de delinquir (em causa própria), renunciar seria de fato uma saída sensata; mas não faria nenhum sentido para a presidenta Dilma, para o ex-presidente Lula, nem para todos os seres cujas causas sociais estão além das intempéries políticas, pois representam intenções mais universais.

Mas recordo ainda, no ponto em que interrompemos nosso recuo ao passado, que renunciar talvez parecesse uma decisão adequada para este cineasta (então com quase 50 anos) que tinha tantos motivos para se expressar quanto para se calar. Embora já não tivesse, dentro ou fora de cena, qualquer intenção de conduzir ninguém, em nenhuma direção.

Ainda assim, meu egoísmo não seria tão patológico quanto o de um delinquente; nem as intenções eram tão generosas como são as autênticas lideranças sociais (mesmo que compartilhássemos das mesmas ideologias). Em última análise, minhas renúncias eram puramente filosóficas. E (até onde me lembro) bem anteriores às controvérsias da matéria, onde nem o desprendimento nem a avareza dos adultos eram variáveis mais significativas do que as ambições do espírito – por liberdade e paz – desde a mais remota juventude.

Contudo, mesmo depois de identificar essas prioridades, a consciência não evitaria algumas frustrações e fracassos. Estes, por outro lado, tampouco impediriam que as ambições fossem saciadas. Enfim, no espaço que temos, resumo as renúncias mais enigmáticas ou equivocadas, para alguns, embora libertárias, para outros, como também o foram para mim.

A anatomia de minhas renúncias

No campo profissional, já referi a primeira delas, a um estágio de engenharia civil numa construtora de prédios de luxo – em tese, a porta de entrada para este cobiçado “mercado”; na prática, mais uma das fantasias com que os jovens são “educados” (ou coagidos) a servi-lo. Na altura, não percebi de imediato todas as causas de minha súbita aversão (ou premonição?). Mas, seja como for, tampouco voltei a pôr os pés num canteiro de obras de alguma empreiteira da construção civil

Não obstante, pouco tempo depois, passei a dedicar-me cada vez mais às construções de cenários magníficos, ainda que menos suntuosos do que os imóveis que o “engenheiro” teria adquirido (em condições privilegiadas) se os desejasse. A rigor, seria impróprio dizer que renunciei ao que nem sequer cheguei a cobiçar (e devo sublinhar que nunca fui rico).

A seguir, o jornalista parecia que teria um futuro mais promissor, naqueles idos de 80. Aos 25 anos, fui surpreendido com a repercussão do meu (único) artigo político-cultural publicado pela grande imprensa – na página central do então prestigiado Jornal do Brasil, com direito a ilustração, na edição de domingo. E acabei por ser selecionado como repórter da TV Manchete, com voz e imagem exibidas no seu telejornal (também uma única vez), anos antes de voltar àquela emissora como diretor de dramaturgia.

Nas duas oportunidades, falamos de novo das cobiçadas portas de entrada para o “mercado”, neste caso, jornalístico. Entretanto, tão logo alguma vaidade juvenil foi saciada, imaginei (ou antevi?) o que seria submeter as minhas “opiniões” a algum editor pelo resto da vida. Ou ao “Grande Opinador do Mercado” (quem saberia?), se os dois maiores concorrentes das Organizações Globo – a TV Manchete e o JB – viessem a ser expelidos um dia desse mesmo mercado (na altura, uma hipótese quase paranoica, mas hoje perfeitamente comprovada).

Optei então pelas prerrogativas dos diretores (já referidas como quase divinas): o poder, quando não o dever, de alterar as ideias e os textos que nos caem nas mãos (ou que nascem delas), em favor da eficácia da comunicação; ou, na pior das hipóteses, como prevenção do analfabetismo funcional.

A anatomia das manipulações

Recém-ingressado na TV, ainda no final dos anos 80, não tardei a perceber que as temidas limitações ao conteúdo, impostas pelo jornalismo, começam já pela forma, na teledramaturgia. Ou pela forma demolidora – da gramática, do bom senso e do bom gosto – antes mesmo que seus criadores (os autores, os diretores e também os atores) se interessem sequer por conhecer as respectivas regras, para que possam subvertê-las.

Com efeito, para concessionárias privadas de um serviço público (!), não convém oferecer conteúdos pedagógicos que cansem ou afastem as audiências. Este círculo vicioso da ignorância, porém, já foi explicado, pela existência de um monopólio “cultural” (ainda que na forma de um oligopólio, submisso à Rede Globo). Por conseguinte, nada se exige dos agentes “criativos” que vá além da “média intelectual” da população – por sua vez, estabelecida pelas próprias emissoras de televisão.

Em suma, no nosso “circo global”, a “lógica” ficcional estendeu-se ao jornalismo, cujas regras específicas, no entanto, exigem uma manipulação mais sofisticada dos conteúdos, ou das omissões (ainda que escandalosas, como o atual entreguismo da nação promovido pela quadrilha do Temer e naturalizado pela mídia). Obviamente, sob um monopólio da comunicação, todos assumem seus respectivos papéis na mesma frenética passividade: tanto os “atores” (lato sensu) mais vaidosos quanto os espectadores mais distraídos, apáticos, ou deslumbrados.

Em outras palavras, os estados de espírito “populares” revelam-se idênticos, quando as intenções reacionárias da ficção são traduzidas (e fomentadas) pelos “correspondentes” jornalísticos: a mera “distração” se converte em efetiva censura ideológica; a “apatia”, em alienação política; os “deslumbramentos”, em calúnias sensacionalistas, contra os adversários do establishment “global”. Torna-se desnecessário, portanto, sublinhar a hedionda perseguição ao mais emblemático de todos eles – Luis Inácio Lula da Silva.

Manipulações relativas e absolutas

Na relatividade semântica desses tempos circenses, tudo já se tornou tão claro que podemos até assistir ao Jornal Nacional, por exemplo, sem sequer nos preocuparmos com seu discurso seletivo, ou com suas imagens manipuladas (e sintomaticamente materializadas no próprio cenário pirotécnico, destinado a dissimular sua completa renúncia aos conteúdos críticos).

Sob uma perspectiva igualmente relativa – entre o ser e o não ser absolutos – jamais renunciei ao “jornalista”, uma vez que não cheguei a sê-lo de fato. Mas nesse caso, ao contrário do engenheiro, eu não renunciaria ao diploma (talvez outra decisão profética, neste país de insólitas perseguições a blogueiros indignados) e muito menos à liberdade de escrever como e quando quisesse, por prazer ou para exorcizar os desprazeres (como os recentes, da era pós-golpe).

Sintetizo a ambígua questão na minha renúncia profissional considerada a mais “emblemática”: para mim, de dois mundos inconciliáveis; para outros, de um convite “irrecusável” (formulado ainda na Europa) para dirigir uma novela destinada ao público hispânico dos Estados Unidos (em coprodução com o México e a Espanha) a ser gravada na Flórida – a porta de entrada para o mais cobiçado “mercado” audiovisual do mundo!

De fato não deixei de “vislumbrar” um caminho para o Oscar – a glória suprema para qualquer cineasta (sobretudo para um prisioneiro da televisão). Até que pudesse conquistá-lo, porém, não consegui encontrar as motivações para recomeçar (e suportar) uma carreira em solo americano, mais além da provável razão para ter sido convidado: falar os dois idiomas locais. Ainda assim, não respondi em nenhum deles, nem me recordo de quem o fez por mim, mas somente que faltei com a educação para não ser involuntariamente mal educado.

Não cheguei sequer a analisar os aspectos “artísticos” do tal culebrón (se algum existisse, além dos econômicos), para não ser obrigado a mencionar os “mundos opostos”, nem a razão para ter evitado uma “direção” contrária à própria razão. A começar pelo formato comercial das telenovelas: estreitas no conteúdo, para viciar pela banalidade; e extensas na duração, para aprisionar pelo vício.

Compreende-se que a estrutura de produção, os cenários e o elenco inalteráveis, ao longo de meses, de fato diluem os custos e aumentam os ganhos (publicitários) – proporcionalmente à exaustão da criatividade (e da paciência) de todos os envolvidos no processo.

Como discuto projetos, mas não orçamentos, e no meu currículo já havia três novelas (além das séries mais “elaboradas”, digamos), renunciei a uma quarta experiência do gênero. E, sobretudo, às incômodas “imagens” da Flórida. A rigor, tão desprezíveis para mim quanto atraentes para os seus admiradores mais representativos – os brasileiros e os cubanos.

Embora nacionalidades amadas e respeitadas (por motivos óbvios), suas respectivas direitas políticas já eram também as mais retrógradas e odiosas da América Latina (ao lado da venezuelana, é claro); na mesma medida em que foram “abençoadas” pelo capitalismo dos norte-americanos (neste caso, por motivos ainda mais óbvios).

Sonhos e pesadelos

Como sabemos, os fascistas e os alienados, do Brasil e de Cuba, sempre elegeram Miami, respectivamente, como o paraíso do consumismo (desde os primeiros proto-coxinhas) e o quartel-general da resistência ao comunismo. Não fosse o bastante, havia uma única nação contemporânea capaz de me provocar um desinteresse ainda maior do que o já assumido desprezo pela Rede Globo.

Com efeito, seria difícil explicá-lo a qualquer interlocutor. Assim como seria impossível viver na “civilização” que criara as estratégias, a ideologia e a “ética” do capital predatório. E que afinal patrocinara, no Brasil, um monopólio de “informação” capaz de manter nosso sistema econômico sempre atrelado à matriz.

Mas não me estenderei ainda nesses mecanismos perversos. Por ora, digo apenas que não experimentei e tampouco conheço um sentimento inferior ao desprezo (pelos EUA ou por qualquer outro objeto). Pois sempre soube que o ódio é mais generoso, uma vez que concede aos adversários a própria serenidade emocional, tão necessária para enfrentá-los.

A rigor, a maior potência e o maior monopólio do mundo ainda me provocam o mesmo orgulho (aliás, redobrado) do passado recente: pelo emocional, por nunca ter posto os pés em seus respectivos domínios; e pela razão, porque ambos confirmam as conclusões já apresentadas como conquistas efetivas (no depoimento anterior). Mas posso recordá-las, e até ampliá-las para os novos paradigmas: “a primeira, o prazer de desfrutar da plena liberdade mental; a segunda, a certeza de que existe vida inteligente fora da Globo”. E acrescento: também dos Estados Unidos.

Ainda assim, houve quem imaginasse (ou até lamentasse por mim) as oportunidades perdidas com tantas renúncias – o que na verdade pertence ao território da ficção, ou da futurologia. Insisto, de um ponto de vista mais realista, que ninguém renuncia ao que não possui. As fantasias não realizadas, portanto, não devem ser contabilizadas como perdas reais para as vocações e realizações pessoais.

Inversamente, são as fixações mentais coletivas, em “valores”, “mitos” e “paraísos” prometidos (e comercializados por terceiros, via de regra, em benefício próprio) que na verdade revelam o viés mais cruel das manipulações midiáticas – capitalistas ou religiosas. Mas como as abstrações filosóficas, para essas mesmas mentes, também podem sugerir uma perda de tempo, termino pelas provas concretas, tanto dos meus ganhos pessoais quanto de vida inteligente fora da Globo.

Notoriedade e visibilidade

Jamais seria o ‘acaso’ o que me permitiu admirar os políticos mais generosos e notórios da nossa história; além disso (e tampouco por acaso), os mais perseguidos e caluniados pela Globo – como o Brizola e o Lula. Através deste exercício permanente da consciência, igualmente conservo um imenso orgulho de ter dirigido os maiores nomes do Cinema e do Teatro brasileiros (e de Portugal). Sem falar das centenas de outros nem tão sonoros, embora não menos talentosos.

Mas antes procurei conservar a humildade (e também a ambição, é claro) de aprender com cada um desses pequenos e grandes mestres das artes cênicas. E antes ainda, estive sempre aberto às experiências e afetos (mútuos) que, por fim, me tornaram amigo de quase todos eles; e tão mais íntimo quanto permitiram as nossas afinidades e as horas de espera “ociosa” pela gravação da próxima cena. Embora não fosse possível citá-los a todos, posso agradecê-los através dos mais veteranos (ou mais “maduros” do que eu).

Muitos já partiram, porém deixaram suas imagens registradas, sobretudo, em nossas memórias – Sérgio Britto, Marília Pêra, Rubens Corrêa, Sergio Viotti, Iara Lins, Carlos Alberto, Carlos Dolabella, Cláudio Marzo, Ivan Cândido, Regina Dourado, Paulo Goulart, Nelson Xavier, Tônia Carrero. Outros seguem na luta – Nathalia Timberg, Othon Bastos, Betina Viany, Zezé Motta, Antônio Pitanga e “o nosso” Serginho Mamberti (cujas batalhas não são apenas as ficcionais).

Entre as tragédias da ficção e os dramas da vida real, compreensivelmente, alguns deles às vezes se distraem da realidade política. Contudo, deixo de citar somente os “velhos” fascistas (que também existem entre os artistas), para não atribuir suas lamentáveis posturas à senilidade e com isso reproduzir seus próprios preconceitos. Quanto aos demais, menos vividos ou conhecidos (além dos queridos portugueses), não só os conservo no coração como lhes sou grato por serem as provas vivas de minhas premissas.

Assim reitero que os artistas não se medem pela fama, pelos paradigmas de um monopólio, nem pela consequente discrepância de salários – ora indignos, para a imensa maioria, ora desproporcionais, para algumas “celebridades globais”. A rigor, nenhum deles dispõe de um efetivo mercado de trabalho. Portanto, nos dois extremos salariais, falo de um mecanismo real e escravizador da força laboral, na melhor das hipóteses, com os grilhões dourados de uma fama irreal.

Seja como for, todos os atores citados passaram pela Globo. Mas nem por isso deixaram de correr riscos com outras propostas imprevisíveis, de diretores “alternativos”. Nossos encontros – em territórios neutros – talvez não tenham representado nenhum ganho especial para esses ícones da Cultura. Para mim, no entanto, teria sido uma grande perda – de tempo, energias e coerência – se os tivesse conhecido em algum ambiente hostil à minha consciência, ou à lucidez de todos.

E onde eu nem sequer seria reconhecido por eles. Assim como muitos desses inocentes úteis ainda têm imensa dificuldade de reconhecer quem são os líderes genuínos da Nação.

 


 

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