30 – SOB O PONTO DE VISTA DE UMA NAÇÃO DEVASTADA

Por Wilson Solon.  

O GOLPENo depoimento anterior, a partir das imagens de um “mesmo capitalismo”, chegamos a conclusões opostas, para as duas nações mais populosas do Ocidente. Em todos os níveis: das escolhas ideológicas aos benefícios auferidos; da participação política à composição étnica dos respectivos povos e elites.

No Brasil, já não há mais dúvidas (exceto talvez para essas elites) quanto aos que produzem e aos que usufruem das riquezas do sistema econômico-financeiro. Nem quanto à demolição do velho clichê capitalista de que “o bom” para os Estados Unidos também o seria para o Brasil.

Mas antes de falar do que é óbvio no desastre – econômico, político, social e moral – a que chegamos, destaco os respectivos sentimentos nacionais que permanecem ocultos; seja porque os norte-americanos não os percebem (sequer em si mesmos), seja porque o “nosso” monopólio de informações tampouco nos permite questionar alguns dogmas “globais” (que na verdade servem somente aos primeiros).

Refiro-me, antes de qualquer outro, ao conceito genérico de ‘autoestima’, nos dois níveis (consciente e subconsciente) imperceptíveis nas imagens que dominam as mentes de ambos os povos. Lá, no entanto, são eles mesmos que as produzem, segundo os próprios desejos, necessidades e paradigmas históricos, como já foi analisado.

Conscientemente, portanto, os estadunidenses têm todos os motivos para se orgulharem de filmar, consumir e divulgar, para o mundo, as imagens da pujança e supremacia do american way of life. Ocorre o mesmo nos níveis mais superficiais do subconsciente, para um povo que se orgulha de sua história passada e recente, a despeito das visíveis bestialidades – do culto às armas à pena de morte – ainda consideradas legais e “legítimas”.

Nos níveis inconscientes, porém, nenhum ser humano saudável celebraria, por exemplo, um passado de extermínio dos índios, ou de escravização e discriminação dos negros. Assim como, no presente, nenhum cidadão mentalmente “normal” deveria se excitar com a exploração comercial, ou com os triunfos de “seu deus” cristão, ou de seus exércitos, sobre outros povos. Nem tampouco por poder usar pistolas contra seu próprio povo.

E muito menos por ver todas essas “glórias” transformadas em imagens, que retornam como bombardeios sobre suas próprias retinas. Ao vê-las, entretanto, fecha-se o círculo vicioso da manipulação imperialista, no qual a excitação, o patriotismo e o “entretenimento” cumprem o relevante papel de banalizar a violência, e assim anestesiar, cada vez mais, a consciência.

Contudo, seres humanos não são hienas. E embora o ‘criacionismo cristão’ preconize o contrário, o ‘evolucionismo científico’ não exclui os animais humanos (incluídos os norte-americanos). Por conseguinte, cada vez mais cidadãos, de qualquer nacionalidade, tendem a acordar de seu torpor histórico. Em outras palavras, ainda que os incômodos inconscientes custem a ser percebidos, o número dos indignados sempre aumentará.

Não por acaso, cada vez mais cidadãos norte-americanos (assim como os brasileiros golpeados) vão readquirindo a lucidez, quando veem os resultados do seu modelo civilizatório; entre outros, na imagem midiática de um Donald Trump. Na pior das hipóteses, eles já começam a intuir por que os impérios erguidos sobre forças tão brutais, ou uma “cultura” baseada em valores humanísticos tão frágeis, cedo ou tarde apresentam os sinais de sua inexorável decadência.

A inconsciência particular dos brasileiros

Mas voltemos ao Brasil, onde tudo vai na direção inversa. No nível consciente, nossa autoestima tem de fato todos os motivos para tropeçar nas depressões episódicas. Ou até para se hospedar, por longas temporadas, no “complexo de vira-latas” (tão denunciado pelo Lula). Sobretudo porque a Globo nunca se descuidou de bombardear, literalmente, nossas almas e retinas com as imagens da “civilização superior”.

Não obstante, cresce proporcionalmente o número dos brasileiros já conscientes de onde vieram o “espírito” e a “genética”, além da própria existência física da emissora; ou para onde ela deve voltar os olhares alheios e suas próprias energias – mas, igualmente, as dos melhores intelectos nacionais. Compreensivelmente, essas consciências chantageadas, desde o berço, nunca aprenderam a resistir aos assédios da estética imperialista.

Ademais, para os grandes profissionais cooptados pela Globo, a chantagem subliminar prossegue pela promessa explícita de que cada nova produção sempre obedecerá ao ‘padrão hollywoodiano’ que, quiçá em pouco tempo, os conduzirá ao zênite da carreira de um artista ou técnico tupiniquim: um prêmio concedido pelos norte-americanos – sonho e orgasmo de dez entre dez “globais”!

Poucos, no entanto, percebem o primeiro paradoxo (na verdade, um pleonasmo) dessa subserviência acrítica: as imitações já começam por subverter a premissa maior das criações artísticas – a originalidade – ainda que se gastem fortunas para escamotear as apropriações do alheio (como os próprios americanos sempre fizeram, por exemplo, com os remakes dos filmes europeus).

Em matéria de criatividade, a rigor, são os brasileiros que têm muito a ensinar ao mundo (quando se convencerem disso). E são as nossas elites que se veem refletidas nas imagens da Globo; ou que entram em pânico quando o Lula denuncia os complexos de inferioridade que ela tenta transferir às massas. Não por acaso, o êxtase dos inconscientes é desqualificá-lo com o mais tosco dos argumentos: não ter sequer um curso “superior”; particularmente, em alguma universidade dos Estados Unidos.

Sorte a dele. Possivelmente seria um desastre para o mais visionário dos nossos políticos, se o establishment lhe arrancasse, não as virtudes humanas, é claro, mas a originalidade. Talvez, como todos os governantes anteriores, Lula não tivesse se transformado no homem que mais universidades construiu para os brasileiros autênticos. Ou para um povo que não arrasta os mesmos complexos que paralisam uma elite tão desprezível, e que atormentam os próprios imperialistas (de lá).

Em suma, a imensa maioria da população (de cá) não esbarra em obstáculos mentais ou emocionais que nos impeçam de incursionar pelo inconsciente mais profundo; de onde provêm as alegrias genuínas de nossa nacionalidade mestiça e plural; ao contrário dos demais, de lá e de cá, que se empenham em bloquear esse movimento anímico, através das informações manipuladas.

As soluções da consciência

Eis a gênese de nossa esquizofrenia e a dimensão de nossos desastres: qualitativa e quantitativamente, como comprovam pesquisas internacionais (no governo Lula e no atual), temos todos os motivos para nos sentirmos a melhor nação do mundo, mas também a mais envergonhada.

Analogamente, pequenos tropeços – de um único pigmeu político – podem resultar em quedas monumentais, quando o convertem em “líder” de um gigante como o Brasil. Talvez só nos falte perceber que a vergonha não são os tombos em si, e sim permitir que uns poucos pigmeus continuem a dar-nos rasteiras. Mas por que o conseguem com tamanha frequência?

Precisamente porque uma quadrilha de “governantes”, embora reduzida, nos distrai com suas imagens irreais, e afinal nos convence de que a ‘vergonha alheia’ deve ser dividida com toda a população. Definitivamente não: a imensa maioria de nossa gente não é corrupta nem escravocrata, como querem nos convencer alguns “sociólogos liberais”; e apenas se mantém perplexa com uma elite egoísta e ignorante.

Com a mesma “coerência” de seus sofismas econômicos, nossos usurpadores não só se deixam corromper por “valores” alienígenas, como sequer admitem pagar as próprias contas. Na direita, portanto, sem exceções nem pudores – do chamado “centro” ao fascismo político e judiciário; dos pigmeus da imprensa burguesa à Rede Globo de Televisão – todos se sentem legitimados e encorajados a violar os direitos da maioria.

Tratamos, literalmente, de um “liberalismo sem fronteiras” ainda mais obsceno do que o próprio capitalismo que o pariu. Entretanto, para que não façamos acusações levianas, vamos às provas concretas que evidenciam a autoria dos descalabros, mais além das amarguras individuais e sociais.

Não deixa de fazer sentido que os nossos crimes de lesa-pátria obedeçam a estatísticas proporcionais às dimensões nacionais, que de fato não se “veem” em nenhum grande país do mundo. Nem sequer nos Estados Unidos da América. Divido assim, com o prezado leitor, a responsabilidade de questionar e desmentir o que está ao alcance de todas as vistas e de todas as vítimas, nesta terra arrasada:

Quem conhece outro monopólio de informações com o mesmo poder de governar uma nação inteira?

Quem tem notícia de outro escárnio nas proporções do grotesco espetáculo televisivo-parlamentar que derrubou uma governante honesta e eleita pelo voto popular?

E que emissora continuaria a ignorar ou a perseguir como criminosos – sem uma única prova – somente os membros do maior partido de esquerda do Ocidente?

E quem já ouviu falar de outro governo – na história humana – formado integralmente por medíocres homens brancos, cujos feitos e defeitos são registrados e atirados diariamente contra a população, pela própria emissora que os “elegeu”?

Mas já que falamos de estarrecedoras (im)probabilidades matemáticas, e não só de crimes, ignoremos os magistrados elevados ao estrelato por sua criminosa cumplicidade com os oligopólios midiáticos; ou, ao contrário, as dezenas de políticos e ministros de Estado já relegados ao ostracismo pela própria mediocridade.

Desconsideremos também os demais corruptos que, por definição, já o seriam simplesmente porque servem a corruptores notórios, ou porque se sentem representados por um bandido comprovado – pelas imagens da própria Globo. Mas tampouco seria possível apresentar aqui essas e outras evidências do vergonhoso entreguismo nacional que hoje circulam pelas redes.

Não obstante, já podemos concluir que só o Brasil, por sua originalidade e grandeza, seria capaz de produzir tamanha vergonha, em escala mundial. No penúltimo depoimento, portanto, convém analisar as provas definitivas de que nem o povo nem Darwin poderiam ser responsabilizados por essa “seleção natural” às avessas. Refiro-me, obviamente, ao Ministério do Golpe e às suas demolições autoexplicativas.

Mas admito que o óbvio, ainda assim, não nos servirá de consolo, diante de tantos retrocessos civilizatórios. E tampouco convenceria os corruptos irremediáveis nem os lunáticos que clamam por alguma terapia de choque – como uma “intervenção militar” – a procurarem com urgência um psiquiatra.

Por outro lado, na humilhação de toda a nação e de cada um de seus filhos – do mais inconsciente espectador televisivo ao mais lúcido representante da nossa cidadania – já identificamos ao menos o primeiro enigma psíquico a ser decifrado: como explicar que o prisioneiro político mais comemorado pela insanidade global seja, ao mesmo tempo, o objeto do maior movimento de solidariedade jamais visto no Brasil?

Nossa resposta ainda não permitirá um diagnóstico único para todos os perversos e enfermos da razão: para os autistas, como um Michel Temer; para os psicopatas, como um Pedro Parente; para os transtornados de personalidade múltipla (já retratada sob o ponto de vista de um ator global), como um Sérgio Moro; e muito menos para os genocidas da consciência popular, como os Marinho.

Mas esperemos que o reconhecimento de uma efetiva epidemia – até aqui dissimulada nos telejornais da Rede Globo – já seja um primeiro passo para a cura de nossa assustadora esquizofrenia social. Antes que a devastação nacional também nos arraste à loucura individual. Por inércia.

 


 

ANTERIOR: 29 – SOB OS PONTOS DE VISTA DE “UNS” E OUTROS

PRÓXIMO: 31 – SOB O PONTO DE VISTA DO MINISTÉRIO GOLPISTA

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair /  Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair /  Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair /  Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair /  Alterar )

w

Conectando a %s