7 – SOB O PONTO DE VISTA DO TEMPO

Por Wilson Solon.

O GOLPEEm meus sucessivos exílios voluntários, o isolamento nunca me fez sentir solitário. Nem carente do alheio, para golpeá-lo. Uma vez investigadas as dores do golpe e minhas eventuais componentes egoístas (já reveladas aqui), o meu dilema parecia equacionado. A cura, ainda que tardasse, era só uma “questão de tempo”.

Além disso, por dever de ofício (e talvez pretensiosamente), nunca tardei a reconhecer os vilões sob suas máscaras. Tardaria muito menos na recente tragédia (ou farsa) política, por cada um dos seus ingredientes burlescos: a notória discrepância de talentos entre os bons e os maus atores, a banalidade dos disfarces, a obviedade de um texto mal estruturado e o tosco cenário apresentado – uma ponte para o futuro! Por tudo isso, a derrocada espetacular do golpe (que arrastaria seus próprios cenógrafos) era já previsível. E até risível.

No entanto, do ponto de vista dos espectadores, talvez o que ainda mantenha algumas mentes paralisadas, à margem do tempo, seja ver tantos seres “primitivos”, em mais de um sentido (inclusive os mesmos personagens do outro golpe já remoto) embora, ao mesmo tempo, muitos brasileiros não admitam ver neles alguns aspectos de suas próprias mentes.

Quanto a este silencioso observador (com olhar de diretor), fui obrigado a ver muito mais e admitir muito menos do que via. Realmente procurei não me lembrar da primeira vez em que acordei, já na maioridade, e só então me dei conta do longo sonambulismo – da infância e da adolescência – sob as trevas de uma ditadura.

No golpe recente, portanto, recusei-me a despertar uma vez mais, quase às portas da velhice, sob outra tirania de homens estúpidos. E adotei o seguinte silogismo: os novos golpistas são praticamente os mesmos, ou seus herdeiros políticos (excluídos os militares, mas incluídas as já inofensivas, para mim, Organizações Globo); de fato, todos menos tiranos embora não menos estúpidos do que no golpe militar. Assim, na pior das hipóteses, todos igualmente cairiam por si mesmos, como os frutos podres.

Para consolo próprio, acreditei que bastaria identificar essas ameaças (nos criminosos do PMDB, na criminologia aplicada do PSDB, nos capangas do DEM, do PP, do PR etc.) e esperar pelos sucessivos tombos. Ou até que, nos respectivos tempos, fossem todos consumidos pelas próprias toxinas, sem prejuízo de meu silêncio “opcional”.

Contudo, reitero o que já foi dito: não é possível falar de opção onde existe, por definição, uma ruptura transversal, de alto a baixo, na sociedade; desde a autodesmoralização dos governantes – com o próprio golpe “legal” – até a indignação dos governados, mais ou menos conscientes de que foram golpeados; ou de que é impossível, também por definição, um país ser governado por efetivos foras da lei.

Não por acaso, as ilegalidades e todas as formas de violência foram disseminadas de ambos os lados da fenda social. A começar pela luta de classes, paradoxalmente, ”legalizada” pelos desvios morais da própria Justiça. E flagrantes através das “justas” punições aos privilegiados (nas suas confortáveis prisões domiciliares, em pleno uso e gozo de seus roubos). O que não se estende a outros perseguidos judiciais (via de regra, do PT) e tampouco reduz as opressões sociais.

Ao contrário, os múltiplos ataques são indisfarçáveis: aos movimentos e programas sociais, às comunidades mais pobres e, sintomaticamente, às sucessivas revoltas prisionais dos mais desvalidos – o “espelho do mal” em estado bruto, vale dizer, sem os protocolos palacianos. Urge golpeá-las portanto, com a mesma violência, para evitar que os “reflexos” populares se propaguem na direção contrária: dos presídios aos palácios; porque às ruas, essas explosões de violência já chegaram há algum tempo. Sobretudo aqui no Rio de Janeiro.

Mas se cabem ironias na era pós-golpe, alguns também percorrem o caminho inverso – dos palácios aos presídios. Na prática, porém, as estatísticas de políticos confinados chegam a ser literalmente desprezíveis, tanto pela quantidade quanto pela “qualidade” desses criminosos (ainda que possuam “carreiras elogiáveis”, nos critérios de ministros do próprio STF). E nenhum deles do PSDB, como se sabe.

Entretanto, na “jurisprudência golpista”, nada merece um desprezo maior do que o “banco de dados” em que se baseiam as penas desses “presidiários de novela”: os editoriais de O Globo e as audiências do Jornal Nacional. Até os espectadores mais distraídos podem observar quem são os ingressados ou os blindados (nos presídios e nas novelas), segundo a narrativa em curso e seu supremo revisor de texto, o Dr. Gilmar.

Em suma, todos conhecemos igualmente a grande gestora das ideias, dos espaços e dos tempos de “cativeiro” dos brasileiros (antes, apenas nas telas; agora, também nas celas). O mais surpreendente, porém, não foi sequer a Globo ter manipulado os destinos alheios, mas sim ter se embriagado com a própria imagem sedutora, ou com o mero reflexo agigantado de si mesma.

Cedo ou tarde, inevitavelmente, o onipresente “Narciso global” começaria a cair vítima das próprias manipulações. Em outras palavras, o messias virtual só conseguiu seduzir as mentes mais vulneráveis (como ocorre também nas devoções religiosas) porque sempre acreditou nas barbaridades que alimentam seus próprios delírios (e os “negócios” messiânicos em geral).

Mas as ilusões de ótica também levariam a Globo a confundir, narcisicamente, suas audiências cativas com o eleitorado inteiro; seu fanatismo ideológico, com visionarismo político; sua patológica hipertrofia, com as fronteiras de um país continental; e sua vontade, com a própria democracia. Com efeito, um potencial triunfo de audiências.

Não fosse pela apropriação do cronômetro do golpe, sem que os roteiristas globais soubessem utilizá-lo no mundo real. Onde, além dos acidentes súbitos, a relatividade – própria e exclusiva – do tempo pode ser ainda mais desconcertante do que a arrogância em benefício próprio. Ou do que essa efêmera “ilusão de poder”, enquanto as desilusões não se encarregam de aferir os relógios para timings e tormentos que ainda não eram conhecidos.

Assim transcorreu o lento (ou seria intempestivo?) processo misógino que resultou no impeachment de Dilma Rousseff; e, por extensão, de todo o gênero feminino no Brasil – das mais pobres às mais ricas, sem exceções. Entretanto, como sabemos, uma vez aberta a Caixa de Pandora, todos os males são libertados, exceto Elpis – o “espírito da esperança” (que, para os gregos, seria também um mal, por criar imprecisas expectativas em relação ao futuro).

No entanto, os não menos imaginativos brasileiros já conviviam com todos os males conhecidos. A rigor, aprenderam a sobreviver quase que exclusivamente da esperança. Até que a vissem, pela primeira vez na História, materializar-se em conquistas sociais efetivas, ao longo de doze anos. Portanto, diante do farsesco assalto tupiniquim às instituições, o maior dos males nunca seria o excesso nem a falta de esperança.

A única dúvida (geradora de tantas outras) voltou a ser a submissão de todos os brasileiros – assaltantes e assaltados – às caprichosas artimanhas do tempo. Golpeados o livre-arbítrio e a democracia, ninguém se atreveria a prever os efeitos futuros sobre as conquistas do passado recente. Continuarão constantes e furtivos, como as destruições do Temer (& Corruptos Associados)? Ou serão inéditos e vertiginosos como foram as transformações sociais do PT?

Para ser mais preciso acerca dessas imprecisões cronológicas, durante e depois do golpe, seriam de fato excessivas as 20 horas anuais de participação do Lula no Jornal Nacional? Ou estas ainda seriam escassas, visto tratar-se de um protagonista que assegura tamanha audiência à telenovela política? E seriam demasiadas as torturas jurídicas impostas ao grande vilão e sua família (ou antes, ao Dirceu, ao Genoíno, ao Vaccari, à Dilma, à Gleisi e ao PT em geral)?

Na nova “ordem” cronológica, de que maneira deveríamos chamar os imprevistos da direita (ainda que previsíveis e evitáveis, para as esquerdas)? Ou como contabilizar os contínuos ataques aos bolsos e aos direitos da população – dos aumentos vertiginosos no preço do gás à eliminação das aposentadorias? Como meros “acidentes” mensais, semanais, diários? De fato, o tempo é bastante relativo.

Não obstante, insisto em chamar a atenção para o que é absoluto: os que tentam relativizar os fatos, para além da própria relatividade autorizada pelo tempo, também esbarram na sua implacável reação. Por exemplo, a elasticidade das mentiras – divulgadas por meses ou anos a fio – jamais se converte em uma única prova concreta contra os inocentes.

Curiosamente, por outro lado, uma única prova contra os criminosos é o bastante para fazer ruir todo o pedestal (ou sepulcro de tenebrosas verdades) sobre o qual eles ergueram suas próprias estátuas. E cujos destroços atingem também as cabeças inadvertidas dos que antes as veneravam.

Pois reafirmo o que já disse dos golpes súbitos: se não matam, educam, porque todos os envolvidos nas brutalidades obedecem às mesmas leis (físicas) que regem a matéria bruta; e todos vemos os mesmos valores absolutos (ainda que os enxerguemos distintos). Mas ninguém é capaz de controlar as imagens, os sons, os personagens, ou a narrativa dos desastres, no mundo real. Nem sequer a Rede Globo.

E muito menos esta que, por tanto tempo, manteve o foco sobre si mesma. De outros pontos de vista, portanto, para recuperar o tempo perdido, continuaremos a mostrar-lhe como se sentem os que não pensam como ela. Ou como realmente pensam os que se sentem mais brasileiros do que ela. E, na direção inversa, o que sentem e pensam dela os mais “silenciosos”, sobretudo porque não fazem o mesmo uso irresponsável da voz.

 


 

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