11 – SOB O PONTO DE VISTA GEOMÉTRICO

Por Wilson Solon.  

O GOLPE

Nosso caminho histórico não terminará sequer com a aproximação do foco sobre os detalhes. Mas já começa pelo afastamento do quadro, tornando-o o mais abrangente possível, para a retificação dos desvios oculares da direita, que afinal iludiram até as esquerdas.

E não só: “cientistas” políticos, sociais e econômicos (que pouco têm de científico nem de matemático) também vêm reproduzindo tais equívocos histórico-geométrico-ideológicos como verdades absolutas.

O erro original foi nos deixarmos convencer de que um hipotético ‘ponto de equilíbrio’  ideológico seria coincidente com o chamado “centro político”. Até para quem não é versado em geometria, torna-se evidente que, em qualquer reta entre dois extremos escolhidos aleatoriamente, sempre haverá um ponto equidistante de ambos. Mas nada obriga que ali se encontre o equilíbrio absoluto, senão apenas relativo aos mesmos pontos.

Em política (ou na Natureza), se não é possível estabelecer sequer onde estão os extremos, que dirá o centro. Ainda assim, para os mais fanáticos adoradores do ‘capital’, tornou-se conveniente defender suas prioridades “empurrando” os mais críticos, artificialmente, para a posição de “adversários” do desenvolvimento econômico – tido por muitos como um efeito natural e espontâneo do “mercado”. Na verdade, um sofisma jamais comprovado pelos fatos.

Mas com isso os capitalistas apresentam-se como legítimos contrapesos a um suposto desequilíbrio “esquerdizante”, para justificar suas posições reacionárias. Algo tão surrealista como censurar os vegetarianos por não fazerem apologia da proteína animal, embora não sejam opções excludentes. Com efeito, ninguém precisa rasgar dinheiro para se opor aos desmandos do capital, ainda que de fato o bem-estar social não prescinda de uma boa gestão econômica.

Contudo, o capitalismo tampouco se traduz, obrigatoriamente, por uma boa gestão, como querem os apologistas do ‘mercado’. Já não podemos admitir o deslocamento das discussões para “retas aleatórias”, entre pontos escolhidos segundo preferências pessoais – o desprendimento ou a acumulação, a eficiência ou a deficiência, os lucros ou as perdas – no plano material. Nosso quadro é tridimensional.

O equilíbrio absoluto

Convém levantar os olhos, portanto, para identificar os conceitos absolutos – como a sanidade e a dignidade humanas – que, em qualquer teoria econômica, deveriam ser o ponto central e superior a todos os demais. Na política, por conseguinte, o ‘ponto de equilíbrio’ absoluto – tanto pela Física quanto pela Ética – deverá se localizar necessariamente no ser humano, e em nenhuma outra direção para a qual nos tentem desviar o olhar. Eis o que, em tese, chamamos de ‘esquerda’. E também já vimos ser posto em prática pelos governos progressistas.

À direita, os mais reacionários, como lhes compete, reagem a esta constatação com a fúria típica dos míopes ou dos loucos, que sempre consideraram a sua visão bidimensional de mundo como a mais nítida. Passemos então às contraprovas – históricas, geométricas e naturais – com as quais desmontar suas objeções, a começar pela mais previsível: se a norma civilizatória está na esquerda, onde estariam os ditos “centristas”?

Obviamente, eles não passam de aliados (anti)naturais da direita, como a temerária classe política brasileira já se encarregou de comprovar. No entanto, o silêncio omisso torna-se conveniente para que os centristas não sejam denunciados por seu oportunismo, covardia e inoperância. Ou conivência com a exploração ancestral dos mais fracos pelos mais selvagens.

A segunda objeção não seria menos “pré-visível” (como outro efeito colateral da mesma miopia): por esta nova convenção, onde estariam então os extremos ideológicos – direito e esquerdo – que sempre foram opositores ferozes entre si? Com efeito, pela própria ferocidade, os extremistas apenas parecem movimentar-se em sentidos opostos, antes de chegarem ao mesmo ponto. Como se andassem sobre um círculo, até que se enfrentem em algum campo de batalhas comum a ambos – mas em prejuízo de toda a humanidade.

Em exemplos concretos, o que separava Hitler de Stalin, na gloriosa e desvairada defesa das respectivas “utopias” nacionalistas? Rigorosamente nada. Ao contrário, seus ataques odiosos aos “inimigos” resultaram em idênticas perseguições – e extermínios – de milhões de cidadãos de suas próprias nações. Na dúvida, ou diante de tantas dúvidas que nos foram incutidas, as lentes adequadas também nos permitem desmistificar outros falsos antagonismos. E encontrar o foco.

Os conceitos absolutos

Afinal, o que representaria a sanidade, a dignidade, ou a normalidade, na natureza humana? Comecemos pelo comportamento, embora sob o ponto de vista inverso: o que seria uma ‘anormalidade absoluta’, segundo os “valores” da direita? Ou como tratá-las: com as hediondas discriminações materialistas – de raça, gênero, classe, orientação sexual, etc. – dos fascistas assumidos? Ou talvez com a “tolerância” (tímida ou soberba) dos centristas?

Como se vê, os rígidos dogmas da direita são uma vasta gama de posturas caóticas. E suas retóricas econômicas aparentemente “ricas” – das mais ortodoxas ao neoliberalismo – pouco têm em comum, exceto o fato que pode ser observado: todas se afastam, em maior ou menor medida, de um hipotético ‘ponto de equilíbrio’ (qualquer que seja este), pela própria inexistência de uma teoria capitalista que, comprovadamente, assegure resultados práticos em favor da sanidade e da dignidade absolutas (seja lá o que se queira incluir nestes conceitos teóricos e intuitivos).

O único denominador comum ao vasto espectro da direita – quando incomodada em seu egoísmo patológico – são as repetitivas acusações genéricas à “permissividade” da esquerda: na economia, pela “irresponsabilidade fiscal” dos seus investimentos (que não beneficiem as elites, é claro); no comportamento (incluídos os aspectos culturais, humanísticos e espirituais), pelas inserções sociais das classes e raças consideradas “inferiores” – o que não passaria de populismo, paternalismo ou assistencialismo.

Assim, quanto menos os governos invistam em determinados grupos sociais, tanto mais poderá investir no combate ao “caos social” – via de regra, “provocado” por esses mesmos grupos e sempre “fomentado” pelas esquerdas. Em outras palavras, o Estado “mínimo” – preconizado pelo capitalismo – deve ser máximo somente em questões de segurança (ou repressão) policial, militar e judicial.

Na prática, se juntamos as duas pontas – econômica e comportamental – tornam-se explícitos o paradoxo moral da direita (sobretudo a golpista) e a impropriedade geométrica de localizar qualquer ponto de equilíbrio no chamado centro político.

Os dois planos do caos

No plano individual, tratamos de casos psiquiátricos óbvios (ainda que inconscientes) de ‘projeção freudiana’: preciso exterminar o inimigo cuja “pobreza” reflete o mal – que a rigor só existe no meu olhar. De fato não passa pelas cabeças ocas e corações loucos, ou vice-versa, que somente o extermínio da pobreza em si pode representar alguma solução social efetiva.

Contudo, no Brasil do golpe, temos também um plano governamental – consciente e deliberado – de violências localizadas e genocídio social, sem que tenha sido eleito por ninguém. Não por acaso, os preconceitos subliminares, entre outras incoerências e relativizações da direita, precisam ser tão repetitivos nos discursos quanto são ineficazes na prática.

Assim, os ouvintes (sobretudo das novelas e “informações” televisivas) são vencidos pelo cansaço; os alienados são confundidos pelas mentiras; e os demais (não raro, na própria esquerda) são convencidos de que há questões ideológicas realmente “indefiníveis”. Mais um sofisma capitalista a ser submetido ao foco.

Qualquer discurso ideológico que não deixe explícita a prevalência do homem e da sociedade sobre o capital e o mercado – como propõe a esquerda – acaba por revelar, na mesma medida em que tenta esconder, o próprio desequilíbrio. Assim como explica, do ponto de vista geométrico, os demais desvios de percurso – intelectuais e éticos – sempre à direita da normalidade absoluta.

A retificação dos percursos

Curiosamente, sob o nosso ponto de vista, os desvios readquirem a exatidão das Ciências Físicas e os conteúdos libertários das Ciências Humanas. Por definição, para um observador localizado no ponto de equilíbrio, todos os comportamentos pessoais e sociais do espírito humano – quando não interferem com o livre-arbítrio dos demais – são absolutamente normais.

Não obstante, contestariam os míopes: mas há também os “esquerdistas preconceituosos”, no comportamento, assim como há ortodoxos na economia que são “liberais” quanto aos direitos individuais. Talvez. Mas convém levar em conta as respectivas estatísticas: estes últimos – muito mais numerosos – apenas preferem ignorar (para dizer o mínimo) os violentos bastidores da relação entre o capitalismo e os direitos humanos; já os primeiros – muito mais raros – não passam de esquizofrênicos de esquerda.

Os dois subgrupos, no entanto, além de deslocados do contexto político em que decidiram atuar, são igualmente confusos em relação à própria identidade. Mas essas bizarras exceções não deixam de comprovar as respectivas regras: a própria flexibilidade dos mecanismos capitalistas (como as oscilações das bolsas de valores) tanto evidencia o conceito absoluto de honestidade quanto os casos “relativos” de corrupção.

Assim se torna compreensível que a direita, em obediência aos próprios “valores”, disponha de inúmeras justificativas teóricas para se corromper; e que a esquerda, ao contrário, somente se corrompa quando renega, na prática, os seus princípios ideológicos. Em resumo (estatístico e geométrico): a direita corrompe como regra; a esquerda, como exceção.

Para a direita, esta conclusão talvez soe tão escandalosa quanto os seus protestos habituais: como afirmar que um cidadão não poderá enriquecer (nos níveis de um corrupto, querem eles dizer) mesmo que trabalhe com afinco e honestidade?

A resposta estatística é realmente frustrante para os mais ambiciosos. A não ser que falemos dos herdeiros, dos ganhadores da loteria, ou de outra exceção literalmente honrosa; como, por exemplo, um empreendedor genial o bastante para contornar os obstáculos da matéria sem ferir a ética do espírito humano.

Ainda assim, os grandes “homens de negócio” (efetivamente dotados de alguma genialidade específica) representam um percentual mensurável, válido para todos os gênios – do pensamento, das artes, das ciências, ou de qualquer ofício. Mas se cotejamos o número de milionários que brotam da noite para o dia (particularmente na política) com o dos gênios que se tornam milionários, fica evidente que as regras e estatísticas não encontram a correspondência desejada.

No Brasil

A mesma disparidade moral corresponde e comprova o que de fato corrói as bases de qualquer sociedade civilizada. Ou o que empobrece e envergonha os brasileiros, em particular, e estarrece todo o planeta, pelo nosso despudor cada vez mais visível – na desonestidade dos políticos, na ineficiência das instituições, no descrédito da grande mídia e na parcialidade do Judiciário.

Mas não bastassem os setores privados que alimentam as nossas elites (com “financiamentos” públicos e vultosas publicidades estatais), são os próprios funcionários públicos “de elite” – concursados ou eleitos – os que já recebem salários superiores à média do mercado privado (e do resto do mundo civilizado), antes mesmo que alguns deles decidam beneficiar-se de seus cargos para roubar efetivamente.

Entretanto, os chamados supersalários (sobretudo dos Poderes Legislativo e Judiciário) também contribuem para revelar outro paradoxo do egoísmo humano: as remunerações salariais exorbitantes não só desnudam a nossa direita preguiçosa e predatória como explicam a qualidade – inversamente proporcional – dos seus serviços prestados à sociedade.

Ainda assim, talvez a lógica matemática pareça tendenciosa ou abstrata, para corroborar nossas conclusões sobre ‘esquerda’ e ‘direita’. Compreensivelmente, os efeitos colaterais das miopias ideológicas não atingem somente a razão e as emoções humanas, mas sobretudo o livre-arbítrio dos que se deixam corromper. Afinal, o ‘óbvio’ (histórico e geométrico), embora comprovável na matéria, nunca seria aceito pelos que escolhem não enxergá-lo. E menos ainda sob o império da manipulação das imagens.

Portanto, torna-se imprescindível analisar igualmente a corrupção segundo essas componentes psíquicas estabelecidas pela própria Natureza, em que pesem seus desvios à direita: as distorções emocionais e as fraudes intelectuais, sem as quais seria difícil para a Rede Globo subjugar tantos brasileiros.

Especialmente os que se imaginam capitalistas “liberais” e “bem-intencionados”. Na prática, como confirmaremos, eles jamais poderiam ser uma coisa nem outra.

 


 

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