10 – SOB O PONTO DE VISTA HISTÓRICO

Por Wilson Solon. 

O GOLPEFinalizei o depoimento anterior com a antecipação das próximas investigações – ideologia e corrupção – já precedidas do adjetivo “polêmicas”. Com efeito, as controvérsias começam pela relação entre as duas questões: para uns, distintas e independentes; para outros, muitas vezes vinculadas; para este observador, conceitos realmente distintos, mas anatomicamente indissociáveis.

Entretanto, antes de reexaminar a corrupção (nos próximos depoimentos) com os novos dados adquiridos, será necessário mais um recuo no tempo, a partir do que “vemos” hoje no Brasil – cujos paradoxos são os mais complexos do planeta. De fato, nenhuma nação, com alguma projeção internacional, padece do mesmo “excesso de vazio”.

Podemos admitir como um fenômeno universal, nas análises políticas, a falta de conhecimento da História e da Psicologia. Não nos “bastassem essas faltas”, somente os brasileiros fomos submetidos, ademais, a um monopólio “global” da desinformação capaz de bombardear as retinas com inutilidades inesgotáveis e de retirar das mentes brasileiras, na mesma medida, os contrapontos indispensáveis à formação de sua consciência crítica.

Não se pode negar que fomos acostumados a achar normal assistir, na ficção, a uma variedade inaudita de novelas alienantes, sem achar estranho que só exista, nos noticiários televisivos, uma única versão para as controvérsias ideológicas. Como consequência, não surpreende que nos pareça quase impossível definir com precisão as “metades” esquerda e direita do espectro político nacional.

Mas convém começar por compreender cada um dos vários equívocos sobrepostos – políticos, históricos, psíquicos e éticos – que não são exclusividades nossas. A rigor, todos os povos os adotaram e perpetuaram como “convicções” culturais definitivas, a partir de uma imprecisa inspiração (meramente geográfica) surgida às vésperas da Revolução Francesa.

Nessa altura, a conotação política dos termos direita e esquerda se limitava à localização dos membros da recém-criada Assembleia Nacional Francesa, nos respectivos assentos: à direita do presidente, sentavam-se os partidários do rei (liderados pelos girondinos); à esquerda, os simpatizantes da já iminente revolução (liderados pelos jacobinos).

As divisões ideológicas – que tomamos como “evidentes” – pouco correspondiam às evidências da altura. Os “direitistas” girondinos eram na verdade um grupo de deputados moderados (que hoje seriam vistos como “de centro”) e os “esquerdistas” jacobinos de fato possuíam origens “populares” (rurais, pobres e dramaticamente incultas), mas incluiriam outras correntes urbanas, pequeno-burguesas e mais intelectualizadas – o que não explicava nem eliminaria suas contradições intrínsecas.

Por outro lado, os jacobinos possuíam um traço psíquico comum: via de regra, pregavam pensamentos políticos e soluções sociais de extremo radicalismo, como o simples extermínio dos nobres e de toda a aristocracia. Mas ninguém era mais contraditório do que seu líder, Robespierre, um jovem advogado jacobino, pequeno-burguês, de difícil definição (uma inusitada fusão da inteligência e preocupações sociais de um Lula com o despreparo político e a truculência de um Bolsonaro).

Com efeito, este símbolo maior do Período do Terror (1793-1794) era chamado de “O Incorruptível”, como defensor do povo, mas também (não sem razão) de “Ditador Sanguinário”, por todos os que não possuíssem a mesma vocação patológica para os morticínios indiscriminados, fruto de sua loucura “ideológica” – para muitos, de esquerda; a rigor, um furor assassino análogo ao moderno terrorismo islâmico (que deveríamos chamar de direita ou de esquerda?).

Os primeiros a serem presos ou assassinados foram os moderados girondinos. Meses depois, os jacobinos ampliaram a carnificina e promoveram o mais vergonhoso atentado (até o nazismo) não apenas ao conceito, mas à própria humanidade. Irônica e sintomaticamente, a esquizofrenia humana (ou a “hipocrisia global” que analisamos) adotou o bem-intencionado lema revolucionário – Liberdade, Igualdade e Fraternidade – como inspiração teórica para futuras lutas que, na prática, eram tão opostas a estes valores humanísticos quanto a própria Revolução Francesa.

Em suma, os poucos girondinos que não haviam sido eliminados se mudaram para o centro da Assembleia, deixando vazios os assentos da direita. Em seguida, já proclamada a República, os jacobinos e seus afins passaram a ocupar o setor mais alto do plenário, enquanto girondinos e outros grupos ficavam nas partes de baixo.

Contudo, não tardou para que Robespierre (com apenas 36 anos) e seus partidários radicais provassem do próprio veneno e percorressem o mesmo caminho geométrico dos adversários – diretamente para a guilhotina. Por fim, o sistema de cadeiras foi abolido.

Ao longo do século 19, na França, a linha divisória entre a esquerda e a direita passou a identificar, respectivamente, os partidários da República e da Monarquia, o que tampouco corresponderia a conteúdos ideológicos. Nem reservaria espaço para as modernas exceções às regras: as monarquias parlamentares, não raro governadas por partidos eleitos pela esquerda (como as escandinavas ou a espanhola, entre outras); e as repúblicas ditatoriais de direita (como as militaristas latino-americanas).

Esquerda e direita acumulariam ainda um sem-número de contradições internas – quanto aos aspectos econômicos, às concepções “democráticas” e às crenças religiosas – em suas respectivas “visões” de mundo; por sua vez, variáveis também para cada nação, ao longo dos dois últimos séculos.

Em seu momento, trataremos dessas questões que simplesmente inviabilizariam qualquer tentativa de resumi-las aqui. E não fosse o bastante para nos confundir “naturalmente”, ainda acrescentaremos as confusões artificiais ao que se vê (literalmente): através das espetacularizações e manipulações das imagens, a partir do último século, capitaneadas pela direita capitalista dos Estados Unidos.

Como se sabe, a poderosa indústria cinematográfica norte-americana (à qual ainda dedicarei um depoimento), além de ter conquistado uma hegemonia planetária, por si mesma, não deixaria de introduzir, onde fosse possível, suas representantes e propagandistas ideológicas – entre as quais, o exemplo mais emblemático é a Rede Globo de Televisão, no Brasil.

Como tratamos de questões geométricas (entre esquerda e direita), mas também de complexas ilusões de ótica, podemos não só simplificá-las como fundamentá-las em inéditas provas matemáticas. No próximo depoimento, faremos o mesmo percurso histórico na direção inversa, sob o ponto de vista deste cineasta com alguma formação matemática e um fundamentado desprezo pela Globo. Nos dois casos, repito, sempre com base na indispensável contribuição da geometria.

 


 

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