22 – SOB O PONTO DE VISTA DE UM ATOR GLOBAL

Por Wilson Solon.  

O GOLPE

Caídas as máscaras dos altos togados, volto ao personagem mais emblemático de todos eles. E sublinho: sempre sob a perspectiva de um diretor de atores, como me cabe. Pois tanto para alguns admiradores quanto para os críticos do ‘Agente Moro’, talvez ainda não tenha ficado clara a sua duplicidade de personagens: o tosco juiz Sergio Fernando, alimentado desde a infância pelo ódio à esquerda, e o intrépido justiceiro Super Moro Brás (já definido como um velho herói de “mãos limpas”, à italiana, agora repaginado para eliminar os corruptos brasileiros).

Ambos, porém, no corpo de um mesmo intérprete; por sua vez, associado à poderosa Rede Globo de Televisão. Façamos, portanto, uma analogia elementar com os recorrentes “gêmeos de novela”, encarnados por um único ator. Via de regra, cada gêmeo deve ter características opostas, ainda que dificilmente vejamos antíteses tão improváveis na vida real. Mas afinal falávamos precisamente da adulteração da realidade, onde qualquer sutileza deve ceder espaço às manipulações absolutas, para o “bem” ou para o “mal”, em benefício da dinâmica dramatúrgica.

Eis a chave do enigma aparente, na dupla missão do mais notório agente ianque em solo brasileiro. Mas antes convém recordar as distinções já evidentes entre os vários níveis da realidade midiática: na pura ficção, vemos somente atores (ou artistas, em geral); nos reality shows, de simples desocupados a representantes dos mais diversos ofícios (embora nos custe acreditar que a maioria tenha qualquer formação profissional).

Na nova “novela da vida real”, a novidade (as redundâncias são intencionais) consiste nas exibições dos “advogados” – delegados, procuradores e magistrados. Entre eles, o protagonista escalado (seria impróprio dizer contratado, pelas razões já aludidas) deveria possuir atributos que, no caso dos atores, se resumem a um talento versátil o bastante para representar dois caracteres tão distintos. No caso de um juiz (ou de algum procurador) que, ademais, atua entre paradigmas reais e fictícios, essa versatilidade pode ser traduzida por um caráter absolutamente moldável às circunstâncias.

No tocante às suas ambiguidades, com efeito, Sérgio Moro não decepcionou. Exceto pelo fato de que os aspectos mais admiráveis, num ator, resultaram lamentáveis e irresponsáveis no desempenho de um juiz. Vale a pena, portanto, aproximar o foco dessas ambíguas manifestações da “eficiência” e da “fama” (sempre em função dos duplos critérios aos quais estamos confinados, entre a ficção e a realidade).

Assim como nas telenovelas, o inepto “advogado” (que nem sequer fora aprovado no exame da OAB) acabou por se converter no juiz provinciano que, ainda desconhecido do grande público, já se fizera conhecido em seu próprio meio. Embora mais pelos sucessivos tropeços do que por algum mérito de seu currículo (cujo ápice, até então, fora o escandaloso caso Banestado).

Ainda assim (ou precisamente por isso), a imponderável coligação entre o destino e as ambições pessoais já parecia apontar, precocemente, o caminho para o seu “ingresso” na Globo. Em tese, as duas faces de Moro tinham a medida exata dos dois gêmeos “globais”: o “imparcial” juiz caipira e o desvairado justiceiro fora da lei.

Sobretudo neste segundo papel, o herói ainda poderia travestir-se com o figurino mais adequado aos seus interesses conjunturais – de um investigador de polícia a um acusador do ministério público – graças a uma anomalia (para as nações civilizadas) apenas existente no permissivo sistema judiciário brasileiro.

Na prática, portanto, tudo já “conspirava” a favor de um projeto comum com a Rede Globo. Pois tanto a eficiência quanto a fama referidas há pouco, de ambos os lados, expõem análogas anomalias autoritárias, desde que Moro se lava a jato nas telas da emissora. E assim passa a ser aplaudido com entusiasmo teatral (ou televisivo), sob a máscara da moralidade e da imparcialidade.

Contudo, para um diretor de atores, ou qualquer outro observador atento, os primeiros falsetes de sua voz hesitante (talvez o único imprevisto no physique du rôle do ator escolhido) já denunciavam a falsidade dos predicados aparentes. E a imaturidade psíquica de um herói que se cala, sobre suas sucessivas arbitrariedades, na mesma medida em que fala. Excessivamente.

E não só nos autos do processo, através de suas autojustificativas (injustificáveis) mas, sobretudo, nas exibições mundanas do juiz; nos sorrisos despregados, segundo suas óbvias afinidades pessoais e políticas; nas entrevistas e palestras (remuneradas) sobre casos ainda em andamento; nas premiações e homenagens públicas, sob os holofotes e câmeras de TV (e o beneplácito dos não menos toscos irmãos Marinho).

Não obstante nada parecer obstar essa ambígua fama, o Brasil ainda não tem uma noção precisa da dimensão do agente Moro. Seria ele de fato o protagonista que aparenta ser, ou um mero coadjuvante, ainda que indispensável na trama global? Já o veremos, após observar as contingências da dramaturgia e das audiências; que, a cada capítulo, determinam as respectivas entradas e saídas de cena. No seu caso, ora de um dos gêmeos, o moralista de província, ora do outro, o justiceiro da nação.

O universo do Ator

Assim voltamos, inevitavelmente, ao objeto central de nossas análises: os mecanismos “reguladores” da percepção popular da realidade; seja um gigantesco monopólio, seja uma fábrica mais modesta de imagens (como as tantas onde já exerci o mesmo ofício). Refiro-me à gênese de todas as ambiguidades posteriores, ou à atividade teledramatúrgica em si – que defino como “esquizofrênica”.

Na produção de novelas, os dois níveis específicos – o narrativo e o operacional – embora independentes entre si, obedecem à mesma dinâmica universal (aqui evito dizer “global”). Em outras palavras, por mais caótica e absurda que seja (ou não) uma narrativa, ainda assim, a criação, a produção e a emissão de imagens obedecem a regras bastante claras e rígidas (por exemplo, como deveriam ser as leis, na emissão das sentenças judiciais).

A ininterrupta fabricação de “emoções visuais” impõe uma pressão temporal aos “operários da imagem” (o que os artistas e técnicos realmente somos) jamais conhecida pela confortável “morosidade” dos ilustres magistrados. Por limitações óbvias, aqui passaremos (como passam os telespectadores) quase ao largo das inúmeras instâncias invisíveis, mas imprescindíveis, na ficção televisiva.

E destaco somente o elenco, porque visível para todos. Ou por ser talvez o grupo mais emblemático dessa fusão paradoxal – entre a “liberdade” narrativa e a urgência opressiva – da realização de telenovelas. E porque através de suas premissas laborais e autorais, desvendaremos igualmente uma grande parte dos “mistérios de Moro”, no exercício de suas atípicas funções midiáticas.

No âmbito laboral, nenhuma produtora de programas em série pode prescindir de um bom elenco. Como já vimos, esta premissa – no resto do mundo e em condições normais – não só possibilita uma alta rotatividade dos atores (entre as televisões, as produtoras independentes, o teatro e o cinema) como contribui para o aquecimento dos salários e do mercado em si, para todos os trabalhadores audiovisuais.

Na dramaturgia brasileira, ao contrário, um sedutor monopólio – da criação, da realização e da exibição – provocou sinistras ilusões de ótica não apenas em seus teleadmiradores, mas também nos membros mais vaidosos da própria casta de “artistas globais”. A começar pela ilusão mais evidente: o “bom ator” é o que conquista a fama e um contrato – duradouros – validados quase que exclusivamente pelo ‘padrão Globo de qualidade’.

Não por acaso, esta matriz de ideias fixas possui também o seu “elenco fixo”. Mas ainda que falemos de uma empregadora gigantesca (em termos relativos), para os melhores profissionais do mercado, ela jamais seria capaz de suprir uma ínfima parte da oferta de talentos (em termos absolutos). Nem da demanda cultural de uma sociedade civilizada.

No Brasil, portanto, o que se vê são as respectivas alucinações dos dois grupos de atores: de um lado, dezenas (ou centenas) de “eleitos”, cuja exposição e mitificação os fazem sentir superiores ao próprio talento (e, comprovadamente, à sua consciência política); do lado de fora da Globo, estão os outros milhares, cuja autoestima (não raro já deformada pela emissora) pode chegar a fulminar um talento real. Sobretudo se o ator ou atriz não se enquadrar nos padrões irreais que “você só vê na tela da Globo” (e de fato em nenhum outro lugar do mundo).

Assim, na chamada produção cultural brasileira, dentro ou fora da TV, acaba por restar pouco, ou “virtualmente” nada, que não nos chegue aos olhos e ouvidos sob a chancela, a contaminação, ou o patrocínio declarado da Globo (e sublinho que não estamos falando sequer de notícias).

Já não deveria causar surpresa, embora nos cause perplexidade e repulsa, que as diretrizes – ora estéticas, ora “éticas” – desse império de comunicações afinal submetessem o próprio Judiciário. Portanto, é através de sua “celebridade” maior no Brasil (a Carminha & seus Supremos hão de conter a inveja) que compreendemos melhor o comportamento individual e corporativo da casta judiciária (exceções à parte).

Na direção inversa, alguns mistérios jurídicos também se desvendam através das premissas laborais e autorais de um elenco de novela. Em suma, o que o agente Moro não explica, o justiceiro deixa explícito. Em qualquer caso, o “ator” exibe, textualmente.

Entretanto, sabemos que os atores não detêm direitos autorais, apenas de imagem. Obviamente, tampouco podem ser responsabilizados pelos textos que declamam (sorte a deles!), ainda que consigam imprimir, em cada imagem, o conteúdo de mil palavras; ou possam contribuir – ainda mais do que os autores e diretores – para o sucesso definitivo de um personagem.

Ou também para o completo desastre na credibilidade de todos os envolvidos no processo criativo.

O submundo da esquizofrenia

Assim se resumem os “mistérios” de Moro, capazes de iludir e confundir os incautos que esperavam coerência e linearidade onde só havia as conveniências de um agente duplo do capital internacional. A rigor, um censor “moral” com dupla personalidade; cujos saltos sobre as leis, vertiginosos ou aparentemente aleatórios, em última análise, sempre obedecerão aos interesses dos verdadeiros detentores dos direitos autorais: os neo-roteiristas da vida real.

Portanto, no Teledrama Nacional da Globo, já se percebe que Moro não passa de mais um coadjuvante, embora disponível para ser alçado ao protagonismo eventual, nas chamadas “barrigas” da novela. Analogamente, na prática política, cada vez que algum subprotagonista do Golpe se revela incapaz de segurar as audiências – e é desmascarado pela própria canastrice moral – as câmeras se voltam de novo para as performances heroicas do Super Moro Brás – contra o Lula. Este sim, o único vilão global absoluto (desde o Brizola).

Por outro lado, até um conhecedor dos bastidores artísticos (como este que vos escreve) se estarreceria com a sintonia – dramatúrgica e cronológica – do ator com a produtora de imagens fake. Como afirmar então que Moro não seja um protagonista autêntico? Eis o nosso paradoxo aparente.

Nunca neguei seus ambíguos atrativos: a vaidade e a ambição desmedidas do juiz (ainda que se mostre “discreto”) conjugadas à absoluta subserviência do ator (embora um despudorado exibicionista), sob o conhecido ‘padrão global’. Contrastes primários mas eficientes, para arrebatar as audiências já cativas dos bizarros “julgamentos de novela”.

Neste contexto ficcional, já diagnostiquei (como esquizofrênicos) os duplos pesos e medidas adotados. E agora também visíveis em cada ato “jurídico-teatral” – ora apenas do canastrão global, incapaz de convencer os espíritos mais lúcidos (e nem sequer uma grande parcela do seu próprio público, à direita); ora também do justiceiro (do novo DOI-CODI de Curitiba), orgulhoso de seu combate não só à corrupção, mas aos próprios prisioneiros, com coações e torturas psíquicas sem precedentes no mundo democrático.

Não por acaso, Moro converteu-se na personificação da missão que a própria Globo se atribui, como gestora “cultural” da sociedade e “educadora” de meia-dúzia de crianças sem esperanças (entre os milhões que só passaram a tê-las, de fato, nos governos do PT). Contudo, marketing canhestro e atores canastras dispensam os especialistas nos riscos de um desastre iminente.

Voltaremos a esse exercício “profético”, embora já possamos dispensar também as lições “pedagógicas” de um juiz fascistoide cujo destino se tornou previsível. Apenas reitero que nem Moro nem outro galã nos mesmos moldes consegue manter-se no estrelato (como a vaidade os convence) quando mudam, inesperadamente, os ventos que sopram dos subterrâneos das “Organizações” Globo.

Para os mais céticos, por ironia, bastaria recordar o caso do amigo e correligionário (do PSDB), o confiante Aécio Neves, que ocupara a mesma posição “inabalável”, até o passado recente, de primeiro suplente da moralidade e da modernidade globais (tal como o “collorido” ator do passado mais remoto), abaixo apenas dos próprios Marinho! Até que se precipitassem todos no vazio, aos primeiros abalos de sua própria ponte, “para o futuro”…

 


 

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