8 – SOB O PONTO DE VISTA DO SILÊNCIO

Por Wilson Solon.

O GOLPEEm que pesem as oposições ideológicas entre os brasileiros, já existe ao menos o consenso de que o impeachment de Dilma revelou alguma fraude: para os fascistas, representada pelas  incompreensíveis (até hoje) “pedaladas fiscais”; para outros, com maior grau de compreensão (inclusive nas hostes golpistas), tê-las usado como pretexto condenatório foi o que realmente caracterizou todo o processo como uma gigantesca fraude.

Seja como for, ninguém em sã consciência duvida de que o mesmo golpe nos atingiu a todos, da esquerda à direita. Ainda assim, também este segundo consenso se rompe, em função dos respectivos interesses ou níveis de consciência, pois somente um lado – por seus compromissos sociais e humanitários – sempre soube e sentiu na pele o quanto as mentiras podem ser contundentes.

O outro lado, por hábito ou vício, preferiu tomá-las como “pós-verdades”, para não ter que identificar em si mesmo, ora a constrangedora alienação dos ignorantes, ora o foco de um egoísmo histérico (e patogênico, como já foi analisado). Na melhor das hipóteses, “ouvimos” apenas o silencioso incômodo dos cúmplices de egoístas e alienados.

Entre as unanimidades e as controvérsias insolúveis, posicionaremos agora nossas câmeras e microfones como pontos de vista dos que gritam e dos que silenciam. Já conhecemos os primeiros, seja através das bravatas e ódios dos “coxinhas de passeata”, seja nos gritos autênticos dos golpeados (que já foram igualmente retratados).

Mas assim como os gritos, há também os distintos silêncios: à direita, pela covardia estrutural, pela cumplicidade conjuntural, ou pela vergonha terminal; à esquerda, pela perplexidade, pela indignação, ou pela dor efetiva das vítimas de um golpe covarde. Com urgência, portanto, cada cidadão brasileiro deveria conhecer seu diagnóstico, tal como nas vacinações em massa, em tempos de mosquitos assassinos.

Mas até mesmo sob o ponto de vista privilegiado (e singular, como explico no segundo depoimento) de um cineasta que desprezava a Rede Globo, minhas reações ao golpe se revelaram “singularmente” difíceis de diagnosticar. E embora os índices sanguíneos de perplexidade e indignação tenham de fato disparado, na fase pós-traumática, meu silêncio nunca se identificara com as causas patogênicas (físicas ou mentais).

Apesar de consciente das diferenças e afinidades com os demais compatriotas golpeados, minha dor parecia ser única. Não pela intensidade, nem por alguma vaidade mórbida, senão porque eu já havia adotado, há quase uma década, a mais saudável modalidade de convivência social (embora muitos a confundissem com uma sociofobia involuntária): o silêncio “por livre-arbítrio”.

Precisamente esta “espinha dorsal” do espírito foi a mais atingida pelo escárnio à democracia; ou pelo golpe contra toda a sociedade (para que ninguém possa se sentir excluído). Não obstante, muitos brasileiros foram além de uma submissão passiva, e autorizaram que sua lucidez também fosse decepada, na mesma assustadora medida em que a Rede Globo os distraía da dramática realidade política.

Com efeito, nenhum ser humano minimamente atento e lúcido (homem, mulher, ou LGBT) invejaria o paradoxo dos coxinhas: se “meio Brasil” (nem sei se tantos) jamais fora consciente o bastante para reconhecer os notórios decapitadores em série, compreende-se que não teriam como evitar a perda iminente da própria cabeça.

Obviamente, o meu dilema era outro, e continuaria a parecer único, a partir do golpe. Ou até que o ego aviltado percebesse a categoria mais ampla (ainda assim, bastante reduzida) à qual eu já pertencia, desde a era pré-golpe: os “silenciosos conscientes”.

E não o éramos por nenhum mérito ou limitação específica (pessoal, profissional, ou de idade), mas como resultado de reflexões empreendidas, repito, “por livre-arbítrio” – conceito mortalmente ferido pelos bandidos “liberais” e “libertadores” (irônica coincidência), como os invasores do palco político pretendem ser vistos, sob o patrocínio da Globo.

Nos bastidores, procurei ouvir algumas poucas vítimas – de fato silenciosas e conscientes – cujos argumentos no entanto são inumeráveis, contra as falácias golpistas. Ainda assim, posso resumi-los, pois convergem todos para o mesmo ponto, tal como os enredos barulhentos das telenovelas políticas não só profanaram como viraram pelo avesso qualquer “silêncio opcional”.

Sintomaticamente, os neobandidos mataram os dois conceitos com o mesmo golpe: “optar” perde todo o sentido quando já não há escolhas em jogo; e muito menos neste, que começou com a escandalosa perda dos freios morais e terminou com a consequente (ou inconsequente) eliminação da silenciosa corresponsabilidade social pelos atos dos governantes.

Em outras palavras, como sentir qualquer “culpa cidadã” pelos tombos de desgovernados assaltantes do poder? A rigor, de forma explícita ou subliminar, todos recebemos a mensagem inversa: o crime compensa de fato (e de direito). Embora os mais desprovidos de proteção social sejam os que menos condições terão de se proteger desses criminosos exemplos morais. E não fosse o bastante, também a fatura material vem sendo cobrada dos que acabaram debaixo dos escombros – os trabalhadores e os milhões de desempregados.

Por outro lado, nas grandes tragédias, os mais débeis são os que se revelam os mais resilientes, solidários e unidos; além de mais numerosos do que as multidões de esquizofrênicos paneleiros (no sentido brasileiro, jamais lusitano!) – ora histéricos, quando poderiam se calar, ora silenciosos, quando deveriam se retratar. De qualquer forma, está provado que nunca tiveram realmente o que falar.

Em meio ao caos, já nada faz sentido e tudo está autorizado: gritos insanos e reações silenciosas. Contudo, alguns passamos a arrastar o ônus adicional de ter que distinguir o próprio silêncio do seu avesso. Reitero que, em democracia, temos corresponsabilidades pelos eventuais deslizes dos governantes, mas nenhuma culpa por estar em silêncio, enquanto uma sociedade é bem governada – como o foi nos governos petistas.

Para os “silenciosos conscientes”, portanto, ter virado as costas à histeria capitalista (em sua simbiose com um monopólio televisivo) era apenas uma opção existencial – legítima, desprendida, corajosa e até revolucionária. De repente, sem eleições nem aviso prévio, todos os personagens da vida real (o povo incluído) são silenciados, igualitariamente, pelos sonoros “eleitos globais”.

Por ironia, desde o golpe, alguns dos próprios fantoches continuam a ser derrubados, tanto pelos efeitos colaterais de suas doenças morais quanto em função dos novos interesses (ainda que sob os velhos “efeitos globais”). Mas também a opção pelo silêncio vem se degenerando e se confundindo com a sua antítese: o silêncio dos indecentes – ilegítimo, egoísta, covarde, ou envergonhado.

Para os que já havíamos renunciado às interações sonoras mais intensas (dos políticos, dos artistas, dos comunicadores em geral e dos diretores, no meu caso particular), ou simplesmente desistido de oferecer e solicitar o que quer que fosse (dinheiro, licença ou satisfações) à “sociedade civilizada”, imaginei que não houvesse alternativa pior do que ter que voltar a levantar a voz.

Até conhecer a falta absoluta de alternativas, diante de um atentado à própria ‘sociedade’ e à ‘civilização’, como conceitos absolutos. O que seria menos desconfortável, portanto, para o espírito de um “autêntico eremita”: gritar de dor, ou permanecer calado, e ser confundido com um coxinha?

Já analisamos as dores e as culpas, quer dos golpistas em si, quer dos cúmplices (ainda que inconscientes) da mediocridade que, cedo ou tarde, os conduzirá ao fracasso. Mas até então, mesmo os medíocres causam estragos consideráveis, quando organizados em bandos. E os bandidos não se organizam sem que outros – menos medíocres e mais conscientes de seus golpes – efetivamente os comandem.

Em resumo, os supremos comandantes criminosos da nação continuam a ser escolhidos pelos roteiristas-chefes das Organizações Globo, mais ou menos “secretamente”. E não deixa de ser compreensível que, nos tempos sombrios do “Grande Irmão” Marinho, eles fossem mais discretos do que são agora, sob as máscaras dos toscos herdeiros (os irmãos Metralhinha).

Analogamente, se antes pude evitar qualquer cumplicidade com essas alianças esquizofrênicas – entre a obscuridade política e as fraudes multicoloridas das televisões – foi porque, evidentemente, nunca precisei dos políticos nem da Globo para assegurar a subsistência, o respeito e alguns prêmios (nacionais e internacionais) como diretor de televisão.

Mas ainda que tantos personagens abjetos fossem considerados inofensivos (ao menos para mim), jamais deixei de vê-los como perniciosos e ofensivos para os que não tiveram a minha sorte (ou instinto de sobrevivência) no mundo real. Já seria o bastante para me sentir culpado de permanecer em silêncio.

Eis enfim o meu dilema pessoal: de fato houve motivos para que um criador e realizador – de imagens, sons, ideias e emoções – não negociasse sua independência mental no “mercado” audiovisual. Por outro lado, nada justificaria que, na nova conjuntura política, eu tampouco a utilizasse para denunciar a supressão das liberdades de todos os brasileiros.

Não deveria surpreender que me deprimisse, pela primeira vez, desde que voltei ao Brasil. Nem que me sentisse a “primeira vítima” da humilhação nacional, arquitetada pelas desorganizações Globo. Mas as diversas hipóteses para o silêncio paralisante já foram observadas (e descartadas). Talvez faltasse investigar o outro lado: os aspectos mais ou menos incômodos da voz.

Com efeito, o meu desprezo de décadas pela Globo, apesar de tão eficaz para uso próprio, talvez também contivesse componentes esquizofrênicas como as dela. Antes tarde do que nunca, seria inevitável analisar essa equação sonora, como de fato o faremos, no próximo depoimento.

 


 

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