27 – SOB O PONTO DE VISTA CINEMATOGRÁFICO

Por Wilson Solon.  

O GOLPEExplico por que, no último depoimento, a componente estritamente política dos monopólios foi retratada com brevidade – tanto para o catolicismo de Roma, quanto para o capitalismo dos EUA. A rigor, já o tinha feito quando afirmei que a política não existe por si mesma, senão como o efeito visível de outras forças sociais – militares, econômicas, religiosas (ou ideológicas) – ora mais ora menos poderosas, no tempo e no espaço.

Acrescento agora outras relativizações, aplicáveis aos dois casos específicos: sabemos que a Igreja Católica era “apenas” a mais influente, no âmbito do cristianismo planetário; assim como os Estados Unidos são “somente” a nação mais poderosa entre as potências capitalistas. Mas ambos foram capazes de exercer, respectiva e sucessivamente, a liderança do mundo de seu tempo.

Com efeito, nenhum chefe de qualquer outra igreja cristã, mais ou menos poderosa em sua altura, sequer se aproximaria em poder e força (nem desafiaria a autoridade) do pontífice romano. O mesmo é válido para as modernas potências capitalistas, em relação ao presidente americano.

Na História

Em suma, nenhum outro personagem histórico (ainda que bem mais grandioso ou respeitável) jamais poderia presumir-se um líder universal, senão nessas duas funções políticas (e ainda que seus ocupantes fossem fracos como um Temer, ou desprezíveis como um Trump), precisamente pela universalidade intrínseca à condição de monopólio – conferida, respectivamente, pelo cristianismo e pelo capitalismo. E sublinho: sucessivamente, ou não trataríamos de monopólios, mas apenas de superpoderes políticos.

De volta ao caminho que percorríamos, faço agora a correspondência das duas outras componentes – a político-militar e a econômica – com o “poder imagético”. Assim explico a razão para incluir as religiões (ou as ideologias, em geral) neste mesmo conceito; e para considerá-lo a terceira pré-condição para a existência de um monopólio: obviamente, porque todas as instâncias sociais – institucionais, administrativas, culturais, morais – ora manipulam, ora se submetem ao poder das imagens.

Para não estender o que já parece evidente, limito-me aos exemplos históricos concretos. E começo pelos primeiros colonos de origem anglo-saxônica (ingleses, escoceses, irlandeses e galeses) que cruzaram o Atlântico Norte com suas mulheres pobres; via de regra, vendidas como esposas oficiais (assim como muitos deles foram condenados oficialmente) pela própria Coroa Britânica, para “estimular” o êxodo da escória insular.

Mas insisto que todos, bandidos os não, foram expelidos pela miséria e, sintomaticamente, movidos pelo traço psicológico que consolidou a “civilização” norte-americana: a violência, em suas diversas manifestações – da mera ambição desvairada à sanha assassina dos inimigos (reais ou “imaginários”).

Além disso, os colonizadores anglo-saxônicos (neste caso, diferentemente dos católicos ibéricos) sentiam-se tão “livres” que não tardariam a romper com a própria Monarquia Inglesa. A seguir, com o apoio decisivo (e interessado) dos reinos da Espanha e da França – arquiinimigos da Inglaterra – os novos super-heróis americanos fundariam a primeira república presidencialista da História.

Ironicamente, o passo seguinte desse povo “libertário e exemplar” – após ter dizimado os índios e adotado a escravidão negra – foi expulsar afinal os ex-aliados franceses e espanhóis, roubar-lhes as respectivas colônias, e consolidar o território geográfico da maior nação das Américas. Penso já estarem claras as bases políticas e econômicas (ou ideológicas, lato sensu) da primeira república democrática e capitalista do mundo.

Capitalismo e Religião

No entanto, como as aparências podem nos enganar, no cristianismo, dirijo o foco para as menos objetivas imagens religiosas. Com efeito, os norte-americanos sempre demonstraram possuir mais afinidades estéticas com os heroicos “santos guerreiros”, cultuados pelos católicos mais fanáticos, do que com as “ideologias protestantes” dos ingleses. Não obstante, a religião foi um dos poucos aspectos culturais (além da língua, é claro) que os rebeldes acharam conveniente conservar da matriz anglo-saxônica.

Sob o nosso ponto de vista, a explicação mais óbvia seria a própria origem genética do ‘capitalismo protestante’ – o novo candidato a monopólio – que, por definição (embora também por reação subconsciente), não se submeteria passivamente às diretrizes políticas e religiosas da Igreja Católica Romana – o monopólio anterior. Mas há outras razões “visuais” ainda mais nítidas do que o protestantismo anglicano.

Com ou sem consciência, mas não por acaso, a jovem nação proto-capitalista adotaria a variante cristã que não opunha obstáculos à sua “fúria selvagem” (refiro-me à vocação nacional genérica, embora também servisse de modelo para os casos específicos de sua cinematografia, como ainda confirmaremos). Em tese, já havíamos diagnosticado a ‘hipocrisia’ como a espinha dorsal do cristianismo. Veremos agora as provas, na radiografia de seu estágio mais “evoluído”, já em continente americano.

A rigor, além de contraditório, seria desnecessário acompanhar aqui uma “evolução” do que se opõe precisamente ao ‘evolucionismo’ (inglês, de Charles Darwin): o “pensamento” hoje conhecido como ‘criacionismo’ norte-americano. Esta excrescência religiosa e anticientífica não só é ensinada nas escolas como adotada por imensas parcelas da população norte-americana que se admite cristã. E, paradoxalmente, por numerosos membros da maior comunidade científica do mundo.

Não fosse o bastante, sublinho que falo do mundo atual, por ironia, onde o próprio líder mundial dos católicos romanos – o simpático Papa Francisco – já afirmou que o ‘evolucionismo científico’ não entra em conflito com o moderno catolicismo. Por conseguinte, podemos comprovar (com algum alívio) que tampouco falamos mais de um monopólio da fé, ou da ignorância, em Roma.

Analogamente, pouco importa se os americanos creem de fato nas sandices criacionistas, ou se, enquanto neocristãos, devem apenas perpetuar as hipocrisias. Seja como for, basta salientar que os maiores detentores do capital e do poder político são os mesmos (por mera coincidência, diriam alguns) que defendem, oficialmente, o criacionismo cristão como um dos “valores culturais” mais caros a essa sociedade esquizofrênica.

Por outro lado, compreendem-se as “razões” filosóficas dos mais loucos, velozes e furiosos (falo de novo dos casos genéricos), que preferiram acreditar que o universo, a humanidade e seu próprio país são apenas criações de um “agente sobrenatural”. Com efeito,  não surpreende que um povo que renega qualquer passado racional, também justifique um futuro baseado nas mesmas paixões irracionais. Como são os inevitáveis confrontos com os “hereges”, que atravessam seus caminhos messiânicos.

A mesma “lógica” psíquica, cultural, ou “intelectual”, evidencia as posturas individuais e nacional (para muitos, já bastante evidentes) que predominam no “império americano”, enquanto árbitro e xerife do mundo. Assim como explica a gênese da violência –  igualmente inevitável – nos “outros lados”. Por exemplo, no análogo fundamentalismo criacionista islâmico.

A rigor, barbáries em escala mundial – de Nova York a Bagdá – são imagens idênticas que se refletem e incomodam mutuamente. Quando não foram diretamente financiadas pelos mesmos capitalistas fundamentalistas judaico-cristãos. Como de fato ocorreu, entre outros casos, com os mercenários da Al-Qaeda, do Talibã, ou do posteriormente autointitulado Estado Islâmico.

Finalizo, portanto, com as oportunas comparações e relativizações – entre a força bruta e o poder das imagens – sob as perspectivas material e espiritual. Digo enfim por que reduzi a componente militar dos monopólios à sua dimensão real (ainda que se trate do maior exército da Terra). E reitero que a indústria cinematográfica exerce um “papel” ainda mais importante.

Imagem e Potência

Evidentemente, pelas próprias diferenças materiais entre as duas atividades, não faríamos comparações esdrúxulas entre os respectivos investimentos, em termos absolutos, no orçamento global dos Estados Unidos. Contudo, em termos relativos, não podemos deixar de fazê-las: entre o que investem as outras nações, em seus audiovisuais, e os americanos, no mais poderoso (e não por acaso, o mais antigo) monopólio do “entretenimento” da história moderna, como eles o chamam.

Com efeito, nos grandes impérios, sempre foi conveniente manter o povo entretido com amenidades irreais, para que não provoque – ou não veja – outras barbaridades reais. Entretanto, para que tampouco sejamos distraídos por imagens tendenciosas deste cineasta (como o somos todos pela Globo), voltemos nossas câmeras para a entidade política que deteve um poder semelhante; o primeiro de seu tempo e o segundo em toda a história ocidental – o Império Romano.

Explicitemos as semelhanças, desde os respectivos embriões nacionais. Poucos séculos depois, embora ambos os poderes – o romano e o norte-americano – já estivessem consolidados, ainda perseguiam os dois maiores desafios nem sempre alcançados pelos inúmeros impérios da História: o primeiro, tornar-se hegemônico; o segundo, conservar essa hegemonia.

Analogamente, Roma e Estados Unidos já possuíam suas religiões oficiais. E pouco importa que fossem, respectivamente, o paganismo e o pentecostalismo (ou quaisquer outras), mas sim que ambas as crenças asseguravam a unidade dos súditos de simples impérios. Porém, logo se revelariam insuficientes (tal como as telenovelas do nosso império midiático) para desempenhar o mesmo papel no enredo mais ambicioso de um imperialismo global.

Em outras palavras, uma vez superados os análogos desafios interiores e exteriores às próprias fronteiras (romanas ou estadunidenses), as duas entidades nacionais já haviam consolidado suas respectivas ‘forças’ – armadas, políticas e econômicas. Ainda assim, para se converterem em império hegemônico, precisaram, literalmente, “apelar para imagens mais fortes”.

Roma adotou então, tardiamente, a poderosa imagem helênico-judaica do “cristo”, com todos os seus penduricalhos estéticos e ideológicos (já usurpados das demais religiões). E aos quais continuaria a agregar novos dogmas, cada vez mais apelativos, para as mentes e retinas mais vulneráveis.

Não por mera coincidência, décadas depois de inventado o Cinema, eram a Itália e a França que possuíam as indústrias cinematográficas mais poderosas e populares do mundo. Até que fossem arrasadas, na Primeira Guerra Mundial. Infortúnio de uns, fortuna de outros. Tardiamente, como os romanos, os Estados Unidos haviam percebido com os martírios alheios, in loco, a oportunidade e os benefícios de investir pesados recursos na criação, na produção e na divulgação das imagens.

Não se questiona que os impérios Romano e Americano jamais hesitaram em utilizar seu poderio bélico para assegurar os respectivos interesses econômicos. Por outro lado, ninguém ignora os imensos custos financeiros do uso da força: os diretos e materiais, da indústria de guerra em si; e os indiretos (ou espirituais) decorrentes dessa arrogância, para administrar os subjugados e pacificar os indignados do resto do mundo. E também no interior de suas fronteiras.

O poder da imagem

Nesse círculo vicioso de difícil solução, não por acaso, a “indústria do entretenimento” resultou ser a mais eficiente das “máquinas de guerra” dos norte-americanos. E não apenas pelos bombardeios que se podem “ver”, em sentido literal, nos cinemas e televisões; mas pelos incalculáveis serviços, visíveis e invisíveis, prestados ao capitalismo. Tal como os romanos, que se serviram das imagens cristãs e foram “divinamente” recompensados pelos próceres do cristianismo – e vice-versa.

Nas mãos dos americanos, o cinema reproduziu, através de imagens adaptadas a cada fim (econômico ou político), os mesmos efeitos desejados: ora suprir as necessidades, ora evitar outros ônus desnecessários, para o capital; e, sobretudo, neutralizar a impopularidade das ações militares e “diplomáticas” (e de espionagem, nos dois casos).

Na mesma medida em que as imagens anulam ou reduzem as resistências inconscientes, “vê-se” aumentar as simpatias (ou invejas) “conscientes”, pela “civilização superior”. Vale dizer, é ganhar ou ganhar: ao divulgar seus “valores culturais” – heroísmo, justiça, altruísmo, beleza – e seus produtos comerciais, evidentemente, a América não só incrementa os lucros visíveis, como minimiza os prejuízos invisíveis.

Em imagens ainda mais gráficas: onde quer que existam recursos materiais cobiçados pelos imperialistas, caso os recursos visuais subliminares já não sejam suficientes, e só neste caso – como último recurso de “persuasão” – entrarão em cena seus dispendiosos exércitos, contra os recalcitrantes.

Compreensivelmente, a eficiente combinação – de consumismo e sedução – antes transformou a própria indústria cinematográfica americana numa máquina econômica à parte; não por acaso, proporcional ao empobrecimento cultural e econômico dos adversários e vítimas do capitalismo internacional (os quais, por norma, ou algum novo dogma econômico, são “virtualmente” retirados do campo visual dos capitalistas).

No Brasil, entretanto, temos um caso atípico que vale a pena ser destacado: a Rede Globo de Televisão. E não apenas porque seu monopólio confirma – com as próprias imagens – cada um dos paradoxos visuais e emocionais já mencionados, senão porque também contraria todas as regras cinematográficas vigentes nos demais países desenvolvidos.

A começar pelo nosso constrangimento cívico de ver que o maior monopólio de comunicação – do planeta – foi criado e continuaria a “trabalhar”, explicitamente, pelos interesses econômicos e políticos dos Estados Unidos da América. Para resumir, até que consagrasse afinal um caipira americanófilo e psicopata como o Moro, e condenasse um ícone nacional como Lula – não por acaso, o único brasileiro de dimensão planetária.

Nem sequer na América do Norte vemos semelhantes aberrações patrocinadas pelo capital. Nem mesmo um paralelo individual – empresarial, judicial ou midiático – como no Sul do continente. Onde os três setores formaram uma “associação”, quando não criminosa, tão escandalosa que merece um registro exclusivo.

A rigor, pela própria excepcionalidade (ou anormalidade) de nossa tragédia nacional, bastará uma síntese  – sob a perspectiva de um monopólio global – do que de fato se reduz a um estreito território mental, neo-medieval, cujos seletos habitantes ainda se supõem agentes messiânicos do destino da Pátria.

Pobres cristãos capitalistas brasileiros!

 


 

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