4 – DA FORÇA DAS LEIS À LEI DA FORÇA

Por Wilson Solon.  

GUERRA-3
foto de Ana Carolina Fernandes

Em nossa guerra ainda velada (exceto para os brasileiros mais pobres, ou conscientes), de fato não se conhecem os respectivos exércitos, em números precisos: talvez os que lutam por convicção ideológica sejam tão poucos quanto os membros da elite e seus mercenários da classe média (que só o fazem por dinheiro).

A diferença entre os dois grupos, no entanto, revela-se na covardia dos últimos; mais precisamente, na valentia com que subvertem as leis e a ordem, em tempos de paz, e se escondem, quando alcançam seu objetivo de provocar os confrontos. Embora sempre recorram, “legalmente”, às forças estatais de repressão aos que “julgam” subversivos.

Há muito que esta etapa já tinha sido ultrapassada, de todas as formas. Sobretudo aqui no Rio e na emblemática República de Curitiba, a matriz não só das abusivas conduções coercitivas, mas das pancadarias aos “subversivos” – os perigosos professores que desafiaram os pacíficos policiais do PSDB do Paraná. Enquanto as “autoridades” locais desfrutavam do espetáculo das sacadas de seus palácios. Não por acaso, tudo passou quase despercebido no resto do país.

Numa guerra civil ainda informal, portanto, convém voltar à outra incógnita numérica já aludida; quanto mais não seja, para que aprendamos a nos proteger melhor das pancadas e gases lacrimogêneos (igualmente legalizados desde o impeachment): afinal, quantos serão os lacaios fardados das elites dispostos a eliminar os marginais e os terroristas (da esquerda, claro)?

Não sabemos ainda. E tampouco poderíamos quantificar os brasileiros que têm compromisso com alguma ideologia, ou consciência política da gravidade do que vivemos – como civilização. E estão dispostos a resistir nas ruas. Certamente, repito, os intelectos conectados são poucos.

Não obstante, eles formam o fio mais capacitado (entre os já referidos) a conectar-se também com o maior arsenal energético de uma sociedade: a gratidão do povo; não só pelos que defendem seus interesses, na prática, mas antes, por quem lhe permitiu conhecer o conceito de ‘dignidade humana’ – que jamais será esquecido.

Na direção inversa, diante do atrevimento de tantas quadrilhas associadas – parlamentares, judiciárias, empresariais, midiáticas e presidencial (sem falar das gangues urbanas) – restam outras incógnitas a serem investigadas: quantos degraus ainda teremos que descer, nessa guerra já tão assustadora; e que preço (não só monetário) estamos dispostos a pagar?

Com efeito, a esquerda vem cumprindo o seu papel constitucional (e moral) de preservar a paz, em meio a tantas balas e composturas perdidas. De fato não esperaríamos que essa resistência quase sobre-humana fosse reconhecida, ou sequer percebida pelo outro lado. Mas tampouco podemos confundi-la com um contrato sine die que, em meio ao caos social, já foi rasgado pelos próprios signatários da direita.

Compreensivelmente, a covarde desconstrução midiática do PT – tanto pela ideologia quanto pela “pacificação” (que chamei de “passivização”) das massas – realmente já colheu os frutos possíveis, antes que a prometida revitalização neoliberal expusesse os primeiros sinais do definhamento da própria árvore.

Contudo, desde então, assistimos também à “virtual” alteração de todo o quadro: a começar pela desmoralização (relativa, mas inédita) da Rede Globo; e prosseguiu pela gradual mas irreversível mudança na opinião pública; que afinal reconduziu o “chefe” (embora apenas nominal) dos golpistas à merecida condição de governante mais impopular do mundo; e o PT, de volta à posição de maior partido do Brasil.

Entretanto, por ironia (se cabe alguma), parece que o PT ainda espera alguma salvação, pela via política, que seu próprio eleitorado já lhe devolveu; assim como seus adversários já deixaram igualmente claro que jamais a devolverão pela via institucional, ou eleitoral.

Com efeito, a postura defensiva pouco mudou, entre os membros e aliados ideológicos do PT. Exceto pelos pronunciamentos incisivos da presidente Gleisi Hoffmann e seus liderados, não menos desafiadores dos golpistas. Ainda assim, discursos para ouvidos moucos, em plenário; quando muito, para consciências já esclarecidas, nos comícios, onde ninguém é realmente obrigado a sair das respectivas zonas de conforto.

E como já sabemos que as esquerdas sempre serão responsabilizadas por toda e qualquer perturbação da ordem social, podemos pular essa fase, na análise teórica da guerra civil. Apenas convém sublinhar que, até aqui, quer na teoria, quer na prática, ficou demonstrado – somente para o nosso lado – que os assaltos ao Brasil continuarão a avançar, sem qualquer constrangimento.

Portanto, já passou da hora de inverter o jogo, nos dois planos em que fomos empurrados para a defensiva, desde o golpe. Na ausência de outro “juízo supremo” (federal, institucional, ou moral) capaz de fazê-lo, cabe às esquerdas, quer na teoria, quer na prática, deixar evidente – também para o outro lado – a partir de que ponto não permitiremos mais que os assaltos ao Brasil continuem a avançar.

Como não tenho procuração do PT nem influência sobre as massas, limito-me a sintetizar as regras e exceções, boas ou más, fornecidas pela História e corroboradas pelo senso comum. Quanto às teorias insanas, já conhecemos as degenerações da imbecilidade golpista, que acreditou ser possível substituir a força da lei pela lei da força.

Sob esta perspectiva, vale reiterar as excrescências mencionadas nos capítulos anteriores, que brotam das mentes para a matéria – ambas literalmente brutas. O exemplo mais pedagógico foi (e continuará a ser) a guerra civil do Rio de Janeiro, cuja violência se revelou diretamente proporcional à brutalidade do desemprego, promovido pelo nosso temerário neoliberalismo. Mas não só.

Vemos também – ao contrário de nossas autoridades federais, estaduais e municipais – que as repressões massivas só fazem aumentar, proporcionalmente, os índices da violência urbana, como já ficou demonstrado desde as Olimpíadas aqui no Rio. Na prática, seria irônico, se não fosse trágico, que as duas polícias (civil e militar), o Exército, a Marinha e a Aeronáutica – reunidos – só tenham logrado desmoralizar suas próprias teorias “pacificadoras”.

Na política, analogamente, o segundo exemplo controverso já mencionado – dos verdadeiros “subversivos” das leis – seria de fato trágico, para as esquerdas, se não fosse irônico que as legislações (“moro-alisadoras” do PSDB), manipuladas à força contra o Lula, só fizessem aumentar, na mesma proporção, os índices inequívocos de sua força eleitoral junto ao povo.

Seria redundante, portanto, sugerir ao PT o que a incomparável lucidez política do próprio Lula já vem fazendo melhor do que ninguém: endurecer o discurso contra seus algozes do judiciário, e ampliar suas plateias entre os intelectos mais sensatos, de todas as classes sociais.

Vale destacar, a propósito, as estéreis controvérsias que envolvem seu advogado de defesa, o brilhante Cristiano Zanin, e que dividiram as opiniões inclusive no próprio partido. Para alguns, terá sido imprudente sua estratégia de enfrentamentos ao juiz Moro – estritamente jurídicos e regimentais – talvez a causa principal do excessivo rigor na condenação do Lula.

Outros, ao contrário, puderam observar que a farsa judicial já havia sido pensada, em detalhes, pelo conluio – do Judiciário, da PF e do MPF, com seus homólogos norte-americanos – cujas motivações hoje comprovadas (tanto pelos entreguistas de cá quanto pelos imperialistas de lá) antecederam e inspiraram a própria Lava Jato – a mais escandalosa operação de lesa-pátria alguma vez apoiada e transmitida em tempo real pela Globo.

Ninguém duvidaria que as subversões legais e o viés político do processo ficaram evidentes para Zanin, muito antes do que para a opinião pública. Por conseguinte, só lhe restavam duas alternativas: deixar-se confinar, junto a seu ilustre cliente, no terreno estéril onde as prévias intenções de condenar um inocente já eram conhecidas; ou arrastar Moro com a mesma força – mas ao contrário dele, sem perder a compostura – para o ringue onde Lula já sai vencedor.

E onde o tosco magistrado fatalmente deixaria cair as máscaras que dissimularam, por algum tempo, suas emoções doentias, sua claudicante inteligência política e, sobretudo, seu caráter efetivamente digno – de figurar nas mais torpes novelas globais.

Mas o que tem tudo isso a ver com a guerra civil? Voltemos às regras boas e más, e respectivas exceções, que eliminam as dúvidas de que o comportamento humano obedece a padrões emocionais e intelectuais preestabelecidos, para o bem ou para o mal. Seríamos então meros joguetes de um destino implacável? Ou, como querem os fanáticos religiosos, escravos da vontade de Deus (ou de algum “daltônico” pastor-procurador)?

Sim e não. Não devemos desprezar a mais divina prerrogativa à disposição do espírito humano: o livre-arbítrio. Com efeito, podemos escolher entre conhecer e seguir as regras que estão em sintonia com a Natureza, ou acreditar nas falácias dos ignorantes e pretensiosos que inventam suas próprias leis. E dão com os burros n’água.

Ou pagam o preço de serem arrastados pela correnteza, como determinam as leis naturais e comprovam as multidões de coxinhas imbecilizados, que ainda hoje permanecem submersos na própria vergonha. Na direção oposta, há também as exceções que se recusam a obedecer às leis contrárias à inteligência, às emoções generosas e à própria humanidade.

Nas democracias, tais exceções podem perfeitamente se converter em novas regras. Porém, quando o livre-arbítrio das maiorias é aviltado, as respostas podem começar pela desobediência civil ou, como está por ser comprovado, terminar pela guerra civil. Caso de fato prevaleça a vontade dos loucos, ou dos egoístas, sobre toda a sociedade.

Por ora, termino pelo exemplo teórico de que qualquer construção (ou destruição) humana obedece a uma anatomia prévia. Tal como a matriz imaterial de Goethe – a Urpflanze (a planta primordial, ideal, ou arquetípica) – a partir da qual todas as plantas se desenvolveram; ainda que resultassem distintas, segundo fatores biológicos e geográficos específicos. A mesma lógica evolutiva é válida para a mecânica das convulsões sociais.

Voltaremos aos exemplos práticos, no último capítulo desta série, através de uma análise sucinta da posição de cada um dos protagonistas de nossa evolução social; e dos antagonistas, que pretendem interrompê-la à força. Ou ainda, repito, das boas e más escolhas que façamos ou deixemos de fazer, como sociedade.

 


 

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