21 – SOB O PONTO DE VISTA DA JUSTIÇA GLOBAL

Por Wilson Solon.  

O GOLPEJá identificadas as pós-verdades do “acordo de trabalho” – entre o “Agente” Moro e as “Organizações” Globo – podemos avançar rumo aos níveis menos perceptíveis das meras ilusões de ótica, ou das efetivas esquizofrenias (cada leitor o decidirá). E continuaremos a ver, pela ótica não cartesiana das telenovelas, o improvável adquirir consistência e o foco surgir por si mesmo.

Analogamente, satisfeitas as ambições das duas faces de Moro – a fama, para o justiceiro, e o “prestígio”, para o tosco magistrado curitibano – seria coerente que houvesse alguma “contrapartida”, tal como na lógica das corrupções ou das delações premiadas. E de fato havia, pela lógica televisiva, a “cláusula mágica”: Moro forneceria à Globo, espontaneamente, as materializações “jurídicas” do que já fora estabelecido no roteiro prévio do Golpe maior.

Ademais, tanto o tosco juiz Moro quanto o intrépido justiceiro Super-Moro-Brás deveriam obedecer ao script “dramatúrgico” e, ao mesmo tempo, defendê-lo com o “rigor das leis”. Não obstante se tratar do mais vergonhoso paradoxo do Judiciário brasileiro, o magistrado e sua marqueteira associada sempre podem alegar que realmente acreditam nos mesmos “valores” morais. E ninguém diria o contrário.

Com efeito, um pacto natural e ideal, visto que o script da Globo era também a bíblia e a bússola de Moro: primeiro eliminar a Dilma, depois calar o Lula e expulsar o PT do espectro político; a seguir, revendê-los, literalmente, como as imagens “globais” dos grandes vilões da corrupção. Nada ilegal, enquanto novela. E nada a dizer sobre o conteúdo ético do roteiro.

Na prática, não vimos ainda o plano dar com os burros n’água. Mas pelo andar da récua que tomou o país, já prevemos o tamanho da chafurdação. Seja como for, com certeza matemática – pesquisas eleitorais, estatísticas e provas materiais (ou na falta destas) – já é possível afirmar que a parceria jurídico-midiática cometeu grosseiros erros de cálculo (além dos morais, éticos e jurídicos, já evidentes), ao superestimar o “bem” e desprezar o “mal” segundo seus próprios critérios.

No entanto, antes dos riscos de afundarmos igualmente em pré-julgamentos subjetivos, convém apoiar nossa análise sobre a síntese concreta dos personagens – a Globo como Agência e o Moro como Agente do capital financeiro (e demais “valores” norte-americanos) – sem esquecer que o segundo é também um notório e assumido entreguista. E afinal compreenderemos por que ambos são equivalentes hierárquicos, ao menos neste plano específico (de vender o Brasil).

Em termos jurídicos, porém, a figura utilizada – de um simples “acordo trabalhista” – talvez se torne imprecisa. Com mais probabilidade, num enredo de telenovela, veríamos uma joint-venture entre empresas de demolição. Mas reitero, sobre seus crimes de lesa-pátria, que jamais haverá documentos materiais, ainda que as imagens dos escombros sejam exibidas, dia e noite, pelas ‘Organizações’ Globo; ou escondidas do país e do povo, uma vez mais, segundo os critérios próprios da messiânica parceria.

Nesse círculo vicioso de sedução e alienação das plateias, portanto, adoto o ponto de vista do diretor, consciente de que um personagem não deve ser confundido com o ator que lhe dá vida. Ainda assim, cabe perguntar à plateia: como foi possível que velhos roteiros de tantos outros golpes reais, ou que estereótipos de bandidos já demasiado explorados, resultassem na mais inédita e ousada trama de ficção alguma vez urdida pela Globo?

Em termos dramatúrgicos, eis precisamente o que converte Moro num ator fundamental, em suas duas funções paralelas: a primeira, atribuir legalidade ao que é essencialmente ilegítimo, ilícito, ou ilegal, embora tudo pareça obedecer às leis; a segunda (esta, do Super-Moro-Brás), atribuir originalidade a mais um personagem essencialmente canhestro, canastrão e canalha, como tantos outros na galeria de clichês da emissora carioca.

Portanto, antes das subjetividades individuais – como o mérito, a psique, ou a moralidade – de um juiz que ignora as leis, cabe questionar a própria “realidade” desse fluxo incessante, nos dois sentidos, visível nos domínios globais: ora como os jardins do éden, onde tantos personagens insólitos anseiam por habitar; ora como terrenos baldios, de onde brotam sucessivos “salvadores da nação”. Mas talvez nenhum desses heróis tenha sido mais surpreendente do que um “magistrado famoso”.

Por outro lado, já nos fartamos de ver o mesmo cenário de várias perspectivas, e nas diversas alianças igualmente “informais” da Rede Globo (com os militares que deram “a luz”, literalmente, às manipulações da imprensa escrita; com os políticos que a representam; com o empresariado que a financia). O inusitado, portanto, não seria o que sempre invadiu nossas retinas, mas sim a inaudita sintonia entre as duas anomalias atuais: uma concessão pública (a um gigantesco grupo privado) e as convicções privadas (de um funcionário público) que extrapolam todas as competências do Judiciário.

Contudo, como ocorre em qualquer narrativa dramatúrgica, uma vez esgotados os meros ardis previstos pelos roteiristas (as novidades, as surpresas, os recursos técnicos e pirotécnicos), não tardamos a perceber as incoerências dos personagens e dos fios condutores de uma trama aparentemente original. Assim, na realidade paralela desta terra de símios, torna-se inevitável voltar à questão: como foi possível que tantos primatas perdessem o pudor e a consciência de seus próprios saltos?

Juízes sobre suas leis, corruptos sobre suas malas, jornalistas sobre seu compromisso de informar, políticos de direita sobre seus eleitores; além dos coxinhas em geral, e dos fascistas em particular, que insistem em saltar sobre todos nós. Como é possível enfim que tantos micos (e “mitos”) amestrados e macacos velhos do Judiciário ainda permaneçam em posições de onde não veem, não ouvem, nem dizem nada sobre o caos?

Exceto para os deficientes visuais, há outras imagens ainda mais gráficas. Todos assistimos às transmissões espetaculares (desde o chamado “mensalão do PT”) onde as fronteiras também eram tênues – entre o fato e o domínio do fato, entre os malfeitores e os bons julgadores, entre o real e o imaginário. Como explicar essa perda dos sentidos para os limites entre as ficções e a realidade nacional?

Em última análise, as perguntas – e a resposta – convergem para o mesmo ponto: há meio século, a Globo vem se especializando em derrubar todas as fronteiras entre a realidade e a ficção. Não por acaso, poucos sabem precisar onde elas estão. E, paradoxalmente, o “plano global” emerge com precisão aos nossos olhos. Mas não só como metáfora do Golpe, ou do que já pertence ao lugar comum – as teorias e práticas conspiratórias, a criação de personagens irreais que se materializam na realidade política.

Falo de um projeto não menos visível e compreensível, embora negligenciado pelos espectadores. Mais além das simples manipulações de “primeiro grau” (o emburrecimento da razão e o entorpecimento das emoções), através dos telejornais e telenovelas “habituais”, a Globo desceu outros tantos degraus na desconstrução da consciência cidadã, cujo cativeiro, ou purgatório, também se estabelece a meio caminho entre a fantasia e a realidade, sem que nos seja permitido chegar a nenhuma delas.

Mas apesar de borrar essas imagens limítrofes, a Globo não pode impedir ninguém de se afastar para observar o quadro como uma “tela impressionista”, e distinguir os diversos níveis de adulteração da realidade. A cronologia do seu plano subliminar corresponde à própria narrativa que investigamos. Vale a pena recapitular essa “perda da consciência”, literalmente explícita já na primeira telenovela global – O Ébrio (1965) – cujo protagonista foi dado como morto, no enredo, e resolveu “trocar de identidade”.

Descoberta a fórmula, ainda nos primórdios da ditadura militar, os horários de exibição e os artifícios das ditas “novelas realistas” logo se multiplicaram e foram assim “evoluindo”: dos dramas apenas inverossímeis para desgraças hiper-realistas; até as tramas atuais, completamente surrealistas. Em suma, tudo menos um retrato dos brasileiros reais e normais.

Com o gradual esgotamento da fórmula, a fábrica de insanidades vem se dedicando, ao longo das duas últimas décadas, à chamada “novela da vida real”; cujos protagonistas não apenas se destacam, em horário nobre, pela falta de cérebro, ou pelo excesso de conflitos emocionais absurdos, mas são já selecionados por essa “capacidade” de arrebatar as audiências não menos acríticas.

Cumpridas suas “relevantes missões”, os assim chamados BBBs retornam ao anonimato. Via de regra, com a mesma rapidez com que apareceram na vida pública. As honrosas exceções (por exemplo, de um intelecto consciente e combativo como o do Jean Wyllys) apenas evidenciam a mediocridade da regra.

De posse desse inquestionável know-how de subversão das consciências (nos dois níveis de “realidade” anteriores), a Globo sentiu-se soberana o bastante para investir em sua mais ousada superprodução, no terceiro nível: a efetiva recriação da realidade material do País, a partir de premissas inteiramente fictícias.

Nesse sentido, sabemos que não começaram agora os flertes dos Marinho com o Judiciário. Contudo, pela primeira vez, o colóquio tornou-se público, ou bem mais despudorado, na figura de um protagonista aparentemente complexo como o agente Moro. A rigor, um ator tão previsível quanto os níveis de indigência de sua malformada psique: as emoções rasteiras de um personagem de novela, a inteligência “bruta” de um brother, e o caráter inócuo de um golpista.

Não por acaso, a antítese do Lula, sua vítima mais emblemática, cujas diferenças, no entanto, não seria sequer necessário explicitar. Como tampouco as de outro símbolo da grandeza nacional – como o genial Almirante Othon – vítima do religiosamente dedicado juiz Bretas, o não menos bruto (embora ainda mais fanático) parceiro carioca do Moro nas injustiças morais e éticas (ou salariais).

Com esses elementos dimensionados, também é possível sintetizar o paradoxo jurídico da “parceria global” que ora revolta as mentes mais lúcidas, ora confunde as mais ingênuas. Não obstante, cada vez mais brasileiros já se perguntam: no nosso curto período democrático, será que as exigências de legalidade e legitimidade da Globo foram de fato elevadas, ou a Justiça é que jamais descera tão baixo?

Seja como for, era imprescindível a criação de algum ‘Super Moro Brás’. Não só pelas razões aparentes, mas sobretudo pelas que devem permanecer ocultas, para que as duas vertentes principais do Golpe – a midiática e a jurídica – avançassem juntas. Em suma, a Globo não caminha ao lado nem necessariamente contra a lei. Apenas adota a jurisprudência que lhe parece mais conveniente às fantasias “culturais” e aos interesses econômicos de seu próprio império. E também do outro, ao qual representa, no Brasil.

Quanto ao principal agente imperialista no Judiciário, em breve restará igualmente provado que seu destino será o mesmo de qualquer outro canastrão que se presta ao papel de “inocente útil” (ainda que nada inocente e perfeitamente inútil numa democracia). Antes do previsível retorno ao anonimato, porém, Moro deverá cumprir não apenas um, mas seus dois papéis menos dignos nesse acordo, aos quais voltaremos no próximo depoimento.

 


 

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