4 – SOB O PONTO DE VISTA DA ESQUIZOFRENIA GLOBAL

Por Wilson Solon.

O GOLPE Prosseguiremos o que chamei de optometria dos brasileiros. Com a ressalva de que o País, visto da Europa, em meados da década passada, já “emitia” duas imagens sobrepostas, ou a radiografia de uma esquizofrenia “global” (ainda que somente aos meus olhos): uma nação inteira e seus habitantes submetidos a uma nebulosidade quase imperceptível (mas hoje suficientemente comprovada).

Assim se explica por que não considerei a hipótese racional de voltar ao Brasil, embora as componentes emocionais conspirassem na direção contrária: o povo e o PIB brasileiros explodiam de felicidade, durante os governos do Lula; assim como as imagens exportadas enchiam de orgulho os brasileiros d’além-mar – ora com o “consentimento”, ora apesar dos boicotes ainda discretos da Globo.

Vale lembrar que a emissora, então à beira da falência, seria “salva” pelo recém-eleito presidente. Ou pelo menos não receberia dele o tratamento merecido, não só pela mais endividada concessionária de um serviço público, mas, sobretudo, por um monopólio de comunicação especializado em moldar as mentes do público (literalmente, à sua própria imagem).

Em suma, entre a bancarrota e a bancada do Jornal Nacional (de onde o novo presidente foi apresentado ao mundo), digamos que se estabelecera um acordo de “cavaleiros”, que na verdade não eram nem deixavam de sê-lo, sob os respectivos pontos de vista. Para a Globo, o Lula jamais deixaria de ser um operário duplamente emergente – da escória da sociedade e da sub-raça nordestina – embora, inevitavelmente, já fosse também o legítimo mandatário supremo da nação.

A Globo, por seu turno, fora a mais pérfida criatura e, desde que nascera, a (mal) dissimulada recriadora das perfídias da ditadura. Não obstante, para o pragmático e visionário presidente eleito, ela poderia ser também um instrumento conveniente para afastar de si as suspeitas e temores gerais. Com efeito, logo ficou claro para as audiências que o demolidor em potencial do mercado financeiro nacional – e quiçá do capitalismo continental – nunca tivera este propósito.

Por outro lado (da esquizofrenia e do Atlântico), acima das alegrias do povo, poucos viam o espectro do “polvo” (relevem a obviedade em prol da eficiência do trocadilho), cujos tentáculos e ventosas doseavam – entre a acidez das notícias e o dulçor das novelas – a ingestão de nutrientes aos “televiciados”; e continuariam a dominar essas mentes indefesas (ainda que seus corpos fossem cada vez mais revitalizados pelas políticas sociais do PT).

Contudo, recém-falecido o Brizola, já ninguém se importaria mais com a estranha simbiose; e muito menos nesses períodos em que os emergentes da pobreza se confundem com os mais abastados, sob as máscaras da prosperidade. Embora, na verdade, somente os ingênuos e os neófitos da classe média se deixassem confundir com as traiçoeiras elites. Estas, por sua parte, apenas fingiram aceitar as diferenças incontornáveis.

Nesse jogo de espelhos – ou de vaidades de classe invertidas – as aparências e dissimulações sociais encontravam uma perfeita correspondência na hipocrisia global. Até que alguma crise arrancasse as máscaras tanto dos pobres quanto dos ricos; e rasgasse as fantasias dos ditos “pactos sociais” entre partes tão desiguais – como prometem ser os novos “acordos” trabalhistas, historicamente determinados pelos que não querem enxergar nem reduzir as desigualdades.

Compreensivelmente, ninguém tampouco quis ver o polvo sobre o povo (nem Lula, nem Dilma, nem o PT). Do seu ponto de vista, porém, o “octópode global” nunca hesitou em lançar sua nuvem de tinta púrpura sobre quem ameaçasse capturar imagens muito próximas de sua sombria “realidade”; ao mesmo tempo em que capturava os que estivessem ao alcance de seus tentáculos, para embriagá-los com seu coquetel de purpurinas, comprovadamente viciante.

As leis geométricas – válidas para a visão e para as ilusões de ótica (ou da consciência) – igualmente comprovam que, quanto mais próximo das “televentosas” de alta definição, mais difícil será definir a imagem real da Globo. Este paradoxo visual entretanto já não era o meu, há dez ou quinze anos; seja porque continuei a ver o monstruoso espectro à distância (com a mesma clarividência brizolista), seja porque minha prioridade era outra nessa altura.

Na verdade era um duplo dilema: deixar ou não a direção de televisão, como já disse, e perceber se a crise profissional resultava de uma exaustão temporária ou se, ao contrário, seria o prenúncio de uma opção definitiva. Por razões óbvias (e óticas), viver ou não sob uma ditadura cultural jamais figuraria na equação dos meus novos rumos profissionais – qualquer que fosse o meio exterior.

Muito menos enquanto não surgisse um veredicto “interior” e “definitivo”, que tampouco brotaria em solos europeus (nem no Brasil, nos anos seguintes). Antes, por ironia, Portugal e Espanha (até então governados pelos socialistas) igualmente sucumbiriam ao melancólico neoliberalismo europeu; e a Catalunha (onde vivi), além disso, a um patológico provincianismo independentista. Com efeito, não eram visões inspiradoras para quem pensava sobre imagens verdadeiramente libertárias.

Não obstante, conservei a premissa e o compromisso da imparcialidade (já explícitos nos depoimentos anteriores e, repito, desde sempre ignorados pela Globo). Portanto, ainda que nenhuma emissora me influenciasse diretamente, em outro hemisfério, tampouco seria possível negar, em sã consciência, a interferência de um monopólio de comunicações sobre todos os brasileiros – inclusive no exterior.

Por outro lado, podemos imaginar o que teria sido a vida de qualquer técnico ou artista se vivêssemos num mercado audiovisual realmente competitivo; e proporcional às dimensões e à produção de riquezas do Brasil, durante os anos bombásticos do PT. Provavelmente, eu teria cogitado voltar, na altura; e quando de fato voltei, talvez tivesse retomado o ofício de diretor ou roteirista.

Mas além de admitir que a existência da Globo já interfere com cada brasileiro, pela própria inexistência da pluralidade, admito também que os prognósticos individuais são sempre especulativos, para o bem ou para o mal. No entanto, os diagnósticos sociais, a posteriori, podem ser tão precisos quanto as radiografias médicas, para os olhares especializados, quando se baseiam em estatísticas.

Ou quando são registrados em imagens – autênticas impressões “digitais” (outrora magnéticas, fílmicas, pictóricas) da realidade. Em exemplos ainda mais gráficos, todos conhecemos a imagem da “ponte para o futuro”, oferecida pela Globo aos brasileiros; assim como os seus “eleitos” (artistas, políticos, policiais, procuradores, juízes e um presidente usurpador) encarregados de conduzirem a bizarra construção.

Antes de qualquer exercício de futurologia, já temos as estatísticas – do tal futuro além da ponte – que corroboram a “radiografia” de uma esquizofrenia. Contudo, citar os indicadores econômicos e sociais seria desnecessário, uma vez que podemos resumi-los: sob os governos populares e democráticos, todos os índices apresentaram crescimentos expressivos. Assim como desabaram todos junto com a ponte.

Exceto o desemprego recorde de nossa história (a partir de 2015), proporcional às múltiplas derrocadas – dos investimentos sociais, do PIB, da autoestima e do próprio País – cujos números assustadores foram registrados, por uma assinalável coincidência, um ano depois do menor índice histórico de desemprego, quando uma camarilha de bandidos decidiu que a presidenta Dilma já não governaria a partir de então.

Analogamente, na política, seria redundante (ou repugnante) recordar as imagens e sons “globais” que ainda tentamos arrancar de nossas mentes. Mas também podemos resumi-los, matematicamente: 100% dos expoentes máximos do consórcio PSDB-PMDB já eram bandidos praticantes, quando foram induzidos pela Globo a assaltar o poder, o que foi comprovado por seus próprios áudios e vídeos.

Como também se comprovaria que o futuro referido era de fato tão próximo quanto nos fora prometido, pois 100% dos líderes golpistas – Aécio, Temer e Cunha – já foram presos, no sentido literal ou moral (uma vez condenados pela opinião pública), ou seja, por 100% dos que têm alguma opinião formada. É também o que chamo de “efeito bumerangue da direita”, do qual voltarei a falar.

Mas algum fenômeno ótico ainda insiste em obscurecer as imagens evidentes de um golpe; e impedir não só a renúncia ao poder, dos próprios parasitas fisiológicos, como as reações de indignação da população. Não obstante, já é possível perceber que a inércia coletiva, uma vez mais, é proporcional aos casos de miopia, cegueira, ou esquizofrenia de milhões de brasileiros. Em outras palavras, às efetivas renúncias da consciência quanto às verdadeiras intenções de poder da Rede Globo.

Prosseguiremos assim na direção oposta (ao poder e ao momento atual), como já vínhamos fazendo, para evidenciar outras sutilezas que não estão nos detalhes (ou nas aludidas “televentosas”), mas nas imagens que se revelam somente nos planos gerais, quando afastamos nossas câmeras. No próximo depoimento, portanto, observaremos as intenções ocultas (ainda que evidentes) nas renúncias genéricas, bem como nas respectivas distinções – entre as que são genuínas e as que mal dissimulam sua voracidade de poder.

 


 

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