ANATOMIA DE UMA ABERRAÇÃO (PARTE 2 – NA PRÁTICA)

Por Wilson Solon.

(Leia aqui a PARTE 1 – EM TEORIA)

44940573_1124769957647686_2832784094264295424_nConfesso não ter sido capaz de cumprir a “promessa eleitoral” de publicar estas confirmações práticas logo após o resultado das eleições. Mas não sucumbi apenas à perplexidade com o que, afinal, era já previsível. A rigor, todos os que defendemos outro projeto de sociedade fomos paralisados pela própria previsibilidade dos horrores – tão ostensivamente anunciados pela boca dos loucos quanto ignorados pelos ouvidos moucos.

Por outro lado, muitos brasileiros genuinamente perplexos com a barbárie, de certa forma, também se habituaram às ameaças bolsonaristas (a ponto de naturalizá-las como discurso eleitoral), assim como já estavam habituados a um antipetismo “light”, quando apenas repetiam, inconscientemente, a eterna cantilena “global”: tudo é culpa da “corrupção do PT”.

Não por acaso, eles ficariam igualmente perplexos com as traições (e autotraições) dos “melhores” representantes de esquizofrenias análogas (sempre contra o PT): de uma ecologista amargurada, como Marina Silva, que se perdeu na selva das ideologias; ou de um vaidoso “controlador” da democracia, como Ciro Gomes, que há muito já perdera o autocontrole; ou ainda de um moralista psicótico, como Moro, já sem moral nem caráter, mas que afinal perderia também o pudor de exibir os próprios crimes – nas manobras político-partidárias de um juiz corrupto.

Dos respectivos seguidores outrora “convictos” (na verdade, manipulados pela Globo), muitos abandonaram finalmente seus gurus na estrada. Mas não se sabe exatamente quantos se juntaram aos demais ignorantes funcionais que, por sua vez, engrossaram o coro dos histéricos incuráveis, como são os enfermos crônicos do ódio – antipetista, pró-fascista, ou outro qualquer.

Não obstante, no extremo oposto, sabe-se com precisão que pelo menos um terço do eleitorado brasileiro mantém o PT, há décadas, como a maior (senão a única) referência de estabilidade política, lucidez ideológica e sensibilidade humanística (notoriamente perdidas pelos dois terços restantes), em que pese as campanhas de demolição midiática afirmarem precisamente o contrário.

Na prática, portanto, para os apenas iludidos ou de fato seduzidos pela aberração bolsonarista, torna-se imprescindível percorrer o caminho inverso: desconstruir as falsas memórias implantadas por um monopólio da desinformação, e recordar a bem sucedida trajetória do Partido dos Trabalhadores no poder. Só então será possível reavaliar (na parte 3 – os prognósticos) as conclusões desta anatomia psíquica e os próprios descaminhos dos detratores da verdade.

Cronologia das evidências

A partir de 2003, nossas “verdades” históricas – “democracia racial” e “paz social” – referidas no artigo anterior como meras crenças dogmáticas, adquiriam, tal como hoje, novos matizes aparentemente repentinos, com a eleição do Lula – um imigrante nordestino, líder operário desprovido de um dedo e de um diploma universitário (embora se tornasse um campeão mundial em títulos de doutor honoris causa).

Contudo, o movimento era o inverso do atual, para o bem ou para o mal. Naquela altura, para as ‘elites’ derrotadas nas urnas, o PT logo cairia “de podre”, segundo elas, por seu próprio primitivismo proletário. Na prática, porém, não era o que viam, pela primeira vez em suas vidas.

Pretos, pardos e índios “invadiam” cada vez mais as antigas e novas universidades, antes exclusivas de seus filhos (brancos); outros tipos ‘pobres’ (como designação “natural”, ou anátema divino) abarrotavam os shoppings, restaurantes e demais espaços “naturalmente” reservados a uns poucos (como os aeroportos de um país em que são necessários três dias para cruzá-lo por terra, de norte a sul, ou de leste a oeste).

No entanto, em democracia, o incômodo e o egoísmo das elites haviam que ser suportados em silêncio. E assim a Globo também se viu obrigada a sufocar seu antipetismo no estágio primário das mentiras: suas próprias demagogias (campanhas “sociais”, novelas surreais e notícias triviais) sobre uma sociedade em que incorporar os “inferiores” passava a ser politicamente correto. Ou inevitável. Afinal, também os “superiores” se tornavam cada vez mais ricos.

Não obstante, um único governo do PT já seria o bastante. Como Lula jamais renunciaria ao seu povo (nem vice-versa), haveria que se fabricar uma acusação qualquer contra ele, e outras ilusões para dividir o povo; ainda que nada proviesse de algum baluarte da moral, mas de um político patético e corrompido como Roberto Jefferson. O importante era que as “suspeitas” fossem lançadas contra o PT.

Surgem então a primeira farsa jurídico-midiática da história recente (pré-Lava Jato) – o chamado ‘mensalão do PT’ – e também o falso estigma já mencionado – a “corrupção do PT” – doravante repetido como o mantra da direita. No qual, com efeito, muitos acreditariam.

Eis também como o antipetismo chegou ao Judiciário, vale lembrar, a mais elitizada corporação profissional a serviço dos interesses (e dos membros) das próprias elites. Contudo, na impossibilidade de vencer o Lula pelo voto ou (ainda) pela lei, o alvo seria o seu ministro, José Dirceu, segundo nome e estrategista político do partido. A manobra jurídica “certamente” abalaria a reputação do presidente e a organização partidária, nas eleições seguintes.

Mas é possível resumir esse estágio “jurídico-literário” das mentiras na argumentação da própria ministra do STF, Rosa Weber, para condenar José Dirceu: “não tenho provas, mas a ‘literatura jurídica’ assim me permite”. Estas e outras pérolas foram transmitidas ao vivo no primeiro “BBB judicial” da Rede Globo. Que assim transformaria a discrição dos julgamentos e a solenidade dos plenários no cenário de seus novos shows de auditório.

Ainda assim, o PT não caiu, e Lula venceu de novo as eleições de 2006. O Brasil passara de devedor (intimidado e tutelado) a credor do FMI; e sua economia, da 13ª à 6ª posição mundial. O Ministro da Educação (e futuro candidato presidencial, Fernando Haddad), não só inundaria o Brasil com centenas de universidades e milhares de centros escolares, como meteria neles milhões de negros, pobres e índios.

Para qualquer nação, eram números desconcertantes, que se repetiam em todas as estatísticas sociais conhecidas (e disponíveis na internet), por fim traduzidas nos 35 milhões de seres humanos retirados da pobreza, nos outros 40 milhões ingressados na classe média, e no País fora do mapa da fome da ONU.

Nas mesmas proporções, os preconceitos desafiados, os incômodos multiplicados, as emoções reprimidas e já insuportáveis, para as elites, transformavam-se em ira, em rancores, em úlceras, diante das conquistas populares. E as mentiras “inofensivas” alcançariam novos estágios de ousadia e intoxicação – na jurisprudência, nas informações e nas imagens “globais”. Até que o terreno já estivesse pavimentado para as fraudes mais grotescas alguma vez impostas ao povo brasileiro.

Entretanto, sem uma postura ativa e preventiva de contrainformação – ingenuamente negligenciada pelo PT e aliados – os massacres de reputações prosseguiriam impunemente. E muitos brasileiros continuariam a acreditar neles.

Estágios finais das manipulações

Conhecidos os repetitivos padrões internos, podemos abreviar a “evolução” do antipetismo com a introdução do fator externo determinante de sua velocidade: nesse curto período, com pesados investimentos em pesquisa, inteligência, novas tecnologias, e por decisão exclusiva do Governo – do Partido dos Trabalhadores – o Brasil converteu-se na terceira reserva mundial de petróleo.

E também no novo objeto da cobiça internacional, capitaneada pelos Estados Unidos da América. No segundo posto, a Arábia Saudita (sob uma monarquia corrupta e reacionária), já prestava vassalagem aos selvagens capitalistas norte-americanos; e a Venezuela, no primeiro posto, jamais lhes prestaria.

Assim, Dilma Rousseff, ministra de Minas e Energia de Lula, co-criadora e gestora desse triunfo energético (com prioridade social e investimentos em educação e saúde), a seguir, sucessora de Dirceu no Ministério da Casa Civil, tornou-se a sucessora natural do próprio Lula à Presidência da República. E a nova esperança dos raivosos por uma já tardia derrocada do PT.

Mas o PT venceu, também com Dilma, suas terceiras eleições presidenciais, em 2010. E Lula retirou-se com 87% de aprovação popular (para o mesmo modesto apartamento em que vive há 20 anos). As frustrações das elites ampliaram não só o desespero, mas o despudor das novas calúnias. Nas quais muitos outros manipulados acreditariam.

Nessa altura, o antipetismo acrescentou mais um ingrediente – o machismo – ao ódio agora concentrado em Dilma Rousseff. Não fosse o bastante, a primeira presidenta eleita do Brasil passou a ter prioridade (ao lado da Petrobrás, a gigantesca e mais cobiçada das estatais) também para a espionagem estadunidense, como já comprovaram os documentos revelados pelo Wikileaks.

Não por mera coincidência, a partir de 2013, uma reivindicação supostamente de esquerda (pela redução de alguns centavos nas passagens de ônibus), embora restrita à cidade de São Paulo e já solucionada (pelo então prefeito Fernando Haddad), voltou-se “misteriosamente” contra a presidenta, no auge da popularidade de seu governo (próxima aos 80%) e do pleno emprego, no Brasil.

Compreensivelmente, como uma campanha orquestrada e divulgada pela Rede Globo – sob os argumentos fictícios da crise econômica (!) e da impopularidade (!) do governo. Uma vez mais, muitos acreditariam. E não só na incompetência de Dilma, mas na idoneidade dos demais movimentos políticos de ultradireita (MBL, Vem Prá Rua e congêneres) que surgiram tão enigmáticos, na altura,  quanto agora já são conhecidos os seus ideólogos e financistas – norte-americanos.

Desde então, as mentiras não mais recuariam do estágio das difamações obscenas (contra uma mulher, ademais, sabidamente honrada), das ofensas pessoais, ou das desqualificações “globais” contra os membros do PT – rebatizadas de ‘pós-verdades’. De posse delas, as eufóricas elites “liberais” (embora sempre aprisionadas pelo ódio) já não apostavam sequer um níquel na reeleição de Dilma Rousseff, no ano seguinte.

Tampouco os ‘novos ricos’ (outrora pobres) de direita pareciam defender o legado comum, após mais de uma década anestesiados pela prosperidade material e pelas imagens da Globo. Ainda assim, nas eleições de 2014, o projeto do PT, pela quarta vez consecutiva, era ratificado pela maioria dos brasileiros – fato único nas democracias modernas.

Conhecidos os êxitos absolutos do petismo (e os sucessivos fracassos morais do antipetismo), estamos aptos a prosseguir rumo ao futuro ainda imprevisível. Pela mesma lógica, também podemos relativizar a dolorosa derrota para o fascismo como mais uma admirável vitória moral do PT – e de todos os que se mantêm resistentes ao ódio.

 


 

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