17 – SOB O PONTO DE VISTA DA EMOÇÃO CORROMPIDA

Por Wilson Solon.  

O GOLPE

Como observadores, não tiraremos o foco dos indivíduos nem da sociedade, obviamente. Mas agora convém ajustar nossos fotômetros para temperaturas de cores mais altas, sob a perspectiva emocional da corrupção (assim como a racional, mais ou menos predominante na psique de um corrupto) e antes sublinhar que tratamos de perspectivas complementares e indissociáveis.

As paixões não se limitam a fornecer o combustível para a corrupção endêmica, como a nossa, e exigem “reflexões” proporcionais – sobre as imagens e ideias que nos confundem a visão. Para desconfundi-la, retorno com os filtros contra as emoções intensas, em suas múltiplas variações cromáticas.

Porém, desde logo (a exemplo da emblemática recusa da filósofa Márcia Tiburi em debater com o Kim Kataguiri), não perderemos tempo em polemizar com os enfermos extremos, cujo ódio não só ocupou todos os espaços na mídia mainstream, destinados aos argumentos e às informações, como já foi suficientemente analisado  pelas mídias alternativas, para que possamos prosseguir em direção à lucidez.

Premissas racionais

Exceto nos casos análogos (ao do “líder” acéfalo do MBL, ou dos bolsonaristas em geral), todos os demais cidadãos (os sãos e os enfermos menos graves) podemos comprovar, por experiência ou pelas estatísticas, que a ambição patológica e os ódios políticos são enfermidades quase exclusivas da direita.

Para os que ainda possam se exaltar com esta constatação, embora autoexplicativa, ou para os demais direitistas que não chegam a assumir-se como fascistas (mas tampouco se orientam por informações credíveis), explico mais uma vez o óbvio:

O cidadão de esquerda que não respeita outro ‘ser humano’ – a sua efetiva prioridade ideológica – já começa por fugir à regra social em que diz acreditar. E torna-se, por definição, uma esquizofrênica exceção – comprovável pelo percentual desprezível, quer dos políticos, quer dos transtornos mentais desse gênero.

Já o sujeito de direita, ainda que perca o respeito pelo ‘homem’, encontra justificativas e motivações na regra em que acredita, para continuar a perseguir o ‘capital’ – a sua prioridade ideológica. Assim se “legitimam” o desprezo (mais ou menos dissimulado) pelos “descapitalizados” e a cumplicidade com os que corrompem (ou, também literalmente, rompem em comum acordo) as regras sociais, em favor das “leis” de mercado.

Na “saudável competitividade” capitalista, tudo é possível. Menos a cura. Mas como tratamos agora das motivações, ou seja, das emoções que conduzem às discriminações e corrupções (morais e econômicas), convém estabelecer os paradigmas que preservam nossa imparcialidade, contra as meras antipatias ou simpatias pessoais.

Distorções emocionais da imagem

Seria desnecessário repetir que hoje, no Brasil, ninguém mais do que o Lula é objeto dessas subversões, patrocinadas pela Rede Globo. Por outro lado, à margem das ilusões de ótica dos mais passionais (favoráveis ou contrários ao ex-presidente), sua crescente admiração popular só se revelou por completo – vale dizer, pelo emocional e pelo racional – quando foi superada pelos excessos do lado oposto: os ódios sem qualquer razão e as razões sem qualquer fundamento.

Paradoxalmente, a ideologia dos “ganhos” foi o que fomentou as duas primeiras “perdas” nacionais: da lucidez e da capacidade afetiva. Mas há outras, decorrentes, que obstruem a “inteligência” dos capitalistas face à corrupção. E para uma análise imparcial das hostes e habitantes da direita, destaco as principais exceções à regra.

Nem todos percebem que são portadores do egoísmo (a consciência é mais uma perda habitual); e nem todos os egoístas inconscientes se tornam corruptos, evidentemente. No entanto, já andaram meio caminho nessa direção. E sempre poderão percorrê-lo de volta, antes de renunciar por completo ao próprio caráter. Ainda assim, já terá sido uma perda considerável, de tempo e energias mentais, no rumo equivocado.

Proponho, portanto, um breve retorno ao exercício de autoconhecimento, não mais em função de premissas racionais (negócios, ideologias, discursos políticos), mas como um reconhecimento do próprio egoísmo, enquanto membro da sociedade: a minha motivação estrutural seria o acúmulo de riquezas pessoais ou o combate à miséria social?

Recordo que as duas opções podem ser complementares, no dia a dia, mas são necessariamente excludentes como prioridade de vida. Percebê-la, com sinceridade, corresponde ao mais importante diagnóstico do coração humano, ao longo da vida. E a referência maior para os distintos caminhos do indivíduo: rumo às conquistas materiais saudáveis e legítimas, ou aos tratamentos para os respectivos desvios emocionais.

Em nossa incursão por esses territórios hostis, o ponto de vista emocional da corrupção é mais um instrumento ótico seguro. Estranhamente, muitos “especialistas” ainda veem as emoções como paradigmas imprecisos, ou demasiado subjetivos (embora a Física e a Matemática nos forneçam provas em contrário).

Voltemos assim aos sentimentos humanos – axiomas consensuais, indiscutíveis e comuns a todos os seres que, igualmente, utilizam um intelecto (ainda que se possa duvidar disso).

Observações axiomáticas

Pessoas comuns, em condições normais (digamos, nas 24 horas do dia, ou em 70 anos de vida), podem oscilar entre suas vocações altruístas e os pequenos atentados à ética. Todos também experimentamos os conflitos naturais da consciência, pelos eventuais desvios da ‘normalidade’ – sob a perspectiva moral, cultural, estatística, ou outra qualquer que se queira adotar – assim como, para os cúmplices e as vítimas, os atos mais ou menos odiosos e egoístas podem se tornar visíveis.

Alguns distúrbios, entretanto, caracterizam-se precisamente pela ocultação dos delitos (como nos racismos, nos abusos sexuais, ou nas práticas de corrupção). Não obstante, pela própria frequência ou compulsividade de certos hábitos antissociais, dificilmente seus efeitos permanecem ocultos por muito tempo.

Em resumo, quando os distanciamentos ou a preservação do equilíbrio natural obedecem a padrões e estatísticas cognoscíveis, passamos a reconhecer o indivíduo pelo que comumente chamamos de personalidade. Claro que não falamos de uma entidade rígida, como as estátuas, mas tampouco de oscilações súbitas e imprevisíveis. Quando estas ocorrem, são percebidas como transtornos de personalidade.

Diante dos indícios, os delinquentes tornam-se suspeitos, ora para os mais próximos, ora para a coletividade, como potenciais ameaçadores da harmonia social. Até que – e somente quando – as provas materiais sejam numerosas o suficiente para retirá-los de circulação (embora no Brasil alguns “juristas” mais criativos tenham retirado da norma civilizatória o próprio princípio da inocência).

No extremo oposto, alguns comportamentos revelam estatísticas edificantes, para quem os conhece (digamos, nas 24 horas do dia ou em 70 anos de vida). E quando personalidades admiráveis se tornam alvos de acusações improváveis – por parte dos adversários, de outros suspeitos ou de notórios delinquentes – as contradições dos acusadores se convertem em autênticos atestados de inocência para os acusados.

Há motivações que se afastam da “normalidade” estatística, para algum dos extremos. Com efeito, conhecemos inúmeros benfeitores – as heroínas anônimas que criam os seus filhos sozinhas, os filantropos em geral, ou alguns políticos, em particular – que dedicam horas de seu dia, anos de suas vidas, e tantas energias, em favor de seus semelhantes, que pouco lhes resta para outros desfrutes que não o prazer em si de servir.

Por outro lado, conhecemos também os malfeitores que só empregam energias em benefício próprio. E, com tal empenho, que tampouco lhes restam motivações para servir aos demais, como demonstra a nossa classe política, ainda que muitos deles afirmem o contrário. Mas só lhes dão ouvidos os que possuem afinidades nas mesmas práticas, sintonia com suas ambições, ou análogas corrupções de caráter.

Não só no Brasil, tais aberrações representam estatísticas qualitativa e quantitativamente desprezíveis (como, por exemplo, os 3% do “eleitorado” do Temer, que se confunde com o que poderia ser sua própria alcunha: uma “margem de erro”). Mas vale também para outros “mitos” cujas boas obras (jamais realizadas) são tão relevantes para seus admiradores quanto seus discursos vazios, para a imensa maioria da população.

Reitero, portanto, que os egoístas em grau patológico são minoritários em qualquer sociedade. Assim como os ruídos estrondosos dos fanáticos e seus seguidores jamais seriam comparáveis às multidões silenciosas, porém movidas pelos afetos genuínos. A não ser, é claro, quando – por alguma distorção da democracia – os danos sociais se materializam diante dos espectadores perplexos. Ou carentes de um cérebro capaz de tê-los previsto.

As provas na matéria bruta

O que talvez pareça demasiado teórico pode ser resumido no caso exemplar do próprio Temer, em detrimento de outros, mais sonoros. Mas cujas demolições da inteligência, por enquanto, se limitam aos discursos fascistas. O corrupto usurpador, por sua vez, ilustra a mediocridade em estado ainda mais “bruto” (na perspectiva do espírito), pois além da falta de construções e da hipocrisia dos discursos, já vimos sua assombrosa vocação para as destruições.

Na prática, portanto, já podemos nos perguntar: alguém em sã consciência acreditaria que um malfeitor deste calibre, no resto do tempo disponível, em seus dias ou anos de vida, ainda disporia de energias, sentimentos e motivações para se dedicar ao próximo? Ou preferiria permanecer alienado do mundo real para apenas usufruir do produto de seus saques?

Na mesma dimensão, mas na direção inversa: alguém em sã consciência acreditaria que um estadista da magnitude do Lula, após dedicar ao próximo tantas energias e sentimentos, ainda alimentaria propósitos egoístas? Ou simplesmente continuaria a zelar por sua obra no mundo real? E preferiria, no resto do tempo disponível, oferecer e usufruir do amor de um povo ao qual ninguém antes proporcionara uma vida digna?

A despeito das evidências, alguns insistem na tese de que o Lula, a exemplo dos golpistas, seria também um corrupto dissimulado, ao longo de 70 anos de vida. Talvez seja. Mas antes de incluí-lo nesse gigantesco percentual de nossa classe política, trata-se de um caso único, sob qualquer ponto de vista: além de um gênio político comprovado pela razão, o maior catalisador das mais nobres emoções humanas (e não só dos brasileiros); ainda assim, um delinquente!

Inversamente, fica cada vez mais evidente que seus acusadores – os néscios, os odiosos, os egoístas (e os juízes parciais) – apenas lhe transferem os seus próprios diagnósticos psiquiátricos. Via de regra, inspirados na ficção, onde vemos outros exemplos de personagens incoerentes, ou absolutamente enlouquecidos, ainda assim capazes de iludir os incautos, quando escapam das novelas e viram protagonistas da vida real, por obra e graça da Rede Globo de Televisão.

Nesta hipótese, Lula não deveria ser transformado em caso de polícia nem de justiça, mas ser tratado como um esquizofrênico em último grau. Bastaria, portanto, um exame clínico que o sentenciasse a cumprir sua pena num hospício. Ou teríamos que reinventar tudo o que se conhece até hoje na Psicologia e na História. E não apenas do Brasil, mas da espécie a que pertencemos.

 


 

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