16 – SOB O PONTO DE VISTA DA RAZÃO CORROMPIDA

Por Wilson Solon.  

O GOLPEJá falamos dos dois ciclos psíquicos paralelos da corrupção: o emocional (da mera ambição à compulsão pelo capital) e o (ir)racional, que busca alento e justificativas “ideológicas” para o próprio comportamento corrupto (na prática, sofismas capitalistas e televisivos).

Mas faltou sublinhar alguns pontos tão evidentes para uns quanto invisíveis para outros: ainda existe uma imensa maioria de cidadãos que não está enferma; ainda que por ignorância, ou alguma carência emocional, muitos possam votar em candidato da direita, sucumbir às tentações do capitalismo, ou deixar-se manipular pela televisão.

Na perspectiva política, analogamente, os representantes da direita (do centro ao fascismo), ainda que vençam todas as eleições, aqui ou no resto do mundo, jamais representariam a maioria da população; ou melhor, se de fato pudéssemos descontar os eleitores manipulados, ou evitar as manipulações.

A mais corrosiva delas – a mentira em sua fórmula genérica – serve, na verdade, de matéria-prima para todas as armas da direita, em dosagens determinadas pelos distintos fins (as propagandas midiáticas, os discursos políticos, os planos econômicos, as sentenças jurídicas, as intervenções militares, etc.). Entretanto, quando fracassam todas as modalidades de relativização da razão, as mentiras são atiradas contra os inimigos em estado bruto – caluniosas, injuriosas ou difamatórias.

Não é preciso sublinhar quem se tornou o arqui-inimigo público da nossa direita, nem as motivações evidentes para mantê-lo sob artilharia pesada. E sabemos que o fazem pelas razões idênticas – embora pelas motivações opostas – às do público não enfermo, e mais numeroso, que há décadas também mantém o Lula como o seu maior líder democrático (e o mais emblemático da esquerda mundial).

Curiosamente, nunca ouvimos dos capitalistas, nem da Globo, suas versões para esse estranho fenômeno de popularidade. Mas já vemos que o juízo dos detratores – “o Lula é o maior dos corruptos” – se desmorona pelo próprio desequilíbrio original, entre a falta de provas e o excesso de ódio, como dois olhos vazados pelo próprio acusador. E como vazaram também os juízos “Morais” da direita, confiante na eterna cegueira da população.

Nossa investigação, portanto, vai por outro caminho, menos dependente de provas e mais das evidências visuais. Ainda assim, talvez não esteja evidente por que o único adversário imbatível seria, precisamente, o alvo da arma mais letal da direita. Ou por que, entre as várias articulações da mentira, nenhuma outra revelou timings e coincidências operacionais tão surpreendentes quanto a parceria jurídico-midiática.

Para os mais ingênuos, ou vulneráveis ao ódio, essa ostensiva sintonia não seria suficiente para absolver o Lula, ou antes a Dilma. Por outro lado, para a Psicologia, há evidências suficientes de uma fraude montada por efetivos psicóticos. Freud, a propósito, já nos forneceu diversos atalhos para o mecanismo da projeção inconsciente: os meus inimigos “certamente” praticam a mesma corrupção que eu escondo.

A rigor, as projeções ocorrem (mais ou menos conscientes) com todos os desviantes do foco – do “pequeno” delinquente ao grande corrupto. Ou com os juízes “ideológicos”, por exemplo, cujas fantasias de consumo nem sempre se reduzem à vulgaridade dos roubos (nem das provas) visíveis na matéria; e cujas volúpias messiânicas os mantêm no plano mais elegante do mero sadismo persecutório.

Mas vou além. Nesses tempos de banalização da moral e de proliferação dos moralistas, já nem sequer surpreende quando um novo político é acusado de corrupção (talvez nem a ele próprio), como tampouco nos assusta mais que tenhamos “governantes” pilhados em flagrantes e sucessivos atos delituosos. Todos, na verdade, perdemos não só um pouco das reações emocionais, mas da própria compostura.

“Desde quando eles não nos assustam mais?”, protestarão os moralistas de ocasião, diante da pornográfica quadrilha governamental. Identificaremos com clareza este ponto de inflexão, após a breve anatomia do intercâmbio (eventualmente doentio) entre a razão e as emoções. Onde encontraremos também as chaves das visíveis manipulações mentais. Antes, chamo a atenção para o invisível.

Equivoca-se quem pensa que o golpe se consumou com o impeachment, ou com alguma sentença condenatória do Lula (passada ou futura). Estes são os aspectos racionais do plano urdido, e renomeado, segundo as idiossincrasias das facções criminosas associadas: “estancar a sangria”, “ponte para o futuro” (deles), “powerpoint project”, “operação lava-jato”, etc. Mas sublinho o que permanece invisível: via de regra, não há emoções em jogo; exceto, é claro, na parte golpeada (o povo, o PT e aliados).

Com efeito, para o êxito de um crime, todas as emoções aparentes devem aproximar-se da ausência absoluta de sentimentos reais; desde a euforia fake dos coxinhas de rua à dos corruptos, nos grotescos espetáculos encenados no Congresso Nacional. Não por acaso, todos patrocinados, manipulados e exaustivamente divulgados pela Globo, para que tudo parecesse o oposto do ridículo e do patético; e o caos aparente não denunciasse os verdadeiros criminosos. Nem o seu vazio emocional.

Também no outro extremo da rica palheta de cores da direita, já vimos a apatia ou a frieza – igualmente absolutas – dos políticos e de grandes parcelas do Judiciário; assim como a indiferença dos espectadores de direita. Nas hostes golpistas, portanto, insisto em uma completa e necessária anulação da emoção e de empatia pelo ser humano.

Na melhor das hipóteses, resta algum frisson toxicômano, mas passageiro, com as fake news (“acharam uma conta da Dilma e do Lula no exterior!”); ou como as ejaculações precoces de algum procurador ensandecido (como o daltônico Dallagnol), de outros evangélicos fanáticos, ou dos fascistas em geral, diante de certos “veredictos” do Legislativo ou do Judiciário.

Mas enquanto se executam as fraudes “racionais” já mencionadas (ou que ainda virão, até que fracassem todas), o bloqueio emocional e, por extensão, da própria consciência,  torna-se a opção necessária para os delinquentes. Contudo, qualquer “opção” pelo desequilíbrio psíquico deixa de sê-lo, no mesmo ato. E, obviamente, os loucos passam a ser regidos pelas ‘leis naturais’, que tendem a preencher os vazios (físicos ou mentais) e restabelecer o equilíbrio. Às vezes tarda, mas não falha.

Em outras palavras, impossível reprimir por muito tempo os abalos emocionais, ou as marés da “sorte”, que não raro retornam incontroláveis, como todos os tsunamis da direita: ora arrastando os escombros da própria corrupção, ora provocando novos ataques insanos do desespero ou do ódio – o grau máximo de vazio, pela ausência da inteligência e do amor. Por ironia, este ciclo psicopatológico “teórico” encontra todos os elementos estatísticos comprobatórios.

A começar pelas volumosas cifras e provas expostas, que até hoje não se desprenderam nem atingiram as mais sólidas defesas morais da esquerda (e de seus autênticos representantes). Volto assim ao verdadeiro ponto de inflexão psíquica da direita, há pouco deixado em aberto, em que as emoções saíram de controle e seu dilema racional – entre perder ou mentir (ou ainda, aceitar as mentiras) – resultou no rompimento da última barreira ética dos golpistas.

Na prática, o momento exato – embora relativo para cada consciência individual – correspondeu, no plano coletivo, às adesões conscientes ou inconscientes ao coro acusatório contra o Lula. Nem um pouco antes, no golpe contra Dilma, nem depois, nos veredictos provincianos de Curitiba e Porto Alegre. Todos, repito, aspectos racionais e operacionais (com mais ou menos histeria ou frieza) de um plano “global”.

Localizo assim os personagens e figurantes em cena, no momento do impeachment. Por trás da euforia dos loucos, ou do genuíno desespero da esquerda, a direita já apodrecia em praça pública. E expunha sua divisão: entre os enfermos inconscientes e os que já revelavam seus primeiros dramas de consciência. Sintomaticamente, Dilma foi poupada do estigma de corrupta, e ainda manteve os direitos políticos, como prêmio de consolação (a rigor, para as próprias consciências culpadas).

Entretanto, em sua agonia moral, a direita atingira o limite autorizado aos remorsos – subconscientes, expostos, ou já “consolados”. Eliminadas a legalidade, a moralidade e as culpas, acabaram-se as meias-verdades, as pedaladas sofísticas e as tímidas manobras midiáticas: doravante, Lula já não poderia ser poupado das mentiras em estado bruto. Os algozes deixavam cair as máscaras que até então (no chamado Mensalão do PT) ainda dissimulavam a covardia, ou simulavam algum pudor e respeito pela opinião pública.

Antes, porém, de voltar ao “réu” achincalhado em cena aberta, ou ao seu admirável exemplo de gestão, falo de uma entidade nacional através da qual pelo menos 40 milhões de pessoas (ou qualquer outro indicador econômico disponível na internet) revelaram padrões de ascensão social nunca antes vistos, em igual período de tempo, em nenhuma democracia moderna, em números relativos ou absolutos.

Não fosse o bastante, o hipotético “corrupto” é também o político cujas “vidas” – pessoal, familiar, bancária e fiscal – são as mais públicas ou investigadas da nossa História. Não obstante, Lula foi acusado, sem uma única prova, por uma aliança corrompida nas suas origens – entre uma concessionária pública de televisão e um “mercado” privado (com legislativo e judiciário “próprios”).

Mais do que de um drama pessoal, falamos de milhões de seres que têm alguma vergonha na cara. E alheia, pelos espetáculos da hipocrisia. Ou pela tragédia épica de um país que perdeu a vergonha, por tentar dobrar com calúnias o único líder – da esquerda à direita – que se manteve vivo na política, na vida e na alma dos brasileiros, por três décadas, precisamente por ter conservado a espinha ereta. Na prática, uma diarreia moral, nacional e “global” sem precedentes.

Volto agora aos indivíduos, por trás das câmeras, nos bastidores onde atua a consciência (ou não, temporariamente). Seja como for, para a Psicologia, não terá sido por acaso que, sobre o ponto de resistência máxima do Lula, foram “projetadas” as duas armas mais emblemáticas da direita: a calúnia e a (própria) corrupção, até então “oculta”.

Felizmente, como ocorre nas nações mais civilizadas em relação aos ataques traiçoeiros (desde os genocídios com armas químicas aos terrorismos em geral), sempre haverá reações morais e jurídicas na direção contrária. Em última análise, tudo o que conseguem os “estrategistas” das destruições, com seus impulsos primitivos, é voltar o ódio e o repúdio contra si mesmos. Embora os “ideólogos” da barbárie social, neste país surrealista, também consigam extrair algum proveito do seu “terrorismo do capital”.

Por outro lado, as calúnias e as imagens mentirosas às vezes percorrem caminhos inusitados: ora simplesmente se desfazem no ar, pela própria inconsistência, ora se convertem (pelo “efeito bumerangue”) em petardos morais contra os próprios acusadores. Diante da falta de provas contra a esquerda, ou dos excessos de imagens contra a direita, nem sequer entraremos no mérito das acusações.

Mas lembro que nossas câmeras ainda não registraram sequer os aspectos emocionais da corrupção. Convém, antes, filtrar as antipatias e simpatias pessoais – que podem anular-se mutuamente, ou ser exacerbadas, nas fotografias “globais” dos nossos políticos.

Por ora, como síntese deste ponto de vista – predominantemente racional – da corrupção, termino pelas mesmas antíteses fotográficas do depoimento anterior: a grandeza planetária do Lula e a nulidade provinciana do Temer, que dispensariam maiores investigações. Ainda assim, voltaremos às demais controvérsias emocionais que podem confirmar nossos diagnósticos.

 


 

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