O Feliz Natal da família brasileira

Por Wilson Solon.

Venho tentando me convencer de que a mais nonsense das datas festivas do planeta seria ao menos um “bom pretexto” para estar junto dos entes queridos. Contudo, em nome da verdade (de que tantos sofistas me acusam de ser “dono”), admito que nesses tempos atrozes já não vejo nada de bom na hipocrisia natalina. Nem entendo o paradoxo dos encontros espontâneos que carecem de pretextos…

Mas devo admitir igualmente as minhas cotas de responsabilidade por uma virtual anulação da convivência com a espécie humana (no meu caso, em benefício da felina). Sei que também me tornei, como muitos petistas, um animal desagradável, desde que percebemos, clara e precocemente, há mais de 2 anos, onde essa merda de impeachment iria dar.

E de fato nem sempre segurei a onda emocional, diante do que via. Curiosamente, em outros tempos, ter sido acusado de louco por investigar o passado (da História e do espírito humano) era bem mais ameno do que ver emergir a loucura efetiva, sob a alienação coletiva. Até que, muito além de qualquer profecia, a metáfora se materializasse, literalmente, na bolsomerda agarrada ao corpo de um escatológico “ditador eleito” (!) Só no Brasil…

Mas o que isso tem a ver com o Natal? Talvez pouco, além de uma versão honesta para a minha ausência desses eventos festivos, caso alguns poucos leitores, seguidores, ou familiares, se interessem por conhecê-la. Caso contrário, ninguém vai ser obrigado ao dissabor da leitura. Nem à presença física de um “radical” de esquerda que não consegue conter suas emoções acaloradas em meio à fria compostura das reuniões sociais.

Por outro lado, a propósito dos natais em família, pra quem não se incomoda em refletir sobre questões radicais, ou estruturais, do corpo e da alma, posso resumir o estado de espírito de todos (embora poucos sejam conscientes do próprio estado): se antes cada brasileiro vivia sob o respeito às leis, à cidadania, à nacionalidade e à humanidade, repito, passamos literalmente do Bolsa-Família à bolsa de merda. Mas os responsáveis ainda se recusam a cair na real.

Portanto, se o Natal já era emblemático de tudo o que os seres sensatos mais abominam – do consumismo às comilanças desenfreadas; dos supermercados aos shoppings abarrotados; das hipocrisias sociais às fraudes do cristianismo – ainda assim era possível suportá-lo com algum humor, sob o manto protetor da democracia.

Sobre as questões religiosas, no entanto, já escrevi o suficiente (sob o ponto de vista cristão, e ainda, invisível à História, na série ‘O Golpe e Você, Tudo a Ver!’), para não precisar voltar a essas falsas controvérsias, que de fato já foram tão desmoralizadas quanto os outros mitos e fábulas contemporâneas (como a corrupção das laranjas, as alucinações das goiabas…)

Na atual conjuntura, realmente não vejo outra data mais apropriada para
os convescotes dos ignorantes compulsivos do que o Natal. Só que agora, como os fascistas não escondem mais os métodos odiosos que nos reservam para o futuro próximo, também se tornou insuportável, para os seres mais lúcidos e sensíveis, qualquer grau de cumplicidade com a bestialidade. Nas respectivas medidas, evidentemente, desde que cada brasileiro decidiu acreditar na narrativa global de que foi o PT quem afundou a Arca de Noé.

Agora é tolerância zero, pelo menos até que todos recuperem, na mesma medida, a consciência da própria contribuição ao antipetismo insano: dos apenas desnorteados pela Globo e já envergonhados (como os intelectualóides ciristas) aos odiosos deliberados, porém perfumados e dissimulados (como os aecistas, alckimistas, doristas) até os representantes da insanidade em estado bruto, como os bolsonaristas assumidos.

Felizmente não tenho conhecimento destes últimos exemplares na minha reduzida fauna familiar. Nem de fanáticos religiosos, Glória a Deus! Ainda assim, dentro ou fora do meu habitat, tornou-se penosa (para ambas as partes, reconheço) a convivência com qualquer um que se distrai de tudo o que perderam (a começar pela própria consciência) e da forma criminosa – portanto impossível de ser naturalizada – com que fomos despojados da soberania nacional, da segurança das leis, da legitimidade do voto, da dignidade da cidadania e, last but not least, da liberdade individual.

Obviamente, entre os golpeados, incluo também os aliados dos opressores – dos pobres aos egoístas de direita – ainda que inconscientes de sua patética condição. Mas como a empatia não é um valor capitalista, não falo sequer do que jamais lhes tocaria o coração, como a fome alheia, a aniquilação do estado de bem-estar, as discriminações sociais e os assassinatos de índios e lideranças populares. O que, aliás, já se tornou uma epidemia nacional (embora não passe na Rede Globo), antes mesmo da permissão oficial do novo führer tupiniquim. Aguardemos, portanto.

Por ironia, se cabe alguma, os reais presidiários do ódio logo verão o que suas emoções patológicas serão capazes de “construir”. Não por acaso, muitos deles ainda exigem compulsivas e sintomáticas autocríticas alheias, enquanto se recusam a admitir que nunca viram ser destruído, nos tempos do PT, um único indicador econômico ou social conhecido.

Em suma, eis o que faz o estado de espírito de um petista ser tão inoportuno; ou o símbolo maior da nacionalidade brasileira (como poucas nações tiveram a sorte de possuir) ser feito prisioneiro e, ainda assim, continuar a ser o objeto supremo do ódio e do pavor da escória – branca, velha e misógina – da espécie humana. Via de regra, juízes e políticos criminosos que, só no Brasil, poderiam ter tomado o poder pela força e nos impingido um sucessor nazista pela fraude. Não obstante, todos nos confraternizamos no Natal…

Para muitos, portanto, não convém participar de festividades onde a alegria pretende ser tão genuína quanto a posse do Bolsonaro. Nem valeria a pena fingir que estamos felizes a despeito da barbárie, já que não somos pretos, nem pobres, nem gays… Com efeito, num regime de exceção, já não somos coisa nenhuma.

Mas convém ainda menos ser conivente, por alienação, porque já estamos em guerra, no espírito. E a luta apenas começa por acordar os pequenos acovardados, antes de enfrentarmos os grandes covardes, que só recuarão diante de uma indignação explícita e proporcional à sua arrogância.

Até então, muitos progressistas ainda preferem estar sozinhos, mas não necessariamente solitários, se conservam a autoestima. Tanto quanto aprenderam a estimar os semelhantes. Talvez o bastante para não querer torturá-los permanentemente com seu dever cidadão de estar indignado. Sempre. Na melhor das hipóteses, pela alienação alheia.

Na pior das hipóteses, seria igualmente torturante ter que lidar com certos votos paradoxais, em lugar do único voto sincero, digno e urgente para nós brasileiros (ainda que doentes de ódio) e do qual fomos arbitrariamente privados.

Em outras palavras, ao invés de um ‘feliz natal’, com sinceridade, só posso desejar a todos um eterno ‘ Lula Livre!’

2 comentários em “O Feliz Natal da família brasileira

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