18 – SOB O PONTO DE VISTA DE UMA SOCIEDADE PERPLEXA

Por Wilson Solon.  

O GOLPENossa tragédia nacional, ainda que sob tantos pontos de vista distintos, talvez não explique a perplexidade generalizada nem os silêncios coniventes. Sobretudo porque o Brasil sempre contrariou as métricas vigentes nas demais sinfonias mundo afora. Nossos brados mais retumbantes não passam de sedutores sambas-enredo. E nossas doces melodias não se assemelhem a mantras, mas às calmarias que precedem a tempestade.

Sob o mesmo silêncio, insólito e indefinível, surgem as novas antíteses dessas antíteses: por um lado, o projeto que apostou em se perpetuar sob a cegueira do povo, mas que foi desmascarado pelos próprios idealizadores; por outro lado, o mesmo golpe revela cada vez mais os sinais da resistência popular aos corruptos golpistas. Ou a primeira explicação para as apatias visíveis: todas as mentiras trazem em si uma componente anestésica, como nos roteiros de ficção; ou enganadora, como nos mimetismos de certos animais.

Seja como for, temos a sensação de que a corrupção – tanto na prática quanto pelas “análises” midiáticas – nos submeterá para sempre a essa despudorada familiaridade dos esgotos a céu aberto, em dimensões proporcionais ao próprio País. Contudo, proponho agora o percurso inverso aos caminhos da direita golpista, a partir do fiasco prometido como um novo êxito novelístico.

Como se viu, com o desmoronamento da “ponte para o futuro”, todos os protagonistas – escalados e dirigidos pela Globo – mergulharam no pântano cenográfico preparado para engolir apenas os “antagonistas”. A prioridade nacional (não a “global”), portanto, já deixou de ser a manipulação das “honras artificiais” – ora a assepsia criada para uns (particularmente do PSDB), ora os dejetos arremessados contra outros (sobretudo do PT) – mas ainda é, aos olhos de muitos, voltar a distinguir uns e outros pelas respectivas naturezas morais.

Com o desfecho prematuro da trama, o elenco político inteiro pareceu emergir como uma única massa fétida: os que se aproveitaram do caos para elevar o próprio valor venal e os autênticos defensores da sociedade, que sempre pagaram o preço elevado – das acusações levianas – pelos odores alheios. Por outro lado, a Ética deixou de ser uma questão subjetiva e adquiriu contornos objetivos; paradoxalmente, nas próprias distorções das imagens – que também revelam os distintos graus de miopia dos espectadores.

Embora poucos compreendam os efeitos das manipulações das mentes, ficou evidente que todos os brasileiros foram afastados do seu equilíbrio psíquico natural. No entanto, pela primeira vez, em décadas, havia somente duas direções possíveis: para um lado, os cidadãos mais ou menos indignados, perturbados ou deprimidos; para o outro lado, os cínicos ou alienados – em estado “puro” – e os próprios enfermos que assaltaram o poder.

O dramático foi perceber que os últimos se tornaram os “responsáveis” pelos diagnósticos e pelo tratamento mais “adequado” aos primeiros. Em suma, os insanos são os novos diretores do hospício. Não deixa de ser compreensível, portanto, a perplexidade da plateia diante desta ficção trash de terror, nunca antes assistida em uma nação civilizada. Onde seriam esperadas reações convencionais, com maior ou menor grau de contundência.

Mas o que realmente assustou e emudeceu os brasileiros nunca seria o reconhecimento das emoções humanas, que nos igualam a todos, para o bem ou para o mal. E sim o que exige mais tempo para ser reconhecido, porque de fato não se imaginava que fôssemos tão diferentes uns dos outros: no grau de ousadia e covardia dos atentados à dignidade, à sanidade e à própria humanidade.

Porém, se não chega a ser um alento, os assaltos e o despudor dos canalhas ao menos impedem que as dissimulações se perpetuem, assim como promovem uma “seleção natural” das emoções, que acabam por contrastar as imagens opostas, em todos os níveis da sociedade: da honestidade e da solidariedade, das empatias e dos sentimentos genuínos.

Mas reitero: para o bem e para o mal. As afinidades determinam que os indivíduos se aglutinem em torno dos respectivos propósitos: de um lado, os malfeitores, para assegurar suas pilhagens e promover novos ataques, cada vez mais odiosos e mortais; do outro lado, as suas vítimas, para resistir às brutalidades e defender seus direitos adquiridos; ou a própria vida.

Entre os dois extremos, as mentes ainda confusas ou silenciosas, não obstante, também nos ajudam a entender e dimensionar o período (mais ou menos longo) necessário a cada indivíduo, para escolher entre recuperar a sanidade ou sucumbir de vez à loucura “global”. Entretanto, já não é preciso ser um cineasta nem um conhecedor da psicologia dramatúrgica para reconhecer os bons e os maus atores em cena.

Promover um anão moral ao estrelato – como fez a Globo com o Temer – já denunciava, antes de um fiasco anunciado, um atentado deliberado à democracia. Nenhum dos “ideólogos” da direita desconhecia as fichas criminais e os traços psicológicos, nem superestimava uma eventual capacidade “construtiva”, dos assaltantes. Mas antes a própria, de controlar os seus fantoches.

A rigor, ao passar-lhes às mãos suas “pautas bomba” – a explosiva combinação de ultraliberalismo econômico com ultraconservadorismo político – todos os personagens dominantes (dos elegantes togados do Judiciário aos toscos Irmãos Metralhinha), sem exceção, subestimaram também o poder de destruição uns dos outros. Assim como dos demais comparsas: a maior parte do Legislativo e o Palácio do Planalto – desde então convertido em um “bordel às avessas” (onde são os frequentadores que recebem pornográficas remunerações do cafetão).

Na plateia, porém, cada vez mais cidadãos já identificam o prévio roteiro da demolição nacional – os métodos de ação, as falsas promessas e os notórios falsários. Mas já distinguem também as motivações contrárias, que aos poucos emergem da perplexidade silenciosa. E, não por acaso, vão se aglutinando em torno do único grande referencial de estabilidade política e moral sobrevivente, cuja força anímica é proporcional às estrondosas explosões à sua volta: Luiz Inácio Lula da Silva.

Ainda assim, as extraordinárias demonstrações de afeto e confiança das multidões seriam, por si mesmas, um atestado de idoneidade do Lula? Depende do ponto de vista. Certamente não, para os contaminados pelo ódio de classe, que projetam o próprio fanatismo nessa “cumplicidade da gentalha”. Os capitalistas selvagens e egoístas, em geral, de fato acreditam, “racionalmente”, que as emoções intensas e espontâneas só podem existir como contrapartidas, ou arremedos, das volúpias do capital.

Os menos odiosos, mas não menos preconceituosos, reduzem as manifestações populares às expectativas e promessas “assistencialistas” das esquerdas. Muitos até admitem que a gratidão pelo Lula seja sincera, mas desproporcional ao que o povo recebeu como “esmolas”. Evidentemente, sob a ótica dos que nem sequer imaginariam viver sem esses direitos fundamentais – emprego, moradia, água, luz, educação, saúde e, acima de tudo, a dignidade da cidadania.

Em qualquer caso, quando os insanos admitem a sintonia do povo com o Lula (e vive-versa), no mesmo ato, são obrigados a reconhecer as efetivas realizações do PT. Para todos os brasileiros, portanto, cujos graus de miopia ainda não os condenaram à cegueira de si mesmos, a resposta para a questão anterior é certamente sim: não bastassem as evidências, Lula já apresentou todas as provas necessárias de seu caráter.

Mais além do óbvio, se a mera aparência de apatia da população sugere uma misteriosa passividade, existem outros instrumentos adequados para decifrar o enigma. Aos olhos dos sãos, dos míopes, ou dos enfermos, ainda que a Matemática pareça abstrata, ou a Psicologia seja demasiado imprecisa, não se veem obstáculos naturais ao mais abrangente dos conceitos políticos – a Democracia.

Mas talvez ainda não tenhamos o bastante para prever com exatidão as catástrofes naturais nem para autorizar as profecias. Na prática, porém, todos os brasileiros – silenciosos, perplexos, ou mesmo corruptos – já se preparam para adentrar o único estuário possível para os inúmeros efeitos do golpe: as eleições gerais de 2018.

Compreende-se inclusive os níveis distintos e opostos das expectativas ou das apreensões. O único fenômeno virtualmente incompreensível seria coagir o fluxo dos rios a contrariar a lei da gravidade. Assim como parece improvável que existam forças capazes de frear a torrente de votos dos calados à força, na direção de quem vem sendo o mais impedido de se comunicar.

Nem o próprio Lula pediu para voltar – muito menos como um criminoso midiático – à vida pública; da qual na verdade se despedira com a certeza de já ter cumprido o seu dever. O que foi corroborado pelos índices de aprovação nunca antes vistos – mas igualmente reconhecidos como idôneos – nas demais democracias do mundo moderno.

Estranhamente, sem uma única evidência concreta, sua imagem retorna à televisão como mais um bandido em meio aos tantos outros, cujas malas de provas são estarrecedoras. Não fosse o bastante, mais além das calúnias, não se vê uma única imagem positiva sobre a efetiva popularidade – passada e presente – do governante mais admirado da história do Brasil (goste-se dele ou não). E assim chegamos aos limites suportáveis até mesmo pelas consciências anestesiadas.

Se já não é possível negar (pela visibilidade material) a eclosão da violência, em todos os níveis sociais, logo perceberemos que tampouco será possível conter os espíritos nos antagonismos habituais – o ceticismo com a política, ou a crença em profetas; a passividade dos perplexos, ou a ousadia dos canalhas.

Assim como já não é possível encontrar referências nem alento em alguma “justiça” convencional – com tantas interpretações e conflitos insolúveis – que resulta ora inoperante, ora perfeitamente injusta. A partir deste ponto, a loucura “relativa”, autorizada aos homens, deverá se curvar ao conceito absoluto de restauração do equilíbrio – matemático e psíquico – determinado pela Natureza.

Em que pesem os esforços contrários da Globo, sobre nossas retinas e ouvidos, os cidadãos do mundo real – não os imponderáveis “agentes do mercado” – jamais lhe renovarão a procuração para nos retirar o direito natural de eleger nossos governantes, entre todos os candidatos naturais (incluídos os seus fantoches artificiais, por que não?).

Será isso ou a Guerra Civil, em suas várias modalidades (sobre as quais, no entanto, já escrevi uma eletrizante minissérie, em cinco capítulos). Profecias à parte, quem insiste em desprezar as formigas, pelo tamanho ou pelo silêncio, cedo ou tarde verá as reações do formigueiro, ainda que igualmente silenciosas. Exceto, é claro, os que optarem pela cegueira.

Ou pelos ruídos da Rede Globo, criados à medida de seus intelectos e expectativas emocionais. Ainda assim, que aproveitem enquanto perdure essa anomalia midiático-obscurantista-capitalista, numa democracia autêntica. O que também esperamos que seja só uma questão de tempo. Ou de alguma reação natural, à medida da contundência dos golpes sofridos pelos brasileiros. Por exemplo, as já ensaiadas invasões dos domínios ilegítimos da própria Globo.

 


 

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