1 – UNIFORMES E CAMUFLAGENS

Por Wilson Solon.  

GUERRA-3
foto de Ana Carolina Fernandes

Antes de expor a regra, começo pelas exceções. Talvez eu devesse ter falado da vitória (moral) da PT – a Paraíso do Tuiuti – ou da derrota anunciada (e imoral) do Exército Brasileiro aqui no Rio. Mas não. Seria redundante, diante de alegorias, figurinos e imagens que já dizem quase tudo. E o que falta, ainda deve ser visto, antes de previsto. Falemos, portanto, do que ainda pode ser alterado.

O mesmo vale para o assunto do ano, que se iniciou, excepcionalmente, antes do carnaval, no dia 24 de janeiro. Mas realmente não falei da (re)condenação do Lula. Penso que os corações, as mentes e os sacos dos brasileiros já estão irremediavelmente cheios: de indignações e amarguras, entre os mais lúcidos; de ódios e lavagens cerebrais, entre os demais espectadores de nossa mídia xucra.

Talvez eu nem devesse falar de política, pela primeira vez, no meu perfil pessoal do Facebook (que, aliás, pouco frequento), decisão já tomada há alguns anos. Quando percebi que emitir opiniões dessa natureza, para os que já gravitam em torno do nosso umbigo, além de um pleonasmo, revela alguma carência emocional, ou insegurança intelectual (das quais, imodestamente, não padeço).

E talvez eu devesse permanecer calado também pelas razões mais prosaicas: a maioria dos meus “amigos de rede social” vive espalhada pelo mundo (do México à Austrália, embora sejam, na quase totalidade, artistas e cidadãos portugueses). Penso que não lhes interessaria a minha opinião, nem a política, muito menos a brasileira.

Para os seguidores do fQ, ou da sua página e dos grupos políticos nos quais publico, também no Facebook (e para os poucos leitores que escapam aos seus novos algoritmos censores), talvez eu devesse ter falado ao menos da estranha sintonia entre essa mídia social e as outras – cujos paradigmas são estabelecidos pela Rede Globo – no longo processo de perseguições e torturas ao maior líder político da história do Brasil. Mas também não falarei disso.

Apesar de minha convicção pessoal e das sólidas evidências de uma simbiose entre as duas entidades orwellianas, admito que não tenho provas dos tais algoritmos, para condenar o Sr. Zuckerberg. Quanto aos crimes da Globo, que vêm sendo denunciados na série O Golpe e Você. Tudo a Ver!, torna-se desnecessário, quando não outro pleonasmo, usar argumentos já publicados (ou que continuarão a sê-lo, uma vez já escritos).

Contudo, no caso do Lula, estamos diante de um exemplo “de exceção” que rompeu todas as regras. Na verdade, um atentado não só aos intelectos de esquerda mas à dignidade de todos os democratas (do mundo inteiro). E também, claro, ao maior líder operário da espécie humana (que me apontem outro, se houver), cuja dimensão ainda não foi corretamente avaliada porque a estatura dos vivos sempre nos parece menos elevada que a dos mortos.

Mas tampouco falarei do óbvio “ululante”. Prefiro falar dos mortos-vivos. Volto assim à regra referida ao princípio, e vigente a partir do golpe desferido contra Dilma Rousseff. Naquela altura, alguns interlocutores pediram a minha opinião sobre os possíveis desdobramentos da farsa, ou tragédia, nacional. Não que esperassem de fato uma análise coerente, mas apenas algum alento para as próprias angústias.

Alguns, porque já tinham sua opinião formada, outros, porque nunca a terão. Mas alguém (que não preciso identificar), além de oscilar habitualmente entre as duas posições, já tinha o não menos desagradável hábito de discordar deste observador, baseado na premissa de que um diretor que renunciou ao glamour e à fama (do “mundo artístico”) jamais desenvolveria outras reflexões que não sejam igualmente “delirantes”, no mundo real.

Precisamente por ter renunciado aos prêmios e reconhecimentos (já suficientemente recebidos, no Brasil e no exterior), para investigar imagens menos explícitas, não deixei de denunciar-lhes o grosseiro plágio de um quadro picassiano, que acabava de ser impingido às retinas de todos os brasileiros: a guerra civil. Com efeito, mais uma tragédia, embora esta não estivesse prevista no script da Globo.

Arrisquei dizê-lo, mesmo consciente de que minha resposta lhes soaria ridícula; e de que não me seria dada a oportunidade de expor os meus argumentos. Sobretudo porque, em 2016, eles realmente não tinham ainda a nitidez geométrica de um Guernica, e mais se assemelhavam aos desfoques de uma tela impressionista, que exigem algum distanciamento para que a pintura seja percebida.

Não obstante, hoje podemos fazer essa análise a partir do próprio contra-argumento do meu exaltado interlocutor: “como imaginar que um povo apático e passivo será capaz de reagir às multidões de coxinhas ensandecidos?” De fato, os uniformes e patos amarelos sugeriam uma sintonia emocional que, na verdade, apenas camuflava as demais ambições inconfessáveis; assim como seus gritos histéricos ainda dissimulavam a absoluta ausência de argumentos ideológicos compreensíveis.

Entretanto me calei, até que a aparente harmonia monocromática revelasse o próprio caos, e suas contradições intrínsecas. Apesar dessas e das outras imagens hediondas – de balas e malas “perdidas” – que logo se tornaram explícitas, e pedagógicas, parecia mais confortável assisti-las como novos capítulos das velhas telenovelas às quais já estávamos acostumados.

Já a simples menção à expressão ‘guerra civil’, ao contrário, ainda provoca rejeições visuais, conscientes ou não, que oscilam desde o mero incômodo com sua “estética anacrônica” (como se de uma cena do cinema mudo se tratasse) até o efetivo horror de encarar as feridas já expostas – que a “modernidade televisiva”, porém, sempre se recusará a expor.

Ou até que surja o primeiro cadáver. A rigor, o primeiro que ultrapasse os tênues limites entre os morticínios “autorizados” e os assassinatos “ideológicos”. Antes disso, o apocalipse improvável não passaria de um desejo de sangue e vingança deste observador, ou de outros revoltados com a violação da cidadania. E não só os temores, mas as consciências críticas, em relação ao tema, devem ser reduzidos à vala comum dos “delírios proféticos”.

Quanto a mim, no entanto, além de me considerar um pacifista (embora nunca um “passivista”), estou, por dever de ofício, impedido de acreditar que as fotografias estáticas das emoções humanas não podem se transformar, no momento seguinte, em suas perfeitas antíteses. Em outras palavras, como recriador de imagens ou mero espectador da aventura humana, minha “visão” apenas seguia o padrão atemporal das guerras civis – que muitos chamam de “figurino”. Discordo do termo.

Falo do que é estrutural na dramaturgia humana: de um lado, a alma e os sentimentos arquetípicos dos personagens injustiçados; de outro, a ganância patológica (no nosso caso, ao pé da letra, a “lógica” do pato) que move os grandes vilões; cujos figurinos, porém, podem variar ao sabor dos ventos: de uma austera farda militar à collorida fantasia do ídolo global da moda; ou de uma toga de “sociólogo europeu” à de um super-herói-magistrado.

Contudo, minha constatação era estritamente racional, ainda que também motivada, como é óbvio, pelas perturbações emocionais da nação. Mas corroborada por experiências conhecidas na história moderna. Há dois anos, portanto, talvez só faltasse traduzi-las para a “língua brasileira”. E aguardar que as novas cores e sons confirmassem os ritmos mais sanguíneos das nossas próprias melodias.

Mas ainda que sejamos inusitados, no tempo e no espaço, nenhum povo o seria a ponto de estar imune ao padrão universal das rupturas sociais. Desde logo, as demais democracias violadas, cedo ou tarde, também foram (ou serão) reconsolidadas, após os conflitos. Ainda assim, convém sublinhar as particularidades que fazem do Brasil um caso tão singular, e superlativo, em relação aos demais.

Somente aqui, o projeto ultraliberal e antinacional da direita sofrera quatro derrotas consecutivas, em eleições democráticas, ao longo de doze anos. E quando o jogo foi invertido pela força, ou pela farsa do golpe neoliberal-midiático (cuja eficiência das imagens é autoexplicativa), somente aqui os “novos” poderes Executivo e Legislativo deixaram logo explícitas a sua degeneração moral e incompetência intelectual.

E somente aqui se viu tamanha esquizofrenia no Poder Judiciário: por um lado, acovardado e conivente com notórios criminosos; por outro lado, arbitrário e voraz em ocupar os espaços políticos deixados vagos pela pusilanimidade dos governantes e legisladores.

Sem falar das associações entre os três poderes, nos ataques ao erário público, para assegurar seus salários e penduricalhos bastante superiores a todas as dimensões conhecidas – e também ao teto constitucional, ao mercado privado e ao resto do mundo civilizado.

Não fosse o bastante, vimos ainda a insólita inversão da lógica habitual das lutas de classe: somente aqui a sua deflagração não resultou das legítimas expectativas de ascensão social do proletariado, senão de sua expulsão sumária desse território quase utópico, mas já prestes a ser legitimado. E, curiosamente, somente aqui as subversões foram promovidas pelas ilegítimas e desvairadas ambições dos próprios ricos – sem um único voto.

De fato os brasileiros se surpreenderiam com a súbita visão de uma mesma imagem na qual não imaginávamos que coubessem tantos absurdos originais e exclusivos da nossa nacionalidade. Mas também por isso, não deveria surpreender que muitos tardassem a despertar da perplexidade, no tempo e no espaço, diante de tanta originalidade.

No tempo, portanto, todas as reações emocionais devem ser relativizadas: desde a euforia patética (uma vez mais, sob a “ética” do pato), logo convertida nos sorrisos amarelos dos golpistas, à apatia geral, que apenas ocultava reações mais ou menos raivosas, muito embora previsíveis. E agora já visíveis, sobretudo nas faces golpeadas.

No espaço físico, temos provas também da relatividade das derrotas e dos êxitos: de um lado, nas marés vermelhas e crescentes, que o Lula passou a arrastar em suas caravanas e manifestações espontâneas de gratidão e solidariedade; do outro lado, nos sucessivos fiascos de quem ainda “kata guris” (que mal conseguem encher uma esquina) para seus ridículos “protestos a favor” das injustiças econômicas, políticas, midiáticas e judiciais.

Mas o que tem isso a ver com uma guerra civil? A resposta emerge de uma investigação elementar dos referidos padrões – históricos e humanos – naturais. Ou das tentativas de invertê-los, artificialmente, através da força (a militar incluída, como se começa a ver), o que já nos exige uma observação mais atenta. Será inevitável, portanto, voltarmos ao caso singular do Brasil (ou ao caos carioca), no próximo capítulo.

Mas insisto, ainda neste, que o caminho entre a paz e a guerra (ou vice-versa) obedece a parâmetros conhecidos. Nessa “matéria” (literalmente bruta), as variáveis ainda por descobrir correspondem tão somente à intensidade dos sentimentos capazes de provocar o conflito; e à maior ou menor determinação das facções em percorrer suas sucessivas fases pré-estabelecidas.

Ou em despir seus uniformes e depor as armas, pelo meio do caminho.

 


 

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