3 – SOB O PONTO DE VISTA DOS MÍOPES

Por Wilson Solon.

O GOLPE

Como antecipado no último depoimento, vou eliminando aos poucos uma eventual curiosidade do leitor acerca da trajetória profissional deste (ex-)diretor de televisão, que antes dos 50 anos (e ao longo da última década) decidiu renunciar ao atrativo universo dos “famosos” e, por conseguinte, à divulgação das próprias imagens e ideias.

Mas por que um cineasta que optou pelo ostracismo renunciaria agora à própria renúncia? E como esperar que volte a ser ouvido? Começo, portanto, pela retificação dos equívocos que podem ocorrer a todos – desde uma estúpida celebridade televisiva aos lúcidos leitores anônimos que não me conheceram (ou já se esqueceram de mim).

A rigor, somente optei por ajustar o foco sobre imagens imprecisas – ora mal associadas, ora (literalmente) imaginárias – do chamado “meio artístico”, embora divulgadas como evidências de uma fervilhante convivência social e cultural (sobretudo quando em sintonia com o “circuito global”).

E antes mesmo de explicar a opção em si, pelo silêncio, saliento que não fui privado da visão (nem da lucidez do olhar) sobre as sociedades em que vivi, mas apenas dos incômodos e desilusões de conviver com egos desorientados pela miopia da fama. De outro ponto de vista, o silêncio até ampliou a capacidade de distinguir os míopes dos lúcidos, nas relações “anônimas” (que às vezes deixamos passar despercebidas).

Nesse vasto e impreciso território do anonimato, enfim, já compreendo inclusive a “lógica” oposta, dos que assumem estar “cagando” para qualquer opinião ou reflexão “fora da caixa” (ou de quadro, como prefiro) e se orgulham de engrossar o coro de outros falastrões igualmente superficiais, porém mais especializados em defecar em público.

Seja como for, suponho que cada autor ou orador tenha motivações próprias para verbalizar seus pensamentos (e até para proferi-los sem pensar). Ou, ao contrário, talvez já não tenha intenção alguma de falar. Para quem de fato encontrou mais motivos para estar em silêncio, qualquer comunicação passa a ser um luxo dispensável; e os interlocutores, tecnicamente supérfluos.

Confesso que, entre tantos violadores do conceito de humanidade – a começar pela sua própria – e outros arautos da destruição nacional, passou a prevalecer em mim a mesma falta de motivações para novos diálogos. Em outras palavras, minhas recíprocas permanecem verdadeiras, em relação aos eventuais leitores: não persigo likes, nem compartilhamentos, nem a aprovação de ninguém. A rigor, nem mesmo leitores.

Mas tampouco sou indiferente ao carinho, às sintonias da matéria e do espírito (em especial). Solenemente, portanto, respeito quem concorde, discorde, ou ignore as minhas ideias. Mas antes, ignoro quem não as respeite. E a mesma reciprocidade aplicava-se à Rede Globo (como instituição, não aos seus profissionais, ou meus antigos colegas), nas décadas em que nos desprezamos ou nos ignoramos, mútua e democraticamente.

Ou enquanto vivíamos em democracia, e podíamos perder todo o respeito por essas “organizações”, sem precisar desrespeitá-las em público. Algo “virtualmente” impossível, desde o golpe. Quando a perda do respeito – pela cidadania e por cada cidadão – não só violou o direito ao silêncio, de uns poucos, como resultou nos sonoros escândalos nacionais, hoje conhecidos de todos.

Entretanto, os telespectadores atentos sabem que na realidade ocorreu o inverso: foram todos os abalos sísmicos da política – a partir dos movimentos de rua em 2013 – que efetivamente resultaram das manipulações da mesma Globo – ora apenas “dirigidas” por seus interesses econômicos, ora também “diretoras” das convicções políticas enfiadas goela abaixo da população.

Deu no que deu. Curiosamente, com a crescente percepção do caos “global” – político, jurídico, econômico, social, moral – essas informações ”luminosas” e diretrizes messiânicas “revelam-se” cada vez mais inócuas e conflitantes entre si, embora para os crentes mais fanáticos ainda pareçam tão redentoras como a palavra de Deus.

Por outro lado, a incredibilidade e a imprevisibilidade das imagens, nos tempos que correm, não as impedem de serem registros fidedignos do golpe midiático-parlamentar; desde as primeiras fraudes aos derradeiros fracassos políticos e econômicos. Todo esse “material” armazenado “nas nuvens”, por ironia, são evidências concretas e duradouras à disposição dos futuros estudiosos da televisão (quando também eles forem mais independentes e menos míopes).

Contudo, o aspecto confortador é saber que todas essas imagens trazem o logotipo da grande ideóloga política e porta-voz econômica da ruptura institucional. Assim, as visíveis relativizações do presente – as mudanças de posição, mentiras e desmentidos da Globo – não gerarão novas dúvidas, no futuro, quanto à autoria e direção dos espetáculos criminosos, cometidos contra a nação e a população brasileiras.

A propósito dessa relatividade do “tempo global”, no meu caso pessoal, reitero que a Globo não foi a primeira de minhas renúncias profissionais; nem teve influência direta sobre a última (às interações sociais e midiáticas). Na verdade, eu já havia trabalhado cinco anos em Portugal quando decidi deixar a direção de televisão (e o próprio país, antes de viver a segunda metade da década passada na Espanha).

Nessa altura, portanto, além das razões pessoais (desnecessárias aqui) para mais uma mudança, eu nem sequer me lembraria da(s) emissora(s) de televisão no longínquo Brasil. Mas tampouco deixaria de pensar, um só dia, nas causas das narrativas manipuladas. E nas imagens que também evidenciam, ora os graus individuais de miopia, ora as cegueiras coletivas.

Na “direção” inversa, deste observador, todos os fatos desastrosos e deprimentes (apenas “revistos” aqui com lentes alternativas) são de conhecimento público. E minhas próprias experiências profissionais são comprováveis, apesar da imaterialidade de alguns registros. Ainda assim, as imagens são provas mais consistentes do que as apresentadas até hoje pela Globo, por exemplo, contra o Lula.

Em suma, afastar-me das lentes e das câmeras (já estando por trás delas) não seria sequer uma renúncia, como confirmaremos. E mesmo que o seja, em parte, não foi e penso que nem será a última. Por outro lado, em nome da imparcialidade que falta à Globo, nenhum diretor consciente poderia negar essa fantasmagórica interferência, mais ou menos direta, na “visão” e na vida de todos brasileiros.

Para não descer (ainda) aos porões mais obscuros da política ou da economia “globais” – onde se fabricam desde seleções de futebol a presidentes da República – comecemos nossa optometria (ou seja, a medição do campo de visão) pelo efervescente bazar cultural, com seus artigos e artistas de luxo (e respectivas obras de teatro, cinema, etc.).

Nesse espaço, a que muitos chamam “cultura”, a mesma emissora é também quem patrocina, censura ou vomita o que quer na nossa cara. Inclusive algumas produções admiráveis, admito. Com este artifício, o estética e o politicamente corretos funcionam como um contraponto “natural” ao seu próprio discurso – ultraliberal de direita – para legitimá-lo como “democrático”.

Dos discursos ficcionais à prática “pedagógica”, criou-se afinal um campus avançado (de concentração?), nessa metáfora do Projac conhecida como “República de Curitiba”. Onde bizarras interpretações – de delatores, delegados e dallagnois – se encarregaram de destruir reputações, para o “bem” (no sentido evangélico) ou para mal.

Não falo sequer nos critérios da “justiça” (já ambígua por si mesma), ali inexistentes. Refiro-me aos casos concretos de difamações e torturas – como o de Marisa Letícia e do reitor Cancellier – que são emblemáticos das ambiguidades contidas nos modernos critérios da fama. Embora suas mortes, na nova realidade midiática, nem sequer sejam “vistas” na TV, muito menos como efetivos assassinatos.

Ainda assim, tudo ali parece tão verossímil quanto os demais mitos igualmente divulgados pela Globo: o “mercado”, templo sagrado de seus opinadores econômicos; a “normalidade democrática”, o mantra de seus políticos de estimação; e a própria pretensão de incluir no conceito de Cultura uma aberração – antinatural e anticultural – como o monopólio audiovisual de uma nação continental.

Quando a hipocrisia já indigesta ao estômago, ademais, patrocina uma flagrante violação da própria democracia, cada frame de imagem torna-se um atentado a todas as retinas e ouvidos. De novo na “direção” inversa, mas tal como na Globo, continuarei a retratá-la com várias câmeras, para que algum desses pontos de vista possa revelar o tratamento mais adequado a cada miopia.

No próximo depoimento, acrescento ao foco a perspectiva do tempo e o distanciamento no espaço: o Brasil visto da Europa, em meados da década passada. A rigor, o mesmo país “emitia” duas imagens sobrepostas. O que chamei de optometria, portanto, já era também (ainda que somente aos meus olhos) a “radiografia” de uma esquizofrenia global.

 


 

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