2 – AS RESPECTIVAS ARMAS

Por Wilson Solon.  

GUERRA-3
foto de Ana Carolina Fernandes

Em nossa dramática, patética, ou utópica guerra civil, segundo a preferência, já conhecemos não só as armas como os equívocos mais evidentes acerca do respectivo adversário; a começar pela avaliação da “coragem” de usar ou não essas armas. Na verdade, a inusitada e despudorada iniciativa dos conflitos, pela direita, expôs o avesso das imagens que os já velhos “neo” – fascistas e liberais – tentaram nos impingir.

Vimos que os mesmos políticos foram capazes de exibir uma ousadia messiânica e acusatória que, não obstante, desnudou todas as dimensões da covardia: da monumentalidade, antes dissimulada, da própria corrupção, à atuação minúscula de seus delegados, procuradores e juízes particulares; tão valentes contra vítimas indefesas quanto subservientes às ordens de seus efetivos mentores: as elites econômicas nacionais, os capitalistas internacionais e os roteiristas “globais”.

À esquerda, no entanto, a passividade esperada pelos golpistas – como premissa de seu êxito – revelou-se um obstáculo intransponível. Não falo do povo, cujos sinais de resistência, por enquanto, só são vistos na irrefreável popularidade do Lula, ou nos desfiles de carnaval. A “equação Brasil” ainda oculta suas principais incógnitas: os respectivos sentimentos de todos os seus membros. A rigor, só conhecemos as manifestações extremadas de um dos lados, e como talvez em nenhum outro contexto de confronto iminente.

Em resumo (do capítulo anterior), somente o Brasil foi capaz de exibir suas patologias em estado tão bruto: pelo emocional, através do egoísmo e do ódio das elites contra seu próprio povo, hoje ameaçado em seus direitos mais fundamentais; e pelo intelecto, através de grosseiras manipulações das informações e das leis, em benefício de uma parcela desprezível, em todos os sentidos, de nossa imensa população.

Paradoxalmente, porém, enquanto nos confrontos sociais conhecidos houve ao menos uma exibição de fé (ainda que equivocada) nas respectivas “verdades particulares”, a hipócrita direita tupiniquim optou por exibir suas assustadoras faltas: de pudor, diante das próprias mentiras; de caráter, nos massacres a adversários sabidamente mais dignos; e de boa fé, ao romper todos os pactos legais e sociais outrora firmados.

As esquerdas, ao contrário, vêm demonstrando apenas uma extraordinária capacidade de resistência a esses inauditos ataques. Até que se convençam em definitivo – através, por exemplo, da imagem emblemática de três magistrados venais e covardes – de que já não vivemos em um Estado de Direito. Nem em Democracia.

Diante dessas terríveis constatações, para a maioria do povo, quem viver verá que a insegurança jurídica apenas começa por impedir a conciliação com qualquer tipo de bandido. E acaba por estimular a reprodução em série de todos os tipos conhecidos. Outro desafio, portanto, consiste em saber até onde o consórcio parlamentar-judiciário-midiático terá coragem de estender os seus crimes já explícitos.

Mas sabemos também que, diante de um povo organizado e determinado a resistir aos arbítrios, os covardes se escondem, enquanto podem, atrás de mais uma incógnita a ser decifrada: a quantidade real de “soldados armados, amados ou não, quase todos perdidos, de armas na mão” (na antológica definição do Vandré), dispostos a repetir a malfadada experiência de calar à força os seus iguais – e não menos dispostos a defender os direitos conquistados, afinal, por toda a sociedade.

Por isso elegi a bela foto acima como a mais emblemática dessa ignorância política e da cegueira moral às quais fomos traiçoeiramente submetidos. Entretanto, há claros sinais de que os sentimentos populares mudaram, em relação a uma constante que já ameaça se tornar uma variável: no Brasil (e na América Latina, por decorrência), não foi preciso derramar sangue, para que conhecêssemos as virtudes da redução das desigualdades.

Uma vez adquirida essa consciência, nem os mais distraídos se esquecerão de seus direitos sociais já consagrados. Sem mencionar as conquistas materiais, nunca antes tão concretas, para eternos condenados à miséria (que tampouco hesitarão em conservá-las). Contudo, esses fatores até aqui preventivos das guerras civis – pois antes assertivos da dignidade da vida – são agora desprezados, não por acaso, pelos artífices de um golpe (moralmente) natimorto.

Em outras palavras, ou imagens, nossa perspectiva de mundo inverteu-se no tempo e (geometricamente) no espaço: as lutas sociais outrora vistas como obras ficcionais de vanguarda (com ou sem final feliz), hoje já podem ser revistas com as câmeras colocadas na retaguarda, como documentários sobre uma felicidade real.

A luta, portanto, jamais voltará a ser apenas uma opção ideológica abstrata. Nem uma simples vocação revolucionária, virtualmente estranha ao nosso povo. Para os brasileiros, será tão somente uma reação natural, quase um reflexo condicionado. Como se algum bandido trapalhão se atrevesse a invadir nossa casa e ameaçar nossos entes queridos com um canivete. Ninguém vacilará diante da primeira oportunidade de lhe passar uma rasteira.

Com efeito, as armas oficiais dos nossos “assaltantes de elite” podem sugerir uma ameaça bem mais letal. Mas, a rigor, apenas dissimulada, tal como nas viroses que infestam o judiciário, sem fazê-lo perder a pose. Ainda assim, ou “justamente” por essa tosca letalidade, obrigá-los a depor suas armas será apenas uma questão de tempo.

No plano doméstico, por conseguinte, tanto o legítimo direito à autodefesa quanto a intensidade da contra-violência serão determinados exclusivamente pelos efetivos violentos. Mas também já vemos que o despudor das elites não precisará sequer de pretextos, como até agora, para reprimir com violência cada vez maior o ritmo natural do processo civilizatório.

Na direção inversa, porém, seja por atavismo histórico, seja por definição física, as reações naturais surgirão proporcionais às ações (mais ou menos violentas, como na Natureza). E uma vez rompido o pacto democrático estabelecido entre todos, na Constituição de 1988, haverá cada vez mais defensores das distintas formas de “reação das massas” (mais ou menos físicas, mas cientificamente previsíveis).

E todas tão desastrosas para as elites quanto têm sido os seus golpes nas mesmas massas. Na matéria, veremos, na melhor das hipóteses, a resistência pacífica, as greves e os comícios de rua; na pior, as quebradeiras dos genéricos “vândalos”, ora sem causas aparentes, ora cujos efeitos são bem mais conscientes.

Como a desobediência civil. Ou a outra ideia que amadurece em função do destino do Lula: o boicote do PT às eleições. Esta que parece ser uma visão “celestial”, sob a miopia das elites (e de alguns “esquerdistas” perfumados), será também, aos olhos do mundo democrático, o contragolpe fatal na hipocrisia: uma inconcebível “legalização da ditadura” de direita, sem o aval da maioria (já hoje, absoluta) da população – na segunda democracia do Ocidente e a maior do Hemisfério Sul.

Nos chamados “mercados”, sabemos que este paradoxo não seria capaz de suscitar qualquer constrangimento moral, mas sim de ressuscitar o mais assustador de seus fantasmas: uma irreversível instabilidade jurídica, política, econômica e social. Ironicamente, portanto, só eles terão a perder, com o que 200 milhões de pessoas forem impedidas de ganhar.

As piores hipóteses da violência, contudo, não são sequer conjecturas econômicas. E apenas seguirão o curso “natural” de uma guerra civil (já hoje, repito) bastante visível. Sobretudo a partir dos grandes centros urbanos: nas enxurradas de balas perdidas pelos “marginais” (ora literais, ora policiais) ou nas revoltas carcerárias, cada vez mais frequentes e brutais.

Embora nossas elites custem a admiti-lo, já não tratamos apenas de revoltas dos párias contra a sociedade civilizada, senão contra um conceito de “justiça” tão seletivo (e partidário) na interpretação das leis quanto resultou, inevitavelmente, parcial e sectário nos sistemas prisionais. Pois antes, nos “sistemas mentais”, já aprendemos a conviver com as deformações teratológicas produzidas pelo capitalismo-televisivo.

Na economia, por exemplo, os aludidos fantasmas do “mercado” são, na realidade, virtuais e inofensivos para as elites (embora reais e demolidores para as massas assalariadas). Assim como, na política, seria igualmente metafísico citar exemplos palpáveis do “pensamento” coxinha; ou do vazio ainda mais emblemático – de ideias e sentimentos – do chamado ‘bolsonarismo’ (a rigor, nada mais do que um boçal-nazismo).

Last but not least, em religião, nós hereges já conhecemos as ameaças “intelectuais” do projeto de poder (“divino”) representado pela bancada e políticos neopentecostais; e também na prática, na gestão pirofóbica do prefeito do Rio, cujo “temor infernal” do carnaval o fez fugir pelo mundo – da maior e mais rentável festa popular de sua cidade, ou de seu país (aliás, do mundo) – deixando a cidade submersa na violência e, literalmente, na enxurrada de incompetência administrativa dos falsos moralistas.

Não fosse o bastante, já vemos imagens não menos bizarras, de grupos proto-militares evangélicos (os marombados “soldados do Cristo”, ou outra denominação não menos contraditória), dispostos à luta em defesa de suas “ideias”. Com efeito, só Deus é capaz de dizer quais seriam elas. Por outro lado, vale lembrar os evangélicos lulistas, que não são poucos. Nem tão contraditórios, pois ao menos podem ser gratos às suas igrejas sem ser ingratos com o Lula.

Seja como for, numa sociedade exposta a tantos fios desencapados, ninguém pode prever com exatidão as respectivas descargas elétricas. Nem onde nem quando se darão os contatos entre eles, ou qual seria a intensidade dos choques. Mas ninguém ignora as pré-condições necessárias e suficientes para uma reação em cadeia – já tão previsível quanto a frequência dos “curtos-circuitos” mentais do temerário usurpador.

Na realidade material, tudo pode começar por alguma privatização eletrizante (insisto, para o bolso das massas), como da própria Eletrobrás; ou terminar pela retirada dos direitos previdenciários, particularmente dos jovens (e, portanto, os mais aptos e dispostos a resistir). Não por acaso, parece que até mesmo a cegueira golpista já o percebeu, e mudou o foco.

Contudo, a fagulha incendiária pode vir também de uma nova decisão desastrada de algum magistrado – o efeito mais desconcertante das “febres amarelas” que assolaram o país nos últimos anos. Precisamente porque a variante judiciária – a lulofobia – revelou uma gigantesca fraude “terapêutica”, que vale a pena investigar com atenção (no próximo capítulo); embora como a constante mais recorrente na referida “equação Brasil”: o fracasso anunciado das medidas profiláticas da direita.

O que já nos permite, por outro lado, antever novos “tratamentos de choque” contra os imprevistos eventuais (à esquerda e nas classes “inferiores”, claro). Em tese, através do esvaziamento do conceito social de Justiça, em “benefício” da Segurança – cujas “instituições” mais pragmáticas já foram conhecidas (ou escondidas) o suficiente, na ditadura anterior.

Na prática, porém, só agora vemos o ovo da serpente ser proposto, aberta, oficial e literalmente, num sintomático Ministério da “Segurança Pública” – Ideológica? Política? Classista? Rentista? Fascista? Moral? – para o qual devem ser transferidas as forças de repressão do Estado, até aqui subordinadas a algum tipo de supervisão (ainda que trôpega) do Ministério da Justiça. Mas ainda um freio moral, político, filosófico e psicológico, contra as arbitrariedades.

Essas e outras medidas “emergenciais”, sob tantos critérios particulares, antagônicos e arbitrários – como na temerária intervenção militar no Rio de Janeiro (da qual ainda falaremos) – assim como as disputas insaciáveis entre os próprios donos do poder, a propósito, são componentes clássicas e estruturais das guerras civis conhecidas.

 


 

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