23 – SOB O PONTO DE VISTA CRISTÃO

Por Wilson Solon.  

O GOLPE

Nesses tempos ridículos, em que juízes e procuradores fanáticos jejuam, e líderes “religiosos” pregam o fascismo, convém investigar a gênese histórica do estranho fenômeno psíquico (e “visionário”) da salvação humana. A rigor, os próximos depoimentos serão a síntese imagética dos pontos de vista já analisados. Ou do que não só permitiu como determinou que os poderes dominantes se “convertessem”, religiosa e literalmente, em ‘imagens’ universais.

Embora as “ciências” humanas sempre temessem encarar as múltiplas faces do “império das imagens”, ao longo do processo civilizatório, a recusa sistemática em “vê-lo” revela também o ridículo ‘paradoxo visual’  do mundo moderno. Onde “visões” religiosas se tornaram inspiração para o ódio, ou vice-versa: cenas de violência – física e econômica –  banalizaram-se a ponto de construírem sua própria doutrina política. Particularmente no Brasil, como em nenhuma outra sociedade, sob a demoníaca atuação da Rede Globo de Televisão.

Os três C’s

Contudo, ainda falo genericamente, sobre os mais eficazes mecanismos de massa da História, para a manipulação, opressão e dominação das consciências individuais: o Cristianismo, o Capitalismo e a Cinematografia. E não deixarei de explicitar as obscuridades dos “3 C’s”, como conceitos aparentemente desvinculados, mas cujas relações promíscuas, repito, apenas não costumam ser denunciadas pela inteligência humana.

Precisamente porque seus intercâmbios mútuos, apesar de óbvios para alguns, tornam-se incompreensíveis para os adeptos mais fanáticos das três “doutrinas” – ora pelo potencial contaminador de cada uma, ora pelas patogênicas combinações com as outras duas.

Tanto pela exiguidade deste espaço quanto pela obviedade das contradições, não perderemos tempo em relativizar os respectivos aspectos “positivos” – as “virtudes” cristãs, a “eficiência” capitalista ou a “magia” do cinema – mas somente nos ocuparemos do que é capaz de anulá-los, para a imensa maioria, em proveito da minoria menos sensível, ou mais egoísta, da nossa espécie.

Tampouco seria necessário promover uma análise exaustiva das admiráveis propostas filosóficas do personagem histórico e humano de Jesus. Nem do cristianismo em si, senão do que o converteu na mais duradoura epidemia psíquica da história humana. Podemos resumir esta premissa a partir do que se convencionou chamar de ‘dogmas’ (também a base dos demais paradoxos conhecidos como “religiões institucionalizadas”).

Os dogmas cristãos

Por definição, dogmas são “verdades indiscutíveis que devem, portanto, ser aceitas sem contestação”. Em outras palavras, podem ser todas as ideias e doutrinas que têm origem (ou são enfiadas) nas cabeças ocas, em nome da fé-cega, ainda que contrariem a razão, o bom senso e as ciências. Em suma, os dogmas correspondem ora aos produtores, ora aos produtos da ignorância (como as modernas “pós-verdades” laicas).

Na impossibilidade de esgotarmos os malefícios psicológicos contidos nos absurdos dogmas cristãos, será suficiente exemplificá-los através das duas mais engenhosas fraudes atribuídas à “biografia” de um “deus-homem”. Não por acaso, cito já o primeiro e o último dos dogmas (por emblemáticos de todos os “milagres” intermediários): a “concepção virginal” e a morte seguida da “ressurreição” de Jesus.

Começo pelo fim, ou pelo espetáculo (protomidiático) da elevação de um cadáver estropiado “aos céus”; onde seu corpo físico seria restaurado pela “divindade” – dele próprio?! – ou talvez não, já que ele mesmo a negara: “Senhor, por que me abandonaste?” (uma das poucas informações credíveis nessa história, pela própria indicação de sua humanidade).

Mas afinal, Jesus seria ou não Deus? A questão nunca ficou clara. E o objetivo de fato nunca foi esclarecer os estultos, mas confundir todos os seres humanos, para dominá-los.

O primeiro dogma, analogamente, legitimou o rebaixamento da mulher nas sociedades cristãs. A partir da associação (compulsória, ainda que subconsciente) do ideal de “pureza” à virgindade, torna-se explícita a desqualificação moral da sexualidade feminina – inclusive reprodutiva – como uma prática reprovável e “impura”. Ou virtualmente indistinta do que se conhece como a mais velha profissão do mundo.

Portanto, quanto mais “autêntica” for a nossa fé cristã, mais implícita se torna, para mulheres e homens, cristãos ou não, a seguinte conclusão: uma vez nascidos de uma “não virgem”, somos todos, sem exceção, autênticos filhos da puta. Assim, nem sequer em tese queremos pensar sobre o assunto. E, na prática, tampouco podemos evitar os efeitos colaterais, para ambos os gêneros.

Mas sobretudo para a metade da espécie que passou a ser vista – ou se aceita – como moralmente inferior. Já fisicamente mais fraca, por conseguinte, a mulher torna-se uma vítima em potencial das opressões e humilhações, que de fato são bastante utilizadas pela metade masculina; e cujos efeitos são conhecidos de todos, embora combatidos por poucos. Já que ninguém se atreve a denunciar suas verdadeiras causas.

Fé e imagem

Em nome de um duvidoso respeito às crenças alheias, ou às próprias, subestima-se os desrespeitosos atentados “teológico-cristãos” à dignidade humana. A rigor, pela mesma “lógica” dogmática, nenhuma religião institucionalizada admite que seu poder se sustenta muito menos nas “virtudes morais” do que nas práticas de submissão, de intimidação, ou de efetiva extorsão (de dízimos, por exemplo) de suas presas. E tanto mais quanto elas já se encontrem debilitadas pelas carências materiais. Ou intelectuais.

Não tratamos, evidentemente, dos princípios universais – morais, éticos e humanísticos – que não são exclusividade de seitas religiosas, mas devem nortear a convivência em todas as sociedades humanas. Em nenhuma delas, porém, jamais existiu outro credo que se especializasse na exploração da boa-fé melhor do que o “genérico” cristianismo (em suas diversas modalidades).

Isto posto, tratemos do tema central de nossas análises, ou do instrumento mais eficaz nos processos de alienação das mentes: a manipulação das ‘imagens’, em suas inúmeras formas (ancestrais ou modernas; materiais ou teológicas; edificantes ou deprimentes), mas sempre destinadas a cumprir algum papel específico.

A exemplo do maior dos paradoxos cristãos, cujas intenções são óbvias: o dogma da ressurreição representa a última referência biográfica ao chamado “cristo” (literalmente ungido com o dom de ascender ao “paraíso celestial”) embora, ao mesmo tempo, conviesse às Igrejas conservar e cultuar seu cadáver seminu e torturado, como o símbolo (espiritual!) supremo e a ‘imagem’ literal do cristianismo.

Não entraremos no controvertido conteúdo erótico do símbolo (como apelo adicional aos sentidos), nem nas semiologias em si e nem nos critérios subjetivos e alteráveis do bom gosto, ao longo dos tempos. Mas ninguém ignora que o grotesco, o patético e o macabro sempre exerceram um poder efetivo sobre a superficialidade das retinas, ou de algumas mentes. E somente os sofistas (ou os cristãos), de todos os tempos, argumentam que a exposição do horror teria algum efeito “pedagógico” em favor do sublime.

Os mais ingênuos acrescentariam, de “boa fé”, que certas imagens (dogmáticas ou artísticas) também podem contribuir para a elevação dos espíritos. Talvez, para os que já tenham essa vocação. Mas nenhuma pedagogia eficaz pode prescindir do interesse nem do consentimento – espontâneos – do educando.

Do contrário, o que vemos são as ditaduras mentais, com suas respectivas imagens (e fake news) que de fato se multiplicam tanto quanto os atuais “messias” políticos (entre os neoliberais), ou os “pastores de almas” (entre os neopentecostais), ou as “escolas sem partido”, entre outras propostas vazias de conteúdo mas repletas de dogmas insanos.

Não obstante, malfeitores e opressores, ainda que tragam crucifixos ao pescoço, jamais se sensibilizaram realmente com as predicações religiosas. E muito menos com as livres manifestações artísticas que as retratam (o insano e contraditório Movimento Brasil “Livre” comprovou esta tese).

Entretanto, no âmbito estritamente religioso, a exibição ostensiva de imagens dos horrores humanos, para além da cegueira da fé, nunca foi capaz de produzir qualquer outro benefício visível. Exceto, obviamente, o duvidoso mérito de servir aos totalitarismos e fascismos, anulando todas as reações materiais e mentais.

Seja pelo convite à passividade dos “bons”, pela perplexidade dos seres normais, ou pela banalização do mal em si, ninguém negaria os efeitos da imagem “pacificadora” (ou, se permitem o neologismo, “passivizadora”) de um cadáver torturado por todos os seus juízes – religiosos, políticos e populares. Exibi-lo, reitero, resultaria inevitavelmente na indiferença de muitos ou na legitimação dos ódios e desmandos de uns poucos. Todos, porém, em nome do mesmo Cristo.

Imagens históricas

A própria adoção do cristianismo pelo Império Romano, no 4º século, já se encarregou de demonstrar os (des)serviços prestados aos detentores do poder. Por ironia, a seita até então perseguida pelo paganismo, durante três séculos, inauguraria e protagonizaria o período milenar – e o mais longo da história humana – de intolerâncias e perseguições às demais crenças.

Assim, o cristianismo, ora apenas assegurava seu monopólio (“global”) das “verdades divinas”, ora promovia efetivos massacres – militares ou inquisitoriais – contra os hereges individuais ou os povos que não se submetessem aos dogmas e ao deus cristãos.

Mas o que nos interessa aqui não são os aspectos históricos conhecidos das manipulações mentais, e sim os técnicos: a gênese e a mecânica de expansão da referida epidemia, tão logo ficou evidente a extraordinária flexibilidade do fanatismo cristão, aos olhos atentos do não menos esquizofrênico imperador Constantino I, o Grande.

Sintomaticamente, nunca houve consenso, entre os historiadores, quanto à sinceridade das emoções nem às verdadeiras razões deste gênio político – tão singular quanto multifacetado – para a sua inusitada conversão ao cristianismo. Precisamente porque Constantino era um híbrido: um fanático sincero (como alguns congressistas ‘da Bíblia’), movido pelo autoritarismo e pela truculência (de um Bolsonaro), porém dotado de uma elegância culta e bem educada (como os próceres do PSDB, ou os togados tupiniquins).

Em última análise, uma personalidade nada incompatível com o cristianismo, em sua “tosca sofisticação”, que não o impediria de ser o mais eficiente manipulador das emoções e da razão alguma vez criado por seres humanos (até a sistematização do capitalismo). Mas sublinho: sobretudo os do sexo masculino. Ainda que (ou exatamente porque) os varões aprenderam a subjugar ‘em nome de Deus’ – por sua parte, também “recriado” sob a forma humana e masculina.

Razões e emoções cristãs

Nas novas ‘imagens’ e ‘visões’ místicas da Idade Média, nada era só “o que se via” e tudo sempre poderia ser o que se quisesse. Pela via “racional” (se cabe), longos e enfadonhos compêndios buscavam explicar as teologias, cuja deliberada complexidade visava, por outro lado, torná-las ininteligíveis à razão! Com efeito, nenhum outro produto confuso da mente humana seria comparável ao caos teológico cristão (exceto, insisto, as teorias capitalistas).

Pela via emocional, os dogmas se encarregavam do resto: simplificar o que fosse demasiado complexo; ocupar o melancólico vazio de ideias alternativas; e ora apelar aos instintos mais primitivos da natureza humana, ora reprimi-los, segundo os interesses políticos e eclesiásticos (a rigor, indissociáveis). Assim, imensas populações eram mantidas na ignorância e, como prévia condição, em perpétua miséria.

No Brasil, dogmas e teologias assemelham-se a certos decretos do Executivo, iniciativas do Legislativo, ou sentenças do Judiciário. Assim como nossa democracia neo-medieval cede cada vez mais espaço aos consórcios político-econômicos, em detrimento dos direitos da maioria do povo. De fato, nada muito diferente da ‘Idade das Trevas’, como o medievo foi denominado, a despeito das contestações (dos imbecis, em geral, ou dos historiadores cristãos, em particular).

Não fosse o bastante, tudo o que hoje se crê “original”, no cristianismo, na verdade fora inspirado, adaptado, ou simplesmente roubado de outras religiões. A começar pelo contrassenso de uma crença que se diz “monoteísta”, mas cultua uma infinidade de “santos”, além de atribuir três “pessoas” ao seu “deus único” – o Pai, o Filho, e um Espírito Santo (que nenhum cristão saberia explicar de quem se trata).

Por outro lado, em benefício do foco sobre imagens turvas, convém salientar que o cristianismo trouxe de fato movimento ao que era estático; cor, ao que era cinzento; heróis, mitos e santos populares, aos velhos templos de deuses gregos jubilados. Além de espantosos efeitos especiais – imagéticos e sonoros – aos enfadonhos rituais do passado, herdados da Grécia.

Por ser inegavelmente sedutora, a esquizofrenia cristã logrou perpetuar-se no tempo, quer em cada nova mitificação do que ainda não se compreendia, quer nas perseguições aos que tentavam explicá-lo de outra maneira. Mas a partir dessas “fraudes originais”, também chegamos a compreender melhor suas versões modernas: ora nos autênticos representantes do ‘amor divino’ na Terra, ora nos loucos que os perseguem, com seu ódio e desprezo extremos (como Jesus também foi perseguido).

Talvez seja redundante personificar os primeiros, por exemplo, no amor do Lula por seus semelhantes (e vice-versa); mas será pedagógico identificar os últimos na curiosa coincidência entre os métodos hoje adotados pela Rede Globo e os dogmas cristãos – outrora promovidos pelo Império Romano.

Em ambos os contextos imperiais, a subjugação das mentes e o controle das emoções implicam em restrições não só à pluralidade – religiosa, política, ideológica, cultural – mas à divulgação de valores alternativos aos já estabelecidos – no nosso caso, pelo “império americano”. Obviamente, através da “alienação visual”, em diversos sentidos. Mas também no literal, se for necessário intimidar o espectador, através das cenas de horror e medo em estado bruto.

Até que tudo venha a ser consumido pela internet, ou antes, devorado pelo vírus do ódio cultivado nos laboratórios de imagens globalizantes. Mas como já analisamos o esgotamento inevitável dos ardis ficcionais da própria Globo (nos vários níveis da “realidade televisiva”), cabe investigar igualmente a exaustão da hegemonia cristã (embora não do ‘amor’ sugerido por Jesus).

Com mais propriedade, “veremos” o aspecto que muitos ignoram (ou preferem que permaneça invisível), ainda que intrínseco ao cristianismo: uma transferência efetiva, e não apenas metafórica, de poderes materiais e espirituais para a nova “religião hegemônica” – o capitalismo.

 


 

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